A precoce partida do fisiculturista e influenciador fitness Gabriel Ganley, aos 22 anos, jogou luz sobre uma realidade preocupante que ultrapassa as fronteiras dos palcos de competição: a saúde cardiovascular de jovens que buscam a alta performance e a estética extrema.

Após a intensa repercussão do caso, termos técnicos como cardiomiopatia hipertrófica, morte súbita e hipertrofia miocárdica invadiram as redes sociais, transformando o luto em um debate médico urgente.

Embora a cardiomiopatia hipertrófica seja uma patologia de origem predominantemente genética, especialistas alertam que determinados hábitos e o uso de substâncias sem controle médico podem potencializar drasticamente a sobrecarga no aparelho cardiovascular, atuando como gatilhos para desfechos fatais.

Recentemente, VIDA E AÇÃO alertou sobre o risco de morte prematura em jovens atletas amadores e profissionais devido à parada cardíaca súbita (PCS). Agora, trazemos a visão de duas especialistas que acompanham o tema bem de perto. Confira!

Força por fora, risco por dentro

Para Fernanda Weiler, médica cardiologista do Hospital Sírio-Libanês de Brasília e diretora do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida (CBMEV), o momento exige responsabilidade técnica para separar a desinformação das evidências científicas.

A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença genética e o uso de anabolizantes não é considerado a causa direta do diagnóstico. No entanto, essas substâncias podem aumentar significativamente o risco cardiovascular, favorecer arritmias, elevar a pressão arterial e gerar uma sobrecarga importante no músculo cardíaco”, explica a cardiologista.

A médica faz um alerta contundente sobre a falsa percepção de saúde construída nas plataformas digitais, onde o volume muscular é frequentemente confundido com pleno bem-estar.

Ter um corpo musculoso ou um baixo percentual de gordura não significa necessariamente que o coração esteja saudável. O sistema cardiovascular pode estar sofrendo silenciosamente. O uso frequente e sem acompanhamento médico de esteroides anabolizantes está associado a complicações severas, como hipertensão, alterações drásticas do colesterol, aumento do risco de infarto, insuficiência cardíaca e arritmias potencialmente fatais”, afirma a Dra. Fernanda Weiler.

O perigo oculto das doenças assintomáticas

De acordo com a especialista, o uso dos Esteroides Anabolizantes e Similares (EAS) promove modificações estruturais deletérias no coração, incluindo o espessamento das paredes celulares do órgão. Em indivíduos que já carregam uma predisposição genética subjacente, o cenário se torna uma bomba-relógio.

O maior obstáculo para a prevenção é o caráter silencioso dessas cardiopatias. Muitos jovens desconhecem completamente que possuem uma anatomia cardíaca vulnerável por nunca terem apresentado sintomas em repouso.

Em alguns casos, o primeiro sintoma pode ser justamente um evento grave ou a morte súbita. Por isso, avaliações cardiológicas periódicas são fundamentais, especialmente em pessoas submetidas a treinos de alta intensidade ou que utilizam substâncias para melhora estética e performance. Existe uma romantização da alta performance e da estética extrema que muitas vezes ignora os riscos envolvidos. Precisamos falar mais sobre prevenção, acompanhamento médico e saúde real”, defende a médica do Hospital Sírio-Libanês.

Morte súbita no esporte: o que diz a ciência?

A preocupação com a Parada Cardíaca Súbita (PCS) em jovens esportistas tem mobilizado a comunidade científica internacional. Estatísticas globais apontam que a incidência varia de 1 a 3 óbitos para cada 100 mil atletas anualmente. Embora os números absolutos pareçam discretos, o impacto social dessas fatalidades é imenso, pois choca a opinião pública ao derrubar o mito de que atletas representam o segmento mais imune a falhas biológicas da sociedade.

Um amplo estudo publicado no The New England Journal of Medicine (NEJM) revelou dados cruciais sobre as mortes súbitas que afetam adolescentes e adultos jovens em todo o mundo. A pesquisa indica que a incidência anual de PCS atinge um em cada 66 a 88 mil adolescentes, sendo de três a cinco vezes maior em homens e em atletas negros.

As principais causas de Parada Cardíaca Súbita em atletas abaixo de 25 anos:

  • Canalopatias (19%): Doenças de origem genética que afetam os canais elétricos do coração, gerando arritmias letais sem alterações estruturais visíveis, além de causas não explicadas.

  • Cardiomiopatia Hipertrófica (13%): Doença hereditária que causa o espessamento do músculo cardíaco, dificultando o bombeamento correto do sangue e abrindo margem para colapsos elétricos.

  • Anomalia na origem das artérias coronarianas (11%): Malformações congênitas nos vasos que irrigam o próprio coração.

O artigo do NEJM trouxe ainda uma importante atualização epidemiológica: o risco de morte súbita estritamente relacionado à doença arterial coronariana obstrutiva (entupimento de artérias por placas de gordura) apresentou uma redução significativa na faixa etária a partir dos 25 anos.

Contudo, para além das causas puramente congênitas e genéticas, os pesquisadores reforçam que o uso abusivo de esteroides anabolizantes desponta como um fator extrínseco determinante para o desencadeamento da PCS, registrando uma prevalência alarmante no universo do fisiculturismo.

O abismo estatístico do fisiculturismo profissional

Enquanto a incidência de morte súbita de origem cardíaca em esportes coletivos e de resistência (como futebol, basquete e maratonas) é considerada rara — mantendo-se geralmente abaixo de 2 casos por 100 mil atletas ao ano —, os dados voltados ao fisiculturismo profissional revelam um cenário de extrema vulnerabilidade.

Estudos científicos indicaram que, entre atletas de elite do fisiculturismo, a taxa de mortalidade por complicações cardíacas agudas atinge a marca impressionante de 193,6 por 100 mil atletas. O índice é cerca de 14 vezes maior do que o registrado entre praticantes amadores e expõe o preço dos protocolos de alta dosagem. O panorama nacional também ligou o sinal de alerta nas confederações esportivas devido ao número desproporcional de óbitos na modalidade em comparação com esportes tradicionais.

Análises de gênero e idade apontam que cerca de 75% das mortes súbitas cardíacas no esporte ocorrem em indivíduos do sexo masculino, com uma proporção de 3 a 4 vezes maior do que em mulheres, manifestando-se com maior frequência após os 12 anos de idade, período de transição para o estirão puberal e início de rotinas competitivas intensas.

Prevenção e o caminho para o retorno seguro

Para mitigar essas tragédias e garantir a segurança na prática esportiva, a literatura médica preconiza a adoção rígida de estratégias de prevenção em duas frentes:

Prevenção Primária (A Triagem Pré-Participação)

Consiste na realização de um protocolo de rastreamento simples e de baixo custo antes do início dos treinamentos. A combinação de um exame clínico detalhado (anamnese e histórico familiar) com o eletrocardiograma (ECG) de repouso é capaz de detectar entre 65% e 70% das condições cardíacas letais subjacentes.

Para Silvana Vertematti, pediatra especializada em Cardiologia Esportiva e Medicina Esportiva Infantojuvenil do Hospital Edmundo Vasconcelos, em São Paulo, o investimento na triagem é a melhor ferramenta de proteção coletiva.

A importância dos estudos recentes é mostrar que o rastreamento acessível pode salvar a vida de muitos atletas amadores e profissionais. O planejamento adequado e o conhecimento da própria condição de saúde são os melhores recursos para evitar que jovens percam a vida nas quadras, pistas ou academias”, pontua a Dra. Silvana.

Prevenção Secundária (O Atendimento de Emergência)

Caso a fatalidade se manifeste em campo ou durante o treino, a sobrevida do atleta depende diretamente da infraestrutura local. O uso imediato do Desfibrilador Externo Automático (DEA) associado às manobras de ressuscitação cardiopulmonar registra uma taxa de sobrevivência expressiva, que varia de 48% a 89% dos casos, desde que o primeiro choque de desfibrilação ocorra em menos de três minutos após o colapso.

O DEA revelou ser um aliado vital no momento de eventos trágicos, desde que a atuação da equipe seja rápida e coordenada”, acrescenta a médica do Hospital Edmundo Vasconcelos.

Como prova da eficácia desse modelo integrado, o estudo internacional monitorou 201 atletas que foram diagnosticados preventivamente com condições cardiológicas suspeitas. Graças ao manejo clínico individualizado, ao ajuste de cargas de treino e ao monitoramento constante, nenhuma morte foi registrada ao longo do período de acompanhamento desse grupo.

Tomada de decisão compartilhada

A descoberta de uma cardiopatia não significa necessariamente o fim definitivo da carreira esportiva. Evidências clínicas crescentes indicam que muitos atletas podem retornar à prática de atividades competitivas após passarem pelo tratamento específico e pela estabilização da doença, sem que isso represente um incremento no risco de novos eventos.

Atualmente, as principais sociedades médicas internacionais consideram o retorno razoável e apropriado por meio da chamada “tomada de decisão compartilhada”, um processo em que médicos, atletas, comissão técnica e familiares avaliam detalhadamente os riscos e definem estratégias de contingência.

“Esse é sempre o objetivo do atleta, dos clubes e dos médicos do esporte. Promover o retorno com uma estratégia médica bem-definida e individualizada é essencial para garantir a segurança clínica e preservar a carreira do desportista”, esclarece a Dra. Silvana Vertematti.

O imponderável em evidência: casos que chocaram o esporte

Quando episódios de morte súbita atingem atletas de visibilidade, a comoção social impulsiona especulações e questionamentos. O histórico recente traz exemplos dolorosos de que doenças ocultas não escolhem cenários.

Um dos casos de grande repercussão foi o da corredora amazonense Anna Sol Faria. Residente na capital paulista há uma década, a atleta faleceu durante uma corrida de rua em decorrência de um infarto agudo do miocárdio associado a uma condição cardíaca congênita que até então não havia sido diagnosticada.

No âmbito profissional, o zagueiro uruguaio Juan Izquierdo protagonizou um dos episódios mais emblemáticos e dramáticos do futebol sul-americano. O atleta sofreu uma parada cardíaca em pleno gramado do Estádio do Morumbi durante uma partida ao vivo entre São Paulo e Nacional de Montevidéu pela Copa Libertadores da América. Izquierdo foi prontamente atendido e hospitalizado, mas faleceu dias depois em decorrência das complicações neurológicas causadas pelo período de hipóxia.

Jogadores de futebol, corredores, fisiculturistas e frequentadores de academia têm registrado essas ocorrências que, em sua grande maioria, poderiam ser evitadas se as patologias ocultas fossem identificadas precocemente por meio de exames preventivos de rotina”, conclui a especialista do Hospital Edmundo Vasconcelos.

Mitos e verdades sobre anabolizantes e o coração

Para ajudar os leitores a navegarem com segurança sobre o tema, a Dra. Fernanda Weiler esclarece os principais mitos e verdades que envolvem o uso de hormônios e a saúde do miocárdio:

  • A cardiomiopatia hipertrófica pode passar anos sem manifestar sintomas? VERDADE. “A doença pode evoluir de forma totalmente silenciosa no organismo. Sintomas como desmaios sem causa aparente, palpitações, dor no peito e falta de ar desproporcional durante a execução de exercícios físicos comuns merecem investigação médica imediata.”

  • Os anabolizantes deixam apenas a musculatura esquelética (estética) mais forte? MITO. “O impacto biológico não fica restrito aos músculos visíveis do espelho. O coração também é um músculo dotado de receptores hormonais e sofre consequências estruturais e elétricas severas com o bombardeio dessas substâncias.”

  • O uso de anabolizantes aumenta o risco de eventos cardiovasculares? VERDADE. “Mesmo em indivíduos jovens, sem histórico de comorbidades e com rotina ativa, o uso indiscriminado e em doses suprafisiológicas dessas substâncias está diretamente associado a infartos, acidentes vasculares cerebrais e arritmias malignas.”

  • Apenas atletas profissionais de alto rendimento necessitam de avaliação cardiológica? MITO. “Hoje observamos um contingente alarmante de jovens amadores e frequentadores recreativos de academias utilizando substâncias de alta potência e hormônios veterinários sem qualquer tipo de avaliação médica prévia. É um comportamento de extremo risco.”

  • O histórico familiar de morte súbita merece atenção médica redobrada? VERDADE. “A ocorrência de mortes súbitas ou precoces na árvore genealógica (pais, tios ou irmãos que faleceram antes dos 50 anos por problemas cardíacos) acende um forte sinal de alerta para a presença de genes associados a miocardiopatias e exige triagem clínica minuciosa.”

Quer acompanhar de perto os desdobramentos das investigações e as próximas reportagens exclusivas da série especial BOMBA LETAL? Clique aqui e entre agora mesmo no canal oficial do Vida e Ação no WhatsApp para receber alertas de saúde, orientações médicas de qualidade e checagens de fatos diretamente no seu celular.

Com informações de assessorias dos Hospitais Sírio-Libanês (Brasília) e Edmundo Vasconcelos (São Paulo).

 

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *