O cuidado em liberdade transforma trajetórias marcadas pela exclusão em histórias de autonomia e afeto.  A trajetória de Edson Antunes, de 63 anos, simboliza os avanços da Reforma Psiquiátrica, que está completando 25 anos no Brasil, e a importância do cuidado em liberdade que hoje marcam o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio.

Internado pela primeira vez ainda na infância, Edson encontra hoje no Instituto Municipal Nise da Silveira, no Engenho de Dentro, zona norte carioca, uma realidade completamente diferente do passado marcado por sofrimento psíquico, alcoolismo precoce e longos períodos de internação.

Anos atrás, Edson chegou ao antigo manicômio ainda muito jovem, em meio a crises pelo consumo de álcool e intenso sofrimento emocional. Entre idas e vindas ao longo da vida, passou por momentos graves durante a internação. Hoje ao revisitar essa memória, afirma que o cuidado foi decisivo para que pudesse sobreviver e encontrar novos caminhos.

A trajetória de Edson atravessa dois momentos históricos da saúde mental: o modelo manicomial e a sua transição a partir da reforma psiquiátrica. Ele viveu a época das internações psiquiátricas prolongadas e depois o cuidado em liberdade, no território – a partir da atenção psicossocial – que substituiu o hospital psiquiátrico. Sua história mostra como a arte e o acolhimento podem transformar trajetórias marcadas pela exclusão em caminhos de autonomia, pertencimento e dignidade.

O primeiro contato com a pintura aconteceu quando profissionais do CAPS Raul Seixas o incentivaram a expressar emoções no papel. A partir dali, a arte se tornou não apenas a linguagem artística que caracteriza suas obras, mas também uma estratégia de enfrentamento das suas questões psicológicas.

Inspirado pela própria história, ele desenvolve atividades de arte em escolas, projetos sociais e instituições culturais, utilizando o desenho como ferramenta de escuta e expressão emocional. m seu ateliê, Edson trabalha produzindo obras, estabelecendo laços, transmitindo conhecimentos e construindo redes de afeto e convivência.

Tudo que me fazia mal eu passei para a tela. Quando você enxerga aquilo que te incomoda, encontra um jeito de batalhar contra isso. A arteterapia não cura, mas dá direção. Ela ensina a sobreviver ao que surge dentro da gente”, revela.

Trabalhos expostos até na Itália

A arte não apenas revelou um talento, mas transformou profundamente a vida de Edson, que se tornou pintor e já participou de exposições, projetos culturais e ações educativas. Suas obras já foram exibidas no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, e na Escola de Belas Artes de Verona, na Itália, além de mostras em instituições culturais e espaços públicos brasileiros.

O artista hoje tem seu próprio ateliê no Espaço Travessia, projeto do Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde. O espaço, que completa 10 anos em 2026, promove exposições de artistas periféricos e oferece oficinas abertas à população em geral.  Ele também participa dos ateliês terapêuticos do Museu de Imagens do Inconsciente, onde realiza trabalhos em telas e também constrói artes em cerâmica, explorando novos horizontes.

As iniciativas integram a proposta de cuidado humanizado em saúde mental, utilizando a arte, a cultura e a convivência como ferramentas de inclusão social, fortalecimento de vínculos e reinserção na sociedade.

‘Eu canso, mas não desisto de ser feliz’

Atualmente, Edson reconhece o Instituto Municipal Nise da Silveira não mais como um lugar de isolamento, mas de pertencimento. Para ele, o cuidado requer a participação ativa do próprio indivíduo no tratamento.

Casado há oito anos e pai de dois filhos, hoje Edson define a própria felicidade a partir da família construída após anos de instabilidade. Ele afirma que a esposa e os filhos são sua maior realização e a relação com as crianças ultrapassa o ambiente de casa.

Minhas verdadeiras obras de arte hoje estão em casa: minha esposa e meus dois filhos. Eles me ensinam todo dia o que é amor. Mas hoje aqui no Nise da Silveira encontrei uma família, onde sou tratado como ser humano”, conta Edson.

A história deste artista revela como a arte como forma de cuidado pode transformar trajetórias marcadas por exclusão em caminhos de criação, trabalho e afeto. De ex-interno manicomial a artista e pai dedicado, sua jornada é marcada pela seguinte frase: “Eu canso, mas não desisto de ser feliz”.

80 anos de vanguarda: a revolução de Nise da Silveira

Em contraposição à violência histórica dos métodos tradicionais de isolamento, eletrochoque e lobotomia, os ateliês terapêuticos criados pela médica psiquiatra alagoana Nise da Silveira completaram 80 anos de existência neste dia 18 de maio. Nascida em 1905 e falecida em 1999, Nise revolucionou a psiquiatria brasileira ao colocar o afeto, a escuta e a arte no centro do tratamento mental.

Os ateliês originais deram origem ao Museu de Imagens do Inconsciente (MII), localizado no Engenho de Dentro, zona norte do Rio de Janeiro. O local abriga hoje o maior acervo do mundo em seu gênero, com mais de 400 mil obras de arte — das quais 128 mil são tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Aqui era um local de muito sofrimento, onde várias pessoas foram internadas ainda na infância. Os efeitos disso para vida dessas pessoas são inúmeros. Revisitar essa história é fundamental para que possamos refletir sobre outras possibilidades de cuidado, baseadas no respeito, na dignidade, na cidadania e no cuidado em liberdade. Um cuidado que reconheça a individualidade, a história e a humanidade de cada sujeito”, afirma a diretora do Instituto Nise da Silveira, Erika Pontes.

Impacto clínico e social contemporâneo

Os ateliês do MII e de unidades parceiras, como o Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ), continuam em pleno funcionamento, atendendo dezenas de usuários encaminhados pela rede pública. O tratamento foca no protagonismo dos “clientes” (termo preferido por Nise em vez de “pacientes”), permitindo-lhes escolher livremente entre atividades como pintura, cerâmica, teatro, bordado e ritmologia.

A abordagem expressiva oferece uma via de comunicação para dores psíquicas complexas que muitas vezes ultrapassam a capacidade da linguagem verbal. Os resultados clínicos e sociais mostram-se expressivos: além da estabilização emocional e do fortalecimento dos vínculos familiares, frequentadores dos ateliês ingressaram recentemente em cursos de graduação e extensão em universidades públicas do Rio de Janeiro, consolidando sua reinserção civil e acadêmica.

Memorial da Loucura

Para nunca mais esquecer: Memorial da Loucura no Instituto Municipal Nise da Silveira (Fotos: Edu Kapps / SMS-Rio)

O Instituto Municipal Nise da Silveira se consolidou como referência na promoção da saúde mental no município do Rio por meio da arte, cultura, esporte, lazer e oficinas de geração de renda e trabalho. No local também está localizado o tradicional bloco de carnaval Loucura Suburbana, que promove oficinas de bateria, roda de samba, entre outras, como ferramentas de convivência, expressão cultural e inclusão social.

Além disso, a unidade hoje abriga um importante acervo aberto ao público, composto por documentos, livros, prontuários, móveis e obras artísticas que retratam a história da psiquiatria no Brasil.  Entre memórias e recomeços, o Memorial da Loucura expõe a trajetória da saúde mental desde os tempos marcados pelos manicômios até o avanço da reforma psiquiátrica e a desinstitucionalização dos pacientes.

Por meio de objetos, documentos, relatos e experiências imersivas, o acervo revela as práticas da psiquiatria até a chegada das mudanças que começaram a ser implantadas pela médica psiquiatra Nise da Silveira, que defendia o tratamento humanizado e o cuidado em liberdade das pessoas com transtornos mentais.

O Memorial funciona nas instalações originais do antigo manicômio, hoje transformadas em um espaço de exposição artística e preservação histórica. Ao fim da visita, o público consegue compreender a importância da reforma psiquiátrica e do cuidado baseado no acolhimento, na autonomia e na reinserção social dos usuários.

O espaço também abriga o Bistrô QuiDeliche e uma lojinha com produtos confeccionados pelos próprios usuários, iniciativas que integram o Polo Ciclos de Geração de Renda e Trabalho e contribuem para a inclusão social e a inserção dessas pessoas no mercado de trabalho. A visitação é aberta ao público, de terça à sábado, das 9h às 16h e às segundas-feira das 13h às 16h.

Festival Nós na Luta

O 18 de maio é uma data simbólica na história da saúde mental brasileira, que representa a mobilização em defesa do fim das práticas de exclusão, violência e isolamento que marcaram o modelo manicomial no país. A data reafirma o direito das pessoas em sofrimento psíquico ao cuidado em liberdade, à convivência em comunidade e à dignidade humana.

Para marcar a data, o Instituto Municipal Nise da Silveira realiza entre os dias 20 e 22 de maio a quarta edição do evento anual “Festival Nós na Luta. A programação reúne oficinas, atividades culturais, rodas de conversa, apresentações e mesa de debate, promovendo reflexões sobre a história da Saúde Mental no Brasil e fortalecendo a defesa de um cuidado humano, digno e em liberdade.

Neste ano, o festival também celebra os 25 anos da Lei 10.216/2001, marco fundamental da reforma psiquiátrica brasileira. A legislação redireciona o modelo de atenção à saúde mental, substituindo a lógica manicomial por uma rede de cuidado baseada em direitos, acolhimento e cidadania.

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Cuidado em liberdade transforma a assistência em saúde mental

Com atendimento humanizado e foco na autonomia dos pacientes, Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro se consolidou como referência da reforma psiquiátrica no estado

Sancionada em 2001, a Lei nº 10.216, conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica ou Lei Antimanicomial,  marcou a mudança do modelo centrado em internações de longa permanência para uma rede de cuidado humanizado, comunitário e voltado à reinserção social.

Um dos exemplos dessa transformação no estado é o Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ), unidade administrada pela Fundação Saúde, vinculada à Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ). O serviço ocupa, desde agosto de 1998, um prédio no bairro da Gamboa, na capital fluminense, e já nasceu alinhado aos princípios da reforma psiquiátrica.

O CPRJ já foi criado com os preceitos da Reforma Psiquiátrica. Como não havia pacientes moradores nem vínculo com o modelo manicomial, pudemos construir um serviço novo, aberto e voltado ao cuidado em liberdade”, explica o diretor-geral da unidade, Francisco Sayão.

Segundo o médico psiquiatra, desde o início a proposta foi garantir um atendimento universal, sem distinção de diagnóstico, raça, condição social ou qualquer outro fator. “O cuidado humanizado passa justamente pela ausência de preconceito e pela construção de um espaço acolhedor, onde as pessoas possam buscar tratamento sem medo ou constrangimento”, ressalta.

Ao longo das últimas décadas, o CPRJ ampliou as ações voltadas à autonomia dos pacientes. Em 2001, a unidade implantou um programa de geração de trabalho e renda, que segue em funcionamento até hoje. Oficinas terapêuticas e atividades de economia solidária permitem que usuários desenvolvam habilidades, produzindo artesanato, trabalhando em setores internos e tendo acesso a uma fonte de renda.

Destaca-se, ainda, o acervo de mais de 5.600 discos de vinil, muitos deles raros, utilizado como instrumento terapêutico para estimular a memória afetiva e a conexão dos pacientes com a música. Outro símbolo dessa abordagem é o grupo musical Harmonia Enlouquece, que completou 25 anos em abril de 2026 e celebra a trajetória com o lançamento do quinto álbum, O Quinto dos Infernos.

A pessoa deixa de ser vista apenas como paciente e passa também a ocupar um lugar de produção, convivência e autonomia. Cada oficina busca valorizar o potencial individual e fortalecer o desejo de participação social”, destaca Francisco Sayão.

O trabalho também inclui o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários, com ações de acolhimento e bem-estar voltadas a familiares e cuidadores, reconhecendo a importância da rede de apoio no processo terapêutico.

Para o diretor do CPRJ, uma das principais conquistas da reforma psiquiátrica foi a consolidação do cuidado multiprofissional. “Hoje, o tratamento em saúde mental vai além da medicação e considera também aspectos sociais, psicológicos e ocupacionais, fundamentais para a recuperação e adesão do paciente”, explica.

Apesar dos avanços, o preconceito em relação ao sofrimento psíquico ainda persiste. Por isso, datas como o Dia da Luta Antimanicomial seguem essenciais para ampliar o debate público e fortalecer a inclusão.

O preconceito ainda existe e muitas vezes acaba aprisionando a pessoa naquele lugar de ‘doente mental’. A luta antimanicomial é importante justamente porque promove encontros, troca de experiências e reforça a importância de preservar todos os avanços conquistados até aqui”, conclui o psiquiatra.

Fonte: SMS-Rio e SES-RJ

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