Não sei por que o filme Her veio à minha lembrança logo hoje, 12 de junho, Dia dos Namorados. Sei sim, claro. É porque o que a ficção nos apresentou como futuro, lá em 2013, parece ser a realidade de algumas pessoas atualmente.
Naquela película, a história acompanha Theodore Twombly, interpretado por Joaquin Phoenix, um homem solitário que desenvolve um relacionamento amoroso com Samantha, uma inteligência artificial com a voz de Scarlett Johansson.
Quando assisti ao filme pela primeira vez, parecia uma ficção distante. Hoje, nem tanto. A tecnologia ainda não produz amores conscientes como o de Samantha, mas já há gente conversando diariamente com chatbots, compartilhando angústias, pedindo conselhos, desabafando sobre o trabalho e até deitando, metaforicamente, no divã da IA.
Pesquisadores da Harvard University observam que muitas pessoas recorrem diariamente aos chatbots em busca de companhia, suporte emocional e até romance, levantando preocupações sobre dependência afetiva e substituição parcial das relações humanas.
Talvez Zygmunt Bauman não tenha previsto exatamente isso quando escreveu sobre o amor líquido. Mas certamente reconheceria alguns sinais do nosso tempo. Vivemos numa sociedade em que tudo parece provisório: empregos, identidades, convicções e, muitas vezes, relacionamentos. Conectar-se é fácil. Permanecer conectado é o desafio.
Nesse cenário, o Dia dos Namorados costuma ser tratado apenas como uma invenção do comércio. E, de fato, há flores, chocolates, promoções, jantares, enormes filas de espera em restaurantes e campanhas publicitárias suficientes para sustentar essa crítica. Mas existe um outro lado da moeda que nem sempre é percebido.
A data não é para todas as pessoas. Nunca foi. Há quem esteja solteiro por escolha, por circunstância ou por simples acaso. Há quem tenha acabado de sair de uma relação. Há quem esteja reconstruindo a própria vida. Há quem prefira a própria companhia. E tudo isso faz parte.
Ainda assim, em tempos líquidos, a existência de uma data que celebra vínculos talvez tenha ganhado um significado inesperado. Não porque o calendário tenha poderes mágicos para produzir amor, mas porque ele nos obriga a lembrar que relacionamentos exigem algo que nenhum algoritmo conseguiu automatizar: presença.
Quem está disposto a nos ouvir? Quem está presente para negociar diferenças? Quem está a fim de conviver com as imperfeições do outro? As inteligências artificiais generativas respondem rápido, raramente julgam e quase nunca interrompem. São excelentes interlocutoras. Alucinadamente sedutoras, eu diria. Mas não compartilham uma mesa de jantar com você, não dividem boletos, não esquecem aniversários nem atravessam os momentos bons e ruins ao seu lado.
Isso porque o amor humano continua sendo um território de incertezas, contradições e trabalho emocional. Exatamente o oposto da lógica da eficiência que domina nosso tempo.
O Dia dos Namorados e das Namoradas continuará existindo. Mas, se for encarado apenas como uma simples data comercial, corremos o risco de esquecer que relações humanas não podem ser atualizadas, reiniciadas ou substituídas por uma nova versão.
Enquanto alguns se deixam seduzir por romances com algoritmos, o desafio dos humanos continua sendo o mesmo de sempre: aprender a conviver com pessoas reais. E, convenhamos, essa ainda é a tecnologia mais complexa que a humanidade já inventou.




