O trânsito do Rio de Janeiro continua sendo um dos cenários mais desafiadores para a saúde pública do estado. Com mais de 11,9 mil atendimentos a vítimas de trânsito apenas no início de 2026, a rede pública municipal reforça urgência de prevenção em mês de mobilização global.

Sob o lema “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas”, a campanha Maio Amarelo, movimento internacional voltado para a conscientização e redução de sinistros viários, tenta frear uma estatística alarmante que impacta diretamente a rotina e a estrutura das unidades de urgência e emergência fluminenses.

Para tentar mitigar o problema a longo prazo, a Prefeitura do Rio lançou o Plano Municipal de Segurança Viária (2025 a 2028), que estabelece metas claras para reduzir as mortes no trânsito até 2030. Contudo, os dados atuais coletados nas portas dos hospitais revelam o tamanho do desafio imediato.

O peso dos traumas na rede de saúde

De acordo com o Observatório Epidemiológico da cidade do Rio de Janeiro (EpiRio), desenvolvido pelo Centro de Inteligência Epidemiológica (CIE), a rede de urgência e emergência municipal registrou 47.075 atendimentos a vítimas de acidentes de transporte terrestre em 2025.

O Hospital Municipal Souza Aguiar, localizado no Centro da cidade, liderou o volume de assistência a esses traumas no ano passado, seguido de perto pelo Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca. Juntas, as unidades operam sob pressão constante para absorver a demanda.

A gravidade do cenário é impulsionada de forma desproporcional pelas ocorrências envolvendo motocicletas. Segundo o Relatório de Segurança Viária de 2025, as motos foram responsáveis por 68,2% dos atendimentos na rede municipal nos últimos três anos. O EpiRio também aponta que o veículo esteve envolvido em 69,5% das notificações de acidentes registradas no último ano — um reflexo direto do crescimento acelerado da frota de duas rodas nas ruas cariocas.

A cada dia recebemos mais vítimas de acidentes de trânsito em nossos hospitais, que poderiam ser evitados. As ocorrências com motocicletas representam a maior parte dos atendimentos na rede municipal, impactando diretamente a capacidade de resposta das unidades”, alerta o secretário municipal de saúde, Rodrigo Prado.

Para tentar pulverizar a demanda e otimizar o fluxo de socorro, a gestão municipal inaugurou, no ano passado, setores dedicados exclusivamente a essas vítimas no Hospital Municipal Barata Ribeiro e no Hospital do Andaraí. Mesmo assim, a conta do prejuízo social e clínico permanece alta: apenas nos primeiros quatro meses de 2026, a rede pública municipal já computou mais de 11,9 mil atendimentos a pacientes com esse perfil.

Impacto prolongado e perfil das vítimas

O drama ganha proporções ainda maiores quando o paciente precisa ser transferido para unidades de alta complexidade ortopédica, como o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into). Dados do instituto revelam que o percentual de pacientes transferidos de outras unidades após acidentes de trânsito saltou de 21% em 2025 para cerca de 33% em 2026.

Esses pacientes enfrentam um tempo médio de internação cinco vezes maior do que aqueles submetidos a cirurgias eletivas (agendadas), além de consumirem, em média, 3,5 vezes mais bolsas de sangue e derivados. Mariana Maciel, chefe da área de Projetos do INTO, ressalta o perfil socioeconômico mais afetado:

Muitas vezes, são homens jovens, em idade produtiva, e as consequências desses acidentes ultrapassam o atendimento inicial, podendo comprometer a qualidade de vida por muitos anos.”

Em âmbito estadual, o panorama não difere. O Detran RJ contabilizou 29.580 vítimas de acidentes de trânsito em todo o estado em 2025, resultando em 2.375 mortes e 27.205 feridos, com maior incidência concentrada em homens na faixa dos 18 aos 39 anos.

Agenda Positiva

Mobilização e ações educativas no Maio Amarelo

Como parte da programação oficial, o movimento Maio Amarelo — que completa 14 anos — uniu instituições como a Secretaria Municipal de Saúde, CET-Rio, Detran-RJ, Guarda Municipal, RioLuz, Into, Rio Ônibus e a Operação Lei Seca em uma extensa agenda educativa.

Na última terça-feira (19), cerca de 300 motociclistas se reuniram no Setor 3 do Sambódromo para uma ação integrada de conscientização. O evento ofereceu um circuito interativo com simuladores de realidade virtual para acidentes e óculos que reproduzem os efeitos de embriaguez.

Uma dinâmica prática foi realizada dentro de um ônibus urbano para alertar sobre os perigos do “ponto cego” — área onde o motorista perde a visibilidade de quem está ao lado do veículo. O entregador por aplicativo Rafael Vargas, de 35 anos, reforçou o valor da iniciativa para a categoria.

É bem importante para a conscientização, não só dos motociclistas, mas também das demais categorias. É sempre um lembrete de que a nossa segurança deve vir em primeiro lugar”, declarou.

Durante o evento, além de receberem coletes refletivos e antenas corta-pipa, os profissionais puderam atualizar doses de vacinas (influenza, febre amarela e tríplice viral) e realizar autotestes de HIV.

Na abertura das ações, no dia 4 de maio, a Praça Mauá recebe uma ação educativa com a participação de equipes da CET-Rio, Detran-RJ e Lei Seca, alertando a população sobre os riscos da embriaguez ao volante. Também foram realizada várias atividades educativas e lúdicas para crianças no dia 13, na Quinta da Boa Vista, com a participação de alunos da rede municipal de ensino.

Agenda de atividades: confira os próximos eventos

Para marcar o mês de conscientização, a RioLuz realizou uma iluminação especial de monumentos para chamar a atenção da sociedade sobre os acidentes no trânsito. Os Arcos da Lapa, o monumento a Estácio de Sá, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro e o Museu de Arte do Rio (MAR) estão iluminados à noite na cor amarela.

A programação do Maio Amarelo estende-se ao longo do mês com atividades voltadas para diversos públicos na capital fluminense. Veja as principais datas:

  • 20/05 (quarta-feira): Entrega do Prêmio Olimpíadas do Motorista, na sede do Rio Ônibus.

  • 24/05 (domingo), às 8h: Ação educativa voltada ao público geral na Corrida da Infantaria do Exército (1º Batalhão de Guardas, em São Cristóvão).

  • 30/05 (sábado), às 9h: Passeio Cultural de encerramento no eixo Cinelândia-MAM. Guiado por professores de arquitetura da Unisuam, o trajeto gratuito passará pelo Palácio Capanema e o Castelo até chegar ao Museu de Arte Moderna (MAM).

Com Assessorias

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