A Doença do Enxerto contra o Hospedeiro (DECH) se tornou mais conhecida recentemente do público com o caso da influenciadora digital Isabel Veloso, que morreu aos 19 anos em janeiro deste ano, após complicações decorrentes do tratamento contra um Linfoma de Hodgkin, que já durava quatro anos. Em outubro de 2025, a jovem foi submetida a um novo transplante de medula óssea (TMO), tendo seu próprio pai como doador.

A DECH, na verdade, consiste em uma complicação imunológica severa que figura entre as principais causas de mortalidade pós-transplante. As estatísticas médicas apontam que a DECH é um desafio frequente nos centros de transplante do país, afetando uma parcela expressiva de quem recebe a doação alogênica (de terceiros).

Uma abordagem terapêutica avançada desenvolvida no Brasil promete transformar o prognóstico de pacientes submetidos ao transplante de medula óssea. Pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) estão na vanguarda do desenvolvimento de um tratamento inovador com células-tronco para combater a DECH.

O projeto visa preencher uma lacuna crítica de assistência no Sistema Único de Saúde (SUS), que atualmente não dispõe de todas as medicações de alto custo necessárias para os pacientes resistentes a corticoides.

O mecanismo inovador do MesenCell

O tratamento convencional de primeira linha baseia-se na administração rigorosa de corticosteroides para conter o processo inflamatório. No entanto, muitos pacientes desenvolvem resistência a essas substâncias, demandando imunossupressores mais potentes e com alta toxicidade. É nesse cenário crítico que se insere o MesenCell, uma terapia pioneira no país que utiliza células-tronco mesenquimais extraídas da medula óssea de doadores saudáveis, as quais são cultivadas, processadas em laboratório e criopreservadas para uso imediato.

Diferente das alternativas tradicionais que apenas mitigam os sintomas, a nova terapia intervém diretamente no foco patológico. De acordo com a Dra. Carmen Kuniyoshi Rebelatto, coordenadora do projeto e responsável técnica do Centro de Tecnologia Celular da PUCPR, a substância consegue neutralizar a hiperatividade do sistema de defesa.

Quem ataca principalmente são as células do tipo T e B, e a nossa terapia diminui a proliferação dessas células. É um efeito que a gente consegue ver até em laboratório. Então, ela atua na base, liberando alguns fatores solúveis que vão modular todo os sistema imunológico do paciente, diminuindo a proliferação dessas células e melhorando toda a inflamação.” — Dra. Carmen Kuniyoshi Rebelatto

Resultados promissores e reversão de sequelas graves

Os dados obtidos no estudo-piloto inicial, conduzido com 11 voluntários diagnosticados com a forma crônica da DECH, apontam alta eficácia terapêutica. Metade dos indivíduos acompanhados obteve remissão completa do quadro clínico. Mais impressionante ainda foi o índice de melhora setorial: o tratamento reverteu 75% dos comprometimentos gastrointestinais e alcançou 100% de eficácia na eliminação de sintomas dermatológicos severos.

Carmen Rebelatto ressalta a capacidade do fármaco em reverter quadros de esclerodermia decorrentes da enfermidade, condição caracterizada pelo acúmulo excessivo de fibroblastos que enrijecem o tecido cutâneo. “A pele fica endurecida, como se fosse uma carapaça, e aí o paciente vai perdendo mobilidade. A gente conseguiu reverter esse processo”, detalha a pesquisadora.

Próximos passos e democratização do acesso

Uma nova fase de ensaios clínicos está agendada para iniciar em setembro de 2026. O estudo contará com a participação de 20 pacientes e testará uma formulação otimizada do MesenCell, considerada mais viável para a escala médica.

Os testes ocorrerão de forma multicêntrica em três instituições de referência no estado do Paraná: o Complexo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (CHC-UFPR), o Hospital Erasto Gaertner e o Hospital Nossa Senhora das Graças.

O estudo é financiado com recursos públicos federais da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq. Para a futura produção em larga escala e distribuição comercial, o centro universitário projeta parcerias estratégicas com a indústria farmacêutica.

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O drama pós-transplante e o caso Isabel Veloso

O drama das complicações causadas pelo transplante de medula ganhou forte repercussão nacional através do relato de figuras públicas. Como acompanhamos aqui no Portal Vida e Ação, a jovem Isabel Veloso enfrentou uma severa rotina de superação associada ao tratamento de um Linfoma de Hodgkin. Após passar por um transplante de medula óssea alogênico, cujas células foram doadas por seu próprio pai, o período pós-procedimento evidenciou o quão delicada é a reabilitação.

Relatos de familiares na época destacaram os desafios físicos, as dores e as incertezas enfrentadas na UTI diante das reações do organismo às novas células de defesa, ilustrando a realidade de milhares de pacientes anônimos que travam a mesma batalha nos hospitais brasileiros. A influenciadora acabou morrendo após dois anos de luta, acompanhada por seus milhares de seguidores nas redes sociais.

Principais fatores diagnósticos

A DECH ocorre quando o novo sistema imunológico — originado das células doadas — não reconhece o organismo do receptor, iniciando um ataque agressivo contra os tecidos do paciente. A complicação pode se manifestar de forma aguda nos primeiros 100 dias após o procedimento, afetando primordialmente a pele e o trato gastrointestinal com sintomas que vão de severa vermelhidão e ardência a náuseas e disfunções hepáticas.

Na sua forma crônica, que pode surgir meses ou anos depois, a doença é capaz de comprometer múltiplos órgãos, provocando rigidez tecidual limitante, úlceras e severa dificuldade respiratória. Entre os principais fatores que levam ao diagnóstico da doença estão:

  • presença de fatores de risco.
  • receptor de transplante alogênico de células hematopoéticas (HCT)
  • novo episódio de lesões bucais dolorosas.
  • lesões cutâneas hiperpigmentadas.
  • exantema maculopapular difuso.
  • sinais e sintomas genitais.
  • náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia profusa e anorexia

Com informações da Agência Brasil

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