Muito além da diversão, a brincadeira constitui uma das principais ferramentas para a estruturação emocional, cognitiva e social das crianças. Em comemoração ao Dia Mundial do Brincar, celebrado em 28 de maio, especialistas em neurodesenvolvimento alertam que o lúdico funciona como um verdadeiro “laboratório da vida”.
É por meio dele que os pequenos ensaiam situações do mundo real de forma segura, aprendendo a gerenciar sentimentos, superar frustrações e consolidar relações. Embora o telefone celular ofereça doses de prazer imediato às crianças, a tecnologia não é capaz de substituir as experiências motoras e afetivas que dão base à saúde mental na vida adulta.
A neurociência do brincar e a regulação das emoções
A inteligência emocional que se valoriza nos adultos começa a ser edificada ainda na primeira infância. Atividades físicas simples — como correr ou pular corda —, jogos em grupo e dinâmicas de faz de conta são essenciais para ensinar a dinâmica de compartilhar, esperar a vez e aceitar as perdas.
De acordo com a psicóloga e neuropsicóloga Tatiana Serra, vivenciar a derrota em um jogo é uma oportunidade pedagógica de ouro. Quando a criança lida com a frustração sob a mediação saudável de um adulto, ela aprende a regular suas próprias emoções.
Pesquisas no campo da neurociência comprovam que o brincar ativa áreas cerebrais profundas associadas à memória, à criatividade e à empatia. Crianças que usufruem de tempo para o brincar livre, blindadas do excesso de direcionamentos e do confinamento das telas, exibem maior autonomia e competência para solucionar problemas práticos do cotidiano.
Estratégias domésticas: o ambiente como modulador
Nas grandes cidades, o adensamento urbano e a escassez de áreas públicas de lazer fazem com que o uso de dispositivos eletrônicos cresça cerca de 20% nos períodos de recesso escolar. Para reverter esse cenário sem impor proibições radicais — o que destoa da realidade familiar moderna —, o segredo está em reorganizar o design da casa e a rotina.
A especialista em primeira infância Roberta Scalzaretto esclarece que o ambiente doméstico é o principal modulador de comportamento. Quando caixas de jogos, tintas, papéis, blocos de montar e livros são deixados de forma visível e acessível no campo de visão da criança, a transição do ambiente virtual para o analógico acontece de forma natural.
A presença participativa dos pais também atua como um ímã de engajamento. Bastam alguns minutos de atenção plena do adulto — sentando-se no chão para iniciar a brincadeira ou observar — para que a criança se sinta segura e passe a brincar de forma autônoma na sequência.
Adicionalmente, os especialistas orientam que reduzir drasticamente o uso de celulares e tablets no fim da tarde melhora de forma expressiva o padrão do sono infantil, diminuindo a irritabilidade. Buscar o equilíbrio, coibir telas à noite e investir em interações face a face é o melhor mecanismo para construir laços afetivos duradouros e proteger a saúde mental das futuras gerações.
Leia mais
Mais brincadeiras, menos telas: 5 dicas para as férias escolares
Como resgatar as brincadeiras ao ar livre na era digital?
15 brincadeiras para curtir com a garotada nas férias
Brinquedos simples e inclusão no neurodesenvolvimento
Garantir o desenvolvimento integral da criança não exige investimentos financeiros robustos em tecnologia ou em itens sofisticados. A escolha dos objetos deve prezar pela segurança, faixa etária e interesse, lembrando que os brinquedos mais caros raramente são os melhores.
Luciana Brites, psicopedagoga, psicomotricista e CEO do Instituto NeuroSaber, aponta que recursos analógicos e acessíveis são os que mais ativam o raciocínio e o tônus físico. Ela sugere a divisão de atividades em três grandes eixos práticos:
-
Estímulo ao foco e raciocínio lógico: Jogos de tabuleiro, quebra-cabeças, blocos de montar, instrumentos musicais e jogos de memória desafiam o pensamento estratégico.
-
Fortalecimento motor e corporal: Brincadeiras como dança das cadeiras, amarelinha, bambolê, telefone sem fio, queimada com bola e atividades com “pés de lata” aprimoram a coordenação.
-
Imaginação e linguagem: Dinâmicas de dramatização (teatro), desenhos livres, a brincadeira de passa anel, músicas e o ato de recontar histórias estimulam a criatividade.
A especialista, que é mestra e doutoranda em Distúrbios do Desenvolvimento, faz um destaque importante para a neurodiversidade. Brinquedos sensoriais — a exemplo das pelúcias — são grandes aliados para o bem-estar, regulação emocional e manutenção da atenção, exercendo um impacto altamente positivo em crianças com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
Para receber orientações práticas de psicopedagogia, alertas de saúde infantil e as reportagens do nosso portal diretamente no seu celular, inscreva-se no canal oficial do Vida e Ação no WhatsApp.






