A tragédia das chuvas em Minas Gerais em decorrência dos impactos das intensas chuvas no estado esta semana não são eventos isolados e reforçam mais uma vez o alerta sobre a crise climática. O avanço das mudanças climáticas tem aumentado a cada ano a frequência e a intensidade dos eventos extremos. O aquecimento global intensifica o ciclo hidrológico, transformando chuvas que seriam graduais em tempestades devastadoras.

De acordo com o Sistema de Informações de Desastres no Brasil (S2iD), entre 1991 e 2023 foram registrados 26.767 desastres climáticos relacionados a chuvas no país. As Regiões Sul (37%) e Sudeste (31%) concentraram quase 70% dos registros. Entre 2020 e 2023, a média anual de registros foi duas vezes maior (200%) que a da década anterior (2010–2019) e 7,3 vezes maior (730%) que a observada na década de 1990.

Dados recentes do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontam a intensificação de ondas de calor associadas a episódios de chuva intensa, combinação que eleva a probabilidade de impactos diretos à saúde da população, sobretudo entre grupos vulneráveis como idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.

Em condições de calor extremo, o organismo humano enfrenta maior perda de líquidos e sobrecarga do sistema cardiovascular, o que pode provocar desidratação, alterações da pressão arterial, exaustão térmica e agravamento de patologias pré-existentes. No caso das chuvas intensas, o risco se estende a alagamentos, interrupções de serviços, disseminação de doenças e acidentes em áreas urbanas e rurais.

Impactos diretos à saúde de idosos, crianças e doentes crônicos

O excesso de água e lama facilita a propagação de doenças zoonóticas e infectocontagiosas (como leptospirose e arboviroses), contamina fontes de água potável e destrói habitats, afetando a fauna local e, consequentemente, a segurança sanitária das populações humanas.

O desastre em Juiz de Fora e Ubá (MG) não é apenas um evento meteorológico extremo; é o reflexo do desequilíbrio entre o ambiente construído, a saúde humana e a preservação dos ecossistemas.  Tragédias recentes no Brail e no mundo evidenciam a necessidade de adotar uma abordagem integrada para enfrentar desastres ambientais.

Em um cenário de desastres, sejam eles naturais ou causadas pelo homem, a aplicação do conceito de Saúde Única (One Health)— que conecta a saúde humana, animal e ambiental — é indispensável para reduzir os danos e promover uma resposta mais eficiente e sustentável. Sem um ambiente equilibrado e seguro, a saúde pública torna-se vulnerável a tragédias evitáveis e ao surgimento de zoonoses e epidemias em áreas de desastre.

Uma em cada quatro pessoas vive em áreas de risco em Juiz de Fora

Prefeita alerta para a ocupação histórica de encostas e a dificuldade de remover famílias de locais perigosos

O balanço atualizado da tragédia na Zona da Mata mineira revela a dimensão do desafio urbanístico na região. Segundo a prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão (PT), cerca de 25% da população da cidade reside em áreas de risco. A geografia local, marcada por terrenos de serra semelhantes aos de cidades como Petrópolis e Angra dos Reis, torna o monitoramento geológico uma tarefa complexa e urgente.

A prefeita destacou que a vulnerabilidade não atinge apenas as camadas mais pobres; o desmoronamento de uma mansão em uma encosta nesta sexta-feira (27/02), que resultou em uma vítima fatal, exemplifica que a ocupação inadequada do solo atravessa diferentes classes sociais.

Ela comparou a cidade a Petrópolis e Angra dos Reis (RJ), além de outras cidades da Zona da Mata mineira que são construídas na serra. “As pessoas vão ocupando as encostas e não são só as pessoas pobres, mesmo a população mais afortunada, classe média alta, vive em lugares que são de risco”, disse, em entrevista à Rádio Nacional.

Além da infraestrutura, o governo municipal enfrenta a resistência emocional dos moradores. A prefeita classificou como “um esforço monstruoso” convencer as famílias a deixarem suas residências. “Muitas vezes, essa casa é conquista de uma vida inteira”, explicou, reforçando a necessidade de paciência e acolhimento das equipes de assistência social.

Urbanização desenfreada e o conceito de Saúde Única

Esta discussão sobre infraestrutura urbana conecta-se diretamente à Saúde Única (One Health), conceito que reconhece que a saúde humana, a saúde animal e a saúde do ambiente estão intrinsecamente ligadas. Desastres ambientais provocados pelo clima desequilibram esse ecossistema e a densidade populacional em áreas instáveis amplia os riscos de crises sanitárias.

A falta de saneamento e de contenção de encostas em áreas vulneráveis não é apenas um problema de engenharia, mas um risco. A ocupação de encostas, muitas vezes sem redes adequadas de esgoto ou drenagem, cria um ambiente propício para que desastres naturais se tornem crises de saúde pública. O avanço de moradias sobre encostas frágeis e a ocupação desordenada potencializam os riscos de soterramentos e a disseminação de doenças pós-enchente.

A urbanização precária facilita o contato entre populações humanas e patógenos ambientais após as cheias, tornando o investimento em prevenção uma ferramenta indispensável para a segurança da saúde pública e animal. A negligência com o ordenamento territorial e a proteção das encostas (ambiente) impacta diretamente a sobrevivência e o bem-estar das comunidades (humanos).

Desastres reforçam prática da Saúde Única para minimizar impactos 

Para Wirton Peixoto, médico-veterinário e presidente da Comissão Nacional de Saúde Única do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), o uso do conceito Saúde Única em situações de desastre “ajuda a preservar vidas, controlar surtos e proteger o meio ambiente de forma integrada, pois qualquer impacto em um dos pilares da Saúde Única afeta os demais”.

Peixoto destaca que a cooperação entre médicos-veterinários, zootecnistas e outros profissionais da saúde é essencial. “Sem uma resposta conjunta e sincronizada, as consequências para todos os envolvidos — humanos, animais e o meio ambiente — tendem a ser ainda mais devastadoras”, acrescenta.

Casos recentes demonstram que uma abordagem integrada da Saúde Única é fundamental. Nas enchentes do Rio Grande do Sul, por exemplo, ocorreram contaminações de água e solo, aumentando o risco de doenças infecciosas, como leptospirose e arboviroses, em humanos e animais.

De forma semelhante, os desastres em Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, demonstraram como a manipulação ambiental aliada à falta de coordenação entre áreas da saúde agravam o impacto em toda a cadeia ecológica. Peixoto aponta que a preparação adequada para desastres exige planejamento e ações que considerem Saúde Única em todas as etapas.

A resposta a desastres envolve desde o monitoramento contínuo até a educação e conscientização sobre práticas que minimizem os danos. A segurança sustentável precisa estar alinhada ao compromisso de preservação da saúde pública e da biodiversidade, evitando que esses eventos desencadeiem problemas mais graves e persistentes”, destaca.

A atuação de médicos-veterinários e zootecnistas é necessária para que uma resposta ágil e coordenada seja eficaz. Além dos cuidados com os animais resgatados, eles desempenham um papel fundamental no controle de doenças zoonóticas e na orientação sobre práticas preventivas. Essa contribuição, segundo Peixoto, “é indispensável para que a saúde de todos seja garantida — da sociedade aos ecossistemas que sustentam nossas vidas”.

O equilíbrio entre o ambiente urbano, o solo e o bem-estar das pessoas é o único caminho para evitar que novos chamados da natureza, como este, resultem em perdas irreparáveis.  Olhar para a tragédia em Minas Gerais sob a ótica da Saúde Única é entender que a prevenção de futuras catástrofes exige o cuidado integrado com o planeta e todos os seus seres vivos.

Guia de segurança e saúde para voluntários em áreas de inundação

Atuar na linha de frente de um desastre ambiental exige cuidados redobrados. A lama e a água das enchentes em Juiz de Fora e Ubá carregam sedimentos, esgoto e urina de animais, o que representa um alto risco biológico.

Proteção individual e prevenção de zoonoses

A proteção do voluntário é a primeira barreira contra surtos de doenças como a leptospirose. Ao manipular entulhos ou realizar limpeza, o uso de botas de borracha e luvas impermeáveis é indispensável. Caso não tenha acesso a luvas, utilize sacos plásticos duplos amarrados nas mãos. Evite qualquer contato direto da pele com a lama, especialmente se houver cortes ou arranhões.

Cuidados com a água e alimentos nos abrigos

A segurança sanitária nos pontos de apoio é vital para evitar surtos de doenças gastrointestinais. Consuma apenas água engarrafada ou fervida e oriente as famílias a fazerem o mesmo. Alimentos que tiveram contato com a água da chuva devem ser descartados imediatamente, mesmo que estejam em embalagens fechadas, devido ao risco de contaminação química e biológica.

Atenção aos animais peçonhentos

Com o desalojamento causado pelas águas, animais como escorpiões, aranhas e cobras buscam refúgio em locais secos, incluindo frestas de móveis e pilhas de roupas doadas. Ao organizar donativos ou limpar residências, nunca coloque as mãos em locais onde não possa ver o fundo. Utilize cabos de vassoura ou ferramentas para remexer materiais acumulados.

Com informações da Agência Brasil e Assessorias

 

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