Imagens de coelhos, pintinhos e até gatos esmagados com os pés e as mãos. Parece um filme de terror, mas, infelizmente, é um caso real. Essas são cenas de uma mulher que torturava e matava animais para vender fotos e vídeos pela internet. Reconhecida por uma tatuagem na perna, ela foi presa nesta quinta-feira (28) pela Polícia Civil de São Paulo, na região Central da capital.

A prisão da empresária Daiana Schuinsekel de Almeida é resultado de investigações que apontaram que ela gravava conteúdos de extrema crueldade contra animais, para vendê-los através de plataformas virtuais utilizadas por clientes na Europa. Segundo a polícia, ela responderá por maus-tratos, zoosadismo e comercialização de vídeos de violência.

O caso repercutiu nacionalmente e reacendeu o debate sobre os impactos psicológicos e sociais por trás desse tipo de crime. A médica psiquiatra Ana Beatriz Barbosa usou suas redes sociais para cobrar a responsabilização não só da mulher, como dos demais envolvidos, inclusive quem compra esse tipo de conteúdo.

Para quem tenta justificar dizendo que ela “é doente e precisa de tratamento”, o limite é bem claro. O diagnóstico pode até explicar o comportamento, mas não perdoa um crime que foi friamente planejado, tabelado e lucrativo. “Transtorno explica, mas não absolve”, disse ela, ao explicar a relação entre parafilia e zoosadismo.

Parafilia ou zoosadismo?

A parafilia refere-se a qualquer atração atípica. Muitos comportamentos parafílicos inofensivos e consensuais são vistos como parte da diversidade sexual, muitas vezes chamados de fetiches. Já o transtorno parafílico é o diagnóstico clínico. Ocorre quando o impulso sexual é incontrolável, gera angústia psicológica severa, prejudica a rotina ou envolve parceiros sem consentimento (como no caso de crianças ou pessoas que não podem consentir). 

Zoosadismo (ou zoossadismo) é uma parafilia na qual o indivíduo sente prazer ou excitação sexual ao infligir ou observar a tortura, sofrimento e morte de animais. Classificado como um dos estágios da Tríade de MacDonald, é considerado um importante indicador de psicopatia.

Ela também alertou para o que a literatura chama deTeoria do Elo” que explica os maus-tratos contra animais, sobretudo na infância e adolescência. Esse comportamento pode funcionar como sinal de alerta para outras violências dentro de casa, inclusive contra mulheres, o que exige atenção quando o animal é intimidado, negligenciado ou ferido, já que nessas situações o problema deixa de ser apenas doméstico e passa a envolver risco.

A psiquiatria forense estuda isso há mais de 60 anos. Maltratar animais com perversidade e de forma repetida não é “fase”, é um sinal clínico de alerta. Há uma associação direta entre esse tipo de sadismo e o risco de violência contra pessoas mais tarde”.

Redes criminosas internacionais

O caso, investigado pela Delegacia de Crimes contra os Animais do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), revelou a existência de redes criminosas que produzem e comercializam conteúdos de violência extrema contra animais para consumidores no Brasil e no exterior.

Dados do Núcleo de Observação e Análise Digital (NOAD), da Polícia Civil de São Paulo, apontam que entre 10 e 15 animais são mortos ou submetidos a violência extrema por noite em transmissões monitoradas pelas autoridades, especialmente em servidores privados no Discord e grupos fechados em aplicativos de mensagens.

As investigações da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) também relacionam esses grupos a crimes como indução à automutilação, incentivo ao suicídio, exploração sexual de adolescentes, estupro virtual e apologia à violência extrema. Segundo os investigadores, o sofrimento animal frequentemente é utilizado como mecanismo de dessensibilização dentro dessas comunidades digitais.

Segundo a delegada Lisandréa Salvariego, do NOAD, a violência contra animais nesses ambientes digitais funciona como porta de entrada para crimes ainda mais graves. “Os maus-tratos são a porta de entrada para outros crimes”, afirmou a delegada em entrevistas recentes sobre as investigações conduzidas pela Polícia Civil paulista.

O lucro por trás do comércio de ‘animal crush’

Ainda de acordo com a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, a prisão de Daiana revela um esquema que vai muito além da crueldade isolada.

“50 euros. Esse era o preço que Daiana Schuinsekel cobrava para tirar a vida de animais em frente às câmeras”, destacou. “O Brasil virou fornecedor barato de um mercado internacional clandestino chamado ‘animal crush’. São vídeos de violência contra animais sob encomenda para clientes que pagam em euro”.

Ana Beatriz também defendeu a punição rigorosa de quem financia o mercado. “Quem mantém esse comércio de pé é o comprador. É o dinheiro vindo de fora que sustenta essa crueldade. Se a nossa lei continuar olhando apenas para quem pisa, esquecendo de quem aperta o botão de comprar, prender a produtora será sempre enxugar gelo. Crueldade com animais é uma questão urgente de segurança e de saúde pública.”

Esse cenário reforça a urgência da abordagem de One Health (Saúde Única), conceito que orienta os pilares editoriais do portal Vida e Ação. A violência contra animais, o adoecimento psíquico humano e a degradação da segurança social estão intrinsecamente conectados. Tratar os maus-tratos animais de forma isolada é ignorar que a saúde e a segurança de seres humanos, animais e do ambiente compartilhado formam uma teia única e indissociável.

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Entidades de defesa dos direitos dos animais se manifestam

A prisão reforçou a urgência da campanha global “Animal Safety”, lançada pelo Instituto Ampara Animal para pressionar plataformas digitais e autoridades públicas a combater crimes de crueldade animal em ambientes virtuais. Para os organizadores o episódio confirma o crescimento de uma estrutura criminosa já monitorada por autoridades brasileiras e internacionais, envolvendo transmissões ao vivo de tortura, grupos organizados em plataformas digitais e comercialização de conteúdo violento em aplicativos, redes sociais e ambientes da deep web.

O caso mostra que a crueldade contra animais deixou de ser um problema isolado. Existe hoje uma rede estruturada que lucra com violência extrema na internet. A campanha Animal Safety nasce justamente para enfrentar esse cenário e pressionar plataformas e autoridades a tratarem esse tema como prioridade”, afirma Juliana Camargo, presidente do Instituto Ampara Animal.

Para a diretora jurídica do Fórum AnimalFórum Animal, Ana Paula Vasconcelos, é importante que essa mulher e os demais torturadores de animais em todo o Brasil sejam presos, julgados e condenados.

É terrível saber que há grupos criminosos que lucram com o sofrimento e morte de animais, vendendo vídeos e fotos na internet. Reforçamos a importância da atuação integrada entre organizações de proteção animal e autoridades públicas no combate a crimes dessa natureza, considerados de altíssima gravidade”, pondera.

Campanha global combate a crueldade animal na internet

A campanha Animal Safety foi criada para mobilizar organizações, especialistas, ativistas e cidadãos em diferentes países em defesa de medidas mais rígidas contra conteúdos de crueldade animal na internet. Entre as ações da campanha estão o lançamento de uma petição internacional, a articulação de mudanças legislativas e a formação de uma coalizão com entidades internacionais que atuam no enfrentamento à violência online contra animais.

A campanha também anunciou parceria com a Social Media Animal Cruelty Coalition (SMACC), organização internacional que monitora conteúdos de violência contra animais nas plataformas digitais. Em levantamento recente, a coalizão identificou mais de 83 mil links contendo material de crueldade animal publicados em grandes plataformas online.

Com alcance internacional, a campanha Animal Safety pretende ampliar a pressão pública para que empresas de tecnologia adotem mecanismos mais rápidos de identificação, remoção e denúncia de conteúdos violentos, além de fortalecer a cooperação entre plataformas digitais e autoridades policiais.

Como parte da estratégia institucional, os organizadores no Brasil concluíram a redação de um Projeto de Lei voltado ao enfrentamento de crimes digitais envolvendo maus-tratos contra animais. A proposta busca ampliar o debate legislativo sobre responsabilização das plataformas digitais e fortalecimento das investigações relacionadas à violência animal em ambientes virtuais.

Assine o abaixo-assinado aqui: www.animalsafety.org 

Entenda o caso

Segundo as investigações da Polícia Civil de São Paulo, os vídeos eram vendidos em plataformas online para compradores na Europa, com valores que variavam entre 20 e 50 euros, dependendo do conteúdo. De acordo com a polícia, a suspeita mantinha uma espécie de “produtora de sadismo”.

O caso veio à tona após uma ONG da Bulgária – a Campaigns and Activism for Animals in the Industry (CAAI) – denunciar os crimes à Polícia Federal brasileira. Durante o cumprimento do mandado de prisão, os agentes apreenderam objetos que teriam sido utilizados nos crimes, incluindo calçados usados nos vídeos. Até o momento, não foram encontrados animais no local da prisão. onde também foram apreendidos os sapatos utilizados nas gravações.

Relembre outros casos

O zoosadismo ganhou contornos virtuais alarmantes, especialmente no Brasil. Criminosos formam redes organizadas em plataformas de bate-papo (como o Discord) para transmitir sessões de tortura ao vivo, movimentando um mercado clandestino de venda de vídeos por dezenas de euros ou dólares. 
Casos de grande repercussão conduzidos pela Polícia Civil de São Paulo revelaram pessoas que adotavam ou capturavam animais para torturá-los, vendendo o material para milhares de espectadores. Autoridades alertam que essa violência extrema serve como “porta de entrada” para a dessensibilização e posterior cometimento de crimes violentos contra humanos.

O caso surge na esteira de outra operação policial, realizada em novembro de 2025, em Belém (capital do Pará). Na época, o Fórum Animal enviou representação à Polícia Federal e ao IBAMA, encaminhando imagens e demais informações necessárias para subsidiar a investigação contra uma mulher que praticava crimes semelhantes aos de Daiana.

O caso anterior revelou a existência de um mercado clandestino voltado à venda de conteúdos de violência extrema contra animais na deep e dark web, evidenciando a atuação de grupos criminosos organizados e a dimensão internacional desse tipo de crime. Após um trabalho minucioso, a Polícia Federal identificou a suspeita em Belém e requereu sua prisão preventiva, além da realização de diligências essenciais para a elucidação completa dos fatos. O caso teve ampla repercussão, e a suspeita foi presa.

Denuncie e ajude

A repercussão acontece em meio ao aumento recorde das denúncias de maus-tratos a animais no estado. Dados divulgados recentemente mostram que São Paulo registrou 20.916 denúncias de maus-tratos a animais em 2025, o maior número da série histórica. Na capital paulista, os protocolos por criação inadequada saltaram de 1.976 em 2024 para 10.912 em 2025 — um crescimento de mais de cinco vezes.
Se você presenciar ou tiver informações sobre comunidades, perfis ou grupos estimulando ou compartilhando tortura contra animais, não compartilhe os arquivos e acione imediatamente os canais oficiais:
  • Delegacia Eletrônica de Proteção Animal (DEPA-SP): Sistema DEPA
  • Ministério Público: Procure o Ministério Público do seu Estado para formalizar a denúncia.
  • Delegacias Especializadas: Contate divisões de investigação de crimes cibernéticos ou delegacias de proteção animal (como a Divisão de Investigações sobre Infrações de Maus Tratos a Animais e demais Crimes contra o Meio Ambiente – DIEMA).
  • Denúncias Anônimas: Disque 181 (Disque Denúncia).

Com Assessorias

 

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