O desfecho do Big Brother Brasil 26, nesta terça-feira (21/4), ficará marcado não pelas festas ou estratégias de jogo, mas por um clima de luto e intensa polarização, antecipando o que se deve esperar nas redes sociais da campanha presidencial deste ano. A morte do advogado e ex-deputado federal Gerardo Henrique Machado Renault, aos 96 anos, pai da campeã Ana Paula Renault, transformou o reality show em um laboratório de ética humana sob os holofotes.

Quis o destino que Gerardo partisse dois dias antes da grande final do programa, do qual a sister era a grande favorita desde antes de entrar na “casa mais vigiada do Brasil”, graças a uma controversa estratégia de marketing, que incluiu investimentos pesados em redes sociais para garantir votos da torcida e individuais (por CPF). Mas o que mais chamou a atenção e dividiu opiniões foi a decisão de Ana Paula de continuar no programa, em vez de priorizar a despedida do pai junto da sua família.

O Brasil se viu diante de uma pergunta incômoda: quanto vale o último adeus? A decisão da jornalista de permanecer na disputa, mesmo após ser comunicada do falecimento, expôs as rachaduras de um país que, em pleno ano eleitoral, reflete seus valores morais e políticos até mesmo no entretenimento, frente a um drama familiar explorado sem pudores pela emissora.

Entre o “sonho do pai” e a acusação de frieza

A divisão de opiniões nas redes sociais foi imediata. De um lado, a “tropa” de Ana Paula – incluindo anônimos e celebridades – defendia que a permanência seria uma homenagem póstuma, respeitando o desejo declarado de Gerardo de vê-la campeã. Muitos defenderam que ela nada poderia fazer depois da morte – o que importava agora eram os momentos vividos entre pai e filha antes de ela entrar no BBB 26.

De outro, críticos ferozes apontam o que chamam de frieza e “ganância desmedida”. “Está mais preocupada com o dinheiro, cadê o amor que ela dizia sentir pelo pai?”, escreveu um internauta. “Se ela gostasse tanto do pai como dizia não teria aceitado entrar no BBB sabendo que ele estava mal de saúde”, disparou um usuário no X (antigo Twitter).

‘Eu falei para ela ficar (na casa), mas eu não ficaria’, disse aliado

A postura de Ana Paula gerou espanto até entre os próprios aliados que dividiram o pódium com ela. Juliano Floss e Milena Moreira, admitiram que não teriam a mesma força — ou desapego — para seguir no jogo. “Eu falei pra ela ficar aqui (na casa, até a grande final), mas eu não ia ficar”, disse Juliano Floss. A também finalista Milena concordou que escolheria a família. “Eu também não ficaria não”.

Ainda segundo Milena, o pai de Ana Paula já estava sofrendo muito. “Foi melhor pra ele”, comentou. “Tenho certeza que ele deixou um vídeo ou uma carta para ela”. Parecia adivinhar: mal foi divulgada a morte e surgiu nas redes sociais um vídeo em que Gerardo manifesta apoio a filha – só não foi informado quando o mesmo foi gravado já que o pai da participante estava há meses muito doente, sendo 16 dias internado em estado grave.

No programa atual, a fala de Milena sobre o estado de saúde prévio de Gerardo sugere que a fragilidade do idoso já era de conhecimento da família, o que alimenta o debate sobre a responsabilidade afetiva em nome de um prêmio de R$ 5,44 milhões.

O apoio de Gerardo à filha diverge do apresentado durante a edição 2016, em que Ana Paula acabou sendo expulsa após dar dois tapas na cara de outro participante, o modelo Renan Oliveira, com o qual ela chegou a tentar engatar um romance. Na ocasião, antes da expulsão, circularam notícias nos próprios canais da Rede Globo de que Gerardo desaprovava o “lado explosivo” da filha (veja aqui).

A exploração da dor pela emissora

A condução do caso pela Rede Globo também é alvo de escrutínio. Na noite de um domingo (19), Ana Paula foi chamada ao confessionário para ser informada sobre o falecimento de seu pai. A notícia foi confirmada oficialmente ao público pelo apresentador Tadeu Schmidt durante a edição ao vivo, gerando uma crise de choro os jardins da casa.

A emissora foi acusada de tentar “faturar” em cima da comoção nacional, na tentativa de recuperar a audiência perdida nas últimas semanas, em meio a severas críticas de manipulação e favoritismo em benefício de Ana Paula e seus aliados. A tentativa de humanizar a decisão ficou mais nítida quando Tadeu Schmidt quebrou o protocolo e informou aos finalistas sobre a perda recente de seu irmão, o ídolo do basquete Oscar Schmidt, ocorrida na última sexta-feira (17/4).

A fala foi vista por muitos como uma manobra narrativa para validar a permanência de Ana Paula e abafar críticas de manipulação. Sobre a decisão de permanecer no programa, em meio às críticas do lado de fora, o apresentador saiu em defesa explícita da jornalista, antecipando o que a emissora desejava – que ela não desistisse do programa na reta final.

Eu respeito demais qualquer coisa que você fizer, a gente te admira demais, é uma honra ter você aqui com a gente. Imagino que Seu Gerardo estaria te aplaudindo. Assim como meu irmão diria – ‘Tadeu, não se atreva a ir embora'”, disse.

O próprio apresentador, aliás, mostrou que mais importante do que a despedida do irmão era o espetáculo. Horas após a morte do ícone do basquete brasileiro, Tadeu apresentou o BBB e, em meio a lágrimas, fez uma homenagem ao irmão. Ao Fantástico, na noite de domingo (19), também disse que o ex-jogador de basquete não gostaria de saber que ele faltou ao trabalho por sua causa.

Após um período de reflexão sobre a perda e sua permanência no jogo, a sister decidiu continuar na disputa pelo prêmio. Logo após tomar sua decisão, ela desabafou com Juliano Floss e, após a saída de Boneco na eliminação daquela noite, compartilhou a notícia também com Milena.

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Herdeira da direita e “esquerdista de Taubaté”

A polêmica em torno da decisão de Ana Paula ganhou contornos políticos devido ao histórico de Gerardo Renault, figura ligada à direita histórica (Arena). Enquanto o pai construía um patrimônio sólido na política mineira, Ana Paula, formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trilhava um caminho de polêmicas, na tentativa de se firmar como participante de realities e outros programas de entretenimento.

Apesar de tentar usar temas da agenda política progressista  – como o fim da escala 6×1 – dentro da casa, a sister recebeu o rótulo de “filhinha do papai”, “burguesa de BH”, “esquerdista de Taubaté” e muitos outros. O último apelido, aliás, surgiu após internautas resgatarem declarações da própria jornalista que, aos 44 anos, nunca teve carteira assinada e admitiu ter consumido parte da herança materna.

Com falas muitas vezes incoerentes e agressivas, desrespeitando e xingando os adversários, Ana Paula esvaziava pautas relevantes, como o combate ao machismo, à misoginia, ao etarismo, ao racismo e a intolerância religiosa durante embates com brothers e sisters com “lugar de fala”. Os confrontos envolveram desde Babu Santana e Sol Vega (alvos de racismo estrutural) até Solange Couto (vítima constante de etarismo e uma onda de cancelamento comandada pela torcida de Ana Paula).

Ana Paula também desprezou a dor de Jornada Morais. vítima de assédio sexual dentro do programa, xingou a mãe de Alberto Cowboy e fez chacota da sua religiosidade inúmeras vezes, além de passar pano para outras falas preconceituosas de seus aliados Samira, Juliano e Milena. Também não faltaram comentários misóginos, classistas e depreciativos contra Maxiane, Sarah, Aline e Marciele, dentre outros.

Revelando seu perfil narcisista, Ana Paula dizia representar “a beleza e o caos” dentro da casa e satirizava os adversários, autoproclamando-se “a bruxona”. Dentro do reality e do lado de fora, foi apelidada de ‘patroa’ – por usar Milena para fazer os trabalhos domésticos. Preguiçosa e autoritária – inclusive com a produção -, foi chamada de mimada por se recusar a usar um dos figurinos e se orgulhava de dizer que sequer lavava suas próprias calcinhas em sua própria casa.

O impacto da “máfia digital”

Outro ponto crítico desta edição é a suspeita de um favoritismo artificial. Analistas de redes sociais apontam que a narrativa de Ana Paula foi impulsionada por uma estrutura profissional de páginas de fofoca e influenciadores, a chamada “máfia digital”.

Eu tenho muita coisa para gerir, tenho que pagar ela (minha irmã Cida). Pra gente entrar aqui, você sabe, a gente assume dívidas”, relatou Ana Paula ao tentar justificar por que não poderia deixar o programa após o falecimento do pai.

A declaração reforça as denúncias de que Ana Paula financiou grandes páginas, perfis e canais nas redes sociais para forjar a imagem de “grandona” e favorita, com objetivo de influenciar a torcida do lado de fora, antes mesmo de entrar na casa, criando um favoritismo artificial, apoiado por grandes influencers vinculados à suposta “máfia digital”.

Além de levantar questões sobre a integridade do sistema de votação, a fala reforça a suspeita de que o suposto “luto” de Ana Paula estaria sendo gerenciado estrategicamente para garantir a vitória, independentemente do custo emocional e familiar.

‘Se eu sair, nem os R$ 50 mil eu levo!’

Inicialmente, a família decidiu que não comunicaria a morte de Gerardo à Ana Paula. Mas, já cientes do resultado favorável no jogo, as irmãs Cibele, José, Cida e Ana disseram que gostariam que ela permanecesse no programa e que estariam na terça-feira, na saída do programa, para abraçar a vencedora.

Tudo que papai queria era que ela fosse até o fim. Ele estava assistindo ela todos os dias, era desejo dele, realizasse o sonho, de ver ela brilhando como está brilhando. A gente gostaria que ela permanecesse. Vamos esperá-la sair campeã, realizando o sonho do nosso pai”, disseram as irmãs.

A família decidiu não adiar o velório e enterro para quarta ou quinta-feira, para que Ana Paula pudesse participar na quarta ou quinta-feira. Se desistisse do programa na reta final, pelas regras do jogo, Ana Paula poderia ficar em terceiro lugar, levando um apartamento no valor de R$ 270 mil e uma premiação de R$ 50 mil. Porém, preocupada com a premiação em dinheiro, Ana Paula comentou: “Se eu sair, nem os R$ 50 mil eu levo!”.

Nos últimos 10 anos, ela tentava impor sua imagem polêmica em participações curtas em realities e programas de TV, com uma trajetória marcada por comportamentos agressivos e desrespeitosos em relação aos seus adversários.

O segredo em torno do quadro de saúde e da herança de Gerardo

Gerardo Renault faleceu no domingo (19/4), 16 dias depois de ser internado em um com confusão mental, desidratação e infecção urinária, típico de um quadro grave de septicemia (infecção generalizada). Possivelmente não estaria mais lúcido ou consciente desde que foi internado em 3 de abril. No entanto, a família optou por não divulgar detalhes sobre o estado de saúde de Gerardo, nem comunicar a Ana Paula sobre a hospitalização.

O político deixa cinco filhos. Do primeiro casamento, nasceram René – o único homem -, Gisele e Cibele. Já com Maria da Conceição Machado Renault, que faleceu em 1998 em um acidente de carro -, teve Ana Paula e Maria Aparecida (Cida) – esta última, a caçula da família, hoje com 40 anos. Mas pelas informações amplamente divulgadas pela família, era exclusivamente com o futuro de Ana Paula que Gerardo se preocupava, já que ela havia torrado parte da herança deixada pela mãe.

Dificuldades financeiras, no entanto, não parecem ser problema para Ana Paula, apesar do seu perfil perdulário. Conhecido pela defesa de causas ligadas à direita, o ex-parlamentar eleito pela Arena – partido que rivalizava com o então progressista MDB – deixou um patrimônio bastante expressivo, porém, mantido em segredo, possivelmente para sustentar a narrativa de que a Ana Paula precisava do prêmio para garantir uma “aposentadoria digna”.

A herança de Gerardo Renault ainda não teve um valor total exato e oficial divulgado publicamente para fins de inventário. Apesar de ser considerada uma família “rica e tradicional” de Minas Gerais, os valores detalhados de imóveis e ativos deixados pelo pai de Ana Paula ainda devem passar pelo processo legal de partilha entre os herdeiros.

No entanto, com base no histórico familiar e na trajetória do político, é possível prever que Gerardo tenha deixado uma considerável fortuna para seus herdeiros, visto que construiu um patrimônio consolidado através de uma longa carreira na política de Minas Gerais, onde atuou como vereador, deputado estadual e deputado federal. Ele também era advogado formado pela UFMG.

A pobre menina rica: por que Ana Paula ‘chorava miséria’ no BBB 26?

Ana Paula já possuía uma situação financeira confortável antes mesmo do falecimento do pai, tendo recebido uma herança significativa de sua mãe. Durante sua participação no BBB 26, foi amplamente discutido que a jornalista sempre teve apoio financeiro do pai e se sustentava com investimentos próprios. 
Apesar de uma formação acadêmica sólida, Ana Paula Renault nunca teve a carteira assinada e chegou a declarar que nunca precisou, nem tinha desejo nem necessidade de trabalhar. Ironicamente, viralizaram VTs (cortes de vídeos) em que ela defendia o fim da escala 6 x 1 – em pauta no Congresso Nacional – e fazia críticas a “parlamentares de direita que votam contra nós” – como se ela fizesse parte da grande massa do povo brasileiro.

O valor bruto do prêmio final do BBB 26 – avaliado em R$ 5,7 milhões, sem os descontos de impostos – serviu de referência para as discussões sobre a “vontade de ser milionária” novamente. Mas a preocupação explícita com o dinheiro — “Se eu sair, nem os R$ 50 mil eu levo!” — soou contraditória para quem busca representar o “povo”.

Aliás e a propósito, na internet, choveram comentários e até vídeos de políticos de esquerda torcendo por uma possível candidatura de Ana Paula à Câmara Federal, o que não pode ocorrer este ano por questões contratuais com a Globo, que impede o ingresso de ex-participantes na política partidária por um período de dois anos após a exibição do programa.

Conclusão e reflexão: o valor da despedida

Gerardo foi velado e sepultado em Belo Horizonte na segunda-feira (20/4), um dia após seu falecimento. Já Ana Paula confirmou a sua já garantida vitória no BBB26 no Rio de Janeiro, na noite de terça-feira (22), com mais de 75% dos votos, e já faz planos de como investirá os R$ 5,7 milhões conquistados. Com o resultado final previsível, o BBB 26 termina com uma mancha indelével.

O processo legal de partilha dos bens de Gerardo Renault ainda ocorrerá, mas a partilha moral já foi feita pelo público. Fica a reflexão: em uma sociedade cada vez mais mediada por telas e cifras, o valor do “estar presente” está sendo substituído pela capitalização da própria imagem, mesmo nos momentos mais sagrados e dolorosos da existência humana.

 

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