A notícia de que a princesa herdeira Mette-Marit, da Noruega, foi incluída na lista de espera para transplante de pulmão chamou atenção internacional para uma doença ainda pouco conhecida pelo público geral: a fibrose pulmonar. A princesa, de 52 anos, convive com a condição desde 2018 e apresentou piora importante do quadro nos últimos meses.

Crônica e incurável, a doença gera cicatrizes no tecido pulmonar e reduz drasticamente a absorção de oxigênio. Ela pode evoluir de forma progressiva e comprometer a capacidade respiratória. O transplante foi indicado após a equipe médica constatar a deterioração progressiva e severa da função respiratória nas últimas semanas.

A notícia do transplante coincide com um momento turbulento para a monarquia norueguesa. O filho mais velho da princesa, Marius Borg Høiby, foi condenado à prisão por crimes de violência sexual e agressão. O caso de Mette-Marit também é tratado com discrição.Todo o processo cirúrgico e de triagem é coordenado pelo Hospital Universitário de Oslo.

Falta de ar não é normal: entenda os sinais

De acordo com o cirurgião torácico Alessandro Mariani, professor Doutor de Cirurgia Torácica da FMUSP e preceptor de Cirurgia Torácica Robótica, a fibrose pulmonar deve ser entendida como uma condição séria, especialmente quando passa a limitar atividades simples da rotina.

A fibrose pulmonar é uma doença em que o tecido do pulmão vai sendo substituído por áreas de cicatriz. Com isso, o pulmão perde elasticidade, a troca de oxigênio fica prejudicada e o paciente pode evoluir com falta de ar progressiva”, explica.

Embora possa ter diferentes causas, em parte dos casos a origem não é identificada. Quando isso acontece, a condição é chamada de fibrose pulmonar idiopática. De forma geral, esse tipo de doença costuma ser mais frequente em adultos de meia-idade e idosos, embora a avaliação individual seja sempre necessária.

Os sintomas mais comuns incluem falta de ar progressiva, tosse seca persistente, cansaço, queda da capacidade de realizar esforços, perda de peso sem explicação e, em alguns pacientes, alterações nas pontas dos dedos, conhecidas como baqueteamento digital. O início pode ser discreto, o que faz com que muitas pessoas associem os sintomas ao envelhecimento, sedentarismo, estresse ou outras doenças respiratórias.

Um dos grandes desafios é que a falta de ar pode ser interpretada como algo normal da idade ou da rotina. Mas quando ela progride, limita atividades antes simples ou vem acompanhada de tosse seca persistente, precisa ser investigada”, afirma Mariani.

A identificação da doença geralmente começa pela história clínica, exame físico e investigação dos sintomas. A partir daí, podem ser solicitados exames como tomografia de tórax de alta resolução, testes de função pulmonar, avaliação da oxigenação e exames complementares para descartar outras causas. Em alguns casos específicos, quando ainda há dúvida diagnóstica, pode ser necessária a coleta de tecido pulmonar para análise.

Não existe um único sinal isolado que feche o diagnóstico. O diagnóstico da fibrose pulmonar depende da combinação entre sintomas, exames de imagem, função pulmonar, histórico do paciente e avaliação especializada”, explica o cirurgião.

Tratamento vão de medicamentos ao transplante de pulmão

O tratamento depende da causa, do estágio da doença, da velocidade de progressão e das condições clínicas de cada paciente. Medicamentos, reabilitação pulmonar, oxigenoterapia e acompanhamento especializado podem fazer parte da condução em diferentes fases, que às vezes, incluem a indicação do uso de medicamentos especiais chamados antifibróticos. No entanto, quando há perda importante da função pulmonar e os tratamentos disponíveis já não são suficientes, o transplante de pulmão pode entrar na discussão médica.

Segundo o especialista, essa decisão exige avaliação rigorosa. “Entrar na lista de transplante, no entanto, não significa que a cirurgia acontecerá imediatamente. Depois da indicação, o paciente passa a depender da disponibilidade de um órgão compatível, o que envolve critérios como tipo sanguíneo, tamanho adequado do pulmão, compatibilidade clínica, gravidade do caso e logística para realização do procedimento”, explica.

A espera pode variar muito. Em alguns casos, o órgão compatível aparece em pouco tempo. Em outros, o paciente pode permanecer meses aguardando. Durante esse período, a equipe médica acompanha de perto a evolução da doença, porque há sempre uma preocupação central: saber se o paciente conseguirá manter condições clínicas suficientes até a chegada do órgão.

Esse é um dos pontos mais delicados do transplante. O paciente precisa estar grave o bastante para precisar de um novo pulmão, mas também precisa chegar ao momento da cirurgia em condições de suportar o procedimento. Em doenças progressivas, como a fibrose pulmonar, essa janela pode ser estreita”, explica Mariani.

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Fila de transplante não funciona apenas por ordem de chegada

Segundo o cirurgião, a fila de transplante não funciona apenas por ordem de chegada. A prioridade depende de critérios médicos e da compatibilidade entre doador e receptor. Por isso, mesmo após a entrada na lista, o acompanhamento precisa ser contínuo.

Não se trata apenas de esperar um órgão. É uma corrida para manter o paciente clinicamente estável, reduzir riscos, tratar intercorrências e prepará-lo para que, quando surgir um pulmão compatível, ele tenha a melhor condição possível para atravessar uma cirurgia de alta complexidade”, afirma.

A indicação costuma envolver uma equipe multidisciplinar, com pneumologistas, cirurgiões torácicos, especialistas em transplante, fisioterapeutas, equipes de reabilitação, enfermagem, psicologia e outros profissionais. Além da gravidade da doença, são considerados fatores como idade, presença de outras doenças, condição física, suporte familiar, riscos cirúrgicos e possibilidade de adesão ao tratamento após o transplante.

O transplante pode representar uma possibilidade importante para pacientes selecionados, mas ele também exige preparo, acompanhamento contínuo e uma compreensão muito clara dos riscos e benefícios. Não se trata apenas da cirurgia, mas de uma jornada de cuidado antes e depois do procedimento”, reforça Mariani.

Para o cirurgião, casos de grande repercussão ajudam a trazer luz para doenças que muitas vezes só ganham atenção quando chegam a estágios avançados.

Quando uma figura pública tem uma condição de saúde divulgada, isso pode gerar curiosidade, mas também pode cumprir um papel importante de conscientização. O essencial é transformar essa atenção em informação responsável: entender sintomas, buscar avaliação adequada e não tratar falta de ar persistente como algo normal”, afirma.

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