Em uma era profundamente digital, desconectar as crianças das telas e inseri-las em vivências reais tornou-se um dos maiores desafios contemporâneos para famílias e educadores. O ato de brincar, muito além do mero entretenimento, constitui um direito fundamental da infância e uma ferramenta insubstituível para a socialização, o fortalecimento de vínculos e o desenvolvimento cognitivo.

Para celebrar a importância dessas interações, o cenário cultural e assistencial brasileiro se mobiliza nesta última semana de maio. Entre os dias 23 e 31 de maio de 2026, acontece a Semana Mundial do Brincar (SMB), promovida anualmente pela Aliança pela Infância. Sob o tema “A Potência dos Encontros”, a campanha destaca a urgência de integrar crianças de diferentes realidades, territórios e culturas.

Em consonância com esse movimento, grandes instituições trazem propostas práticas e artísticas que servem de inspiração nacional. A Laramara – Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual participa ativamente por meio do seu Centro de Ludicidade Brincanto, promovendo atividades sensoriais totalmente acessíveis.

Paralelamente, a Pinacoteca de São Paulo inaugura a exposição internacional “Para crianças: experiências com arte desde 1968”, no edifício Pina Contemporânea, transformando o espaço museológico em um grande território de exploração livre e interativa.

A potência do encontro e da inclusão

A autonomia e a convivência saudável na infância exigem espaços inclusivos, nos quais o brincar seja respeitado como um direito inegociável. Para Anderson Almeida, assistente social da Laramara, as atividades com água ampliam as possibilidades de experimentação sensorial e tornam o aprendizado mais significativo.

De forma leve e divertida, as crianças podem explorar propriedades físicas, desenvolver noções de cuidado com o meio ambiente e fortalecer experiências de cooperação e convivência. Quando crianças brincam juntas, fortalecem vínculos, aprendem com a diversidade e contribuem para a construção de ambientes mais acessíveis, humanizados e acolhedores”, explica 

A curadora da Pinacoteca de São Paulo, Ana Maria Maia, reforça que o protagonismo das infâncias e a atitude criativa genuína servem de inspiração para toda a sociedade, celebrando uma longa trajetória de projetos experimentais educativos voltados ao público mirim. Ao afastar as crianças das telas e aproximá-las da arte, do movimento corporal e do convívio comunitário, abrem-se caminhos para uma infância saudável, resiliente e plenamente conectada com o mundo real.

5 Abordagens e atividades para estimular as crianças longe das telas

Com base nas programações especiais preparadas pelos especialistas de desenvolvimento infantil da Laramara e pelos curadores de arte da Pinacoteca de São Paulo, destacamos cinco categorias de atividades essenciais para expandir o repertório físico, social e emocional na infância:

1. Exploração sensorial e hídrica (Experiências com água)

A água possui um potencial inclusivo e exploratório incomparável. Atividades simples como dinâmicas com bexigas d’água, bolhas de sabão, boliche aquático e corrida de esponjas ampliam as propriedades físicas de experimentação. Para crianças com deficiência visual, essas brincadeiras estimulam de forma leve a percepção corporal e a coordenação motora, além de despertarem o riso espontâneo e o acolhimento coletivo.

2. Intervenção artística livre (Desenho sem barreiras)

Permitir que a criança ocupe espaços com a sua própria criatividade quebra a rigidez do cotidiano. Uma das propostas de destaque na Pinacoteca é a obra “Mega Please Draw Freely” (do artista japonês Ei Arakawa-Nash), que convida o público a desenhar livremente no próprio chão do museu. Em casa, isso pode ser adaptado forrando o piso com grandes bobinas de papel pardo ou cartolina, incentivando os pequenos a criar sem filtros ou limitações espaciais.

3. Circuitos motores e de resolução de problemas

A criação de circuitos físicos utilizando materiais simples do cotidiano — como copos plásticos, tubos de PVC e pequenas bolinhas de pingue-pongue — desafia o corpo e a mente. Dinâmicas que envolvem o “limbo” aquático ou escorregadores demandam equilíbrio e consciência de espaço. Quando feitas em grupo, essas atividades desenvolvem a comunicação e a elaboração de estratégias coletivas para superar desafios.

4. Brincadeira livre com elementos naturais (Caixa de areia)

O contato com elementos táteis e maleáveis remete às principais pedagogias progressistas do século XX. A obra “Caixa de areia” (2026), da brasileira Graziela Kunsch na Pinacoteca, propõe um espaço livre para a primeiríssima infância (crianças de 15 meses a 5 anos), inspirada nas pesquisas de nomes históricos como Emmi Pikler e Aldo van Eyck. A manipulação de texturas puras estimula a autonomia plena, sem os roteiros pré-definidos dos brinquedos eletrônicos.

5. Elaboração lúdica de sentimentos e medos

Utilizar o lúdico para abordar temáticas complexas e sentimentos difíceis é uma ferramenta valiosa de saúde emocional. Propostas como as da artista Rivane Neuenschwander demonstram que mapear e convidar as crianças a ilustrar seus próprios medos ajuda na exteriorização de angústias. Da mesma forma, o artista indonésio Agus Nur Amal PMTOH reconta tragédias climáticas elaborando histórias com brinquedos familiares, estimulando a conscientização de forma acolhedora.

Com assessorias

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