Frente às barreiras burocráticas e à escassez de recursos públicos que perpetuam a pobreza menstrual no Brasil, a sociedade civil organizada tem liderado iniciativas estratégicas para garantir a dignidade de meninas e mulheres. No mês em que se discute o Dia Internacional da Dignidade Menstrual (28 de maio), projetos que unem desde redes de academias a fundações filantrópicas de grande porte ganham destaque ao transformar o debate em ações práticas e estruturais de saúde e educação.
O impacto da falta de insumos básicos atinge diretamente as salas de aula: levantamentos apontam que 37% das pessoas que menstruam enfrentam dificuldades de acesso à higiene em escolas ou espaços públicos, resultando em faltas recorrentes e evasão escolar. Para combater essa realidade na ponta e atuar nas esferas de decisão, diferentes setores começam a articular redes de apoio no Rio de Janeiro e em âmbito nacional.
Escolas e academias como pontos de arrecadação e consciência
A mobilização comunitária tem mostrado força na capital fluminense. Foi a partir de debates em sala de aula que estudantes do ensino médio do colégio pH Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, decidiram transformar reflexão em mobilização ativa. Sob a liderança das alunas Melaine Ferreira, de 16 anos, e Clara Araújo, de 15, um grupo de cerca de 20 estudantes passou a percorrer as salas para sensibilizar os colegas e arrecadar absorventes e itens de higiene íntima.
O movimento ganhou escala rapidamente, engajando professores e famílias inteiras na doação de absorventes, escovas de dente e outros materiais básicos. As doações estão sendo destinadas a comunidades próximas do colégio e a mulheres em situação de rua.
Como educadores, nosso papel é ampliar a consciência e mostrar que uma experiência cotidiana para muitas meninas pode representar privação para outras jovens da mesma idade”, ressalta Andrea Ciuffo, diretora pedagógica da unidade.
No setor privado, a rede de academias Allp Fit estruturou uma parceria com o Instituto ELA (Empoderamento de Lideranças Adultas). Durante o mês de março, a rede promoveu aulões especiais aos sábados, estimulando a inscrição de alunos mediante a doação de pacotes de absorventes. O montante arrecadado será entregue oficialmente neste mês de maio para abastecer os projetos de transformação social e atendimento a jovens em vulnerabilidade assistidas pelo instituto.
Ação comunitária abastece escola no Distrito Federal

Como resposta prática à escassez de insumos, iniciativas lideradas pela própria juventude têm feito a diferença. Na Vila Planalto, localizada no centro de Brasília, a estudante Ana Clara Maimoni mobilizou vizinhos e comerciantes locais para criar o Projeto Contra a Pobreza Menstrual.
A ação arrecadou mais de 1 mil pacotes de absorventes, garantindo o estoque de higiene de uma escola pública da região por seis meses consecutivos. Além das doações físicas, o projeto promoveu palestras informativas com profissionais da saúde ginecológica para as estudantes.
Isso escancara a nossa desigualdade. A escola é um espaço estratégico para abordar a saúde e é justamente da educação que essas meninas acabam sendo privadas quando não possuem o mínimo para a dignidade”, ressaltou a idealizadora.
Mutirão digital leva a lei a quem não tem internet
Identificando que as exigências digitais do Governo Federal para a retirada de absorventes gratuitos pelo Programa Farmácia Popular excluem a população sem acesso à tecnologia, a ONG Digna Brasil expandiu suas atividades para o Rio de Janeiro com o “Mutirão Simplifica”. A primeira edição na cidade ocorreu em março, no Centro Cultural Vidigal.
O projeto atua diretamente nas comunidades auxiliando mulheres inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) que não possuem celular ou internet a realizarem o registro obrigatório no sistema do Ministério da Saúde. Durante o atendimento, as voluntárias realizam a inscrição digital e distribuem kits de higiene pessoal imediatos.
Nosso objetivo com o Mutirão é garantir que direitos que já existem cheguem a quem precisa. Muitas mulheres ainda não conseguem acessar programas públicos simplesmente por falta de informação ou de acesso digital”, afirma Lari Agostini, fundadora da Digna Brasil.
Investimento recorde de R$ 300 milhões em saúde menstrual
No campo institucional e de pesquisa, o Alana anunciou um aporte histórico de R$ 300 milhões dedicados integralmente à saúde menstrual de meninas e ao combate à dor pélvica e à endometriose. O investimento funcionará no modelo spend-down, o que significa que o patrimônio será integralmente gasto ao longo dos próximos 14 anos para acelerar respostas à geração atual.
A iniciativa responde a dados alarmantes obtidos em parceria com o Instituto Equidade.info: 65% das meninas relatam sofrer com cólicas moderadas ou fortes, motivando a ausência escolar de quatro em cada dez estudantes brasileiras. O fundo apoiará projetos divididos em três pilares básicos:
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Ciência, tecnologia e inovação: Financiamento de pesquisas para acelerar diagnósticos na atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS).
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Políticas públicas e sistemas de cuidado: Atuação institucional para integrar de forma definitiva o direito à saúde menstrual nos ministérios de Saúde e Educação.
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Cultura e educação: Campanhas nacionais voltadas à transformação de narrativas sociais e à quebra de estigmas sobre o corpo feminino.
Saiba como apoiar ou receber orientação
Para quem deseja contribuir com insumos ou necessita de suporte para cadastros em programas de distribuição gratuita, as seguintes organizações oferecem canais de contato e atuação:
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ONG Digna Brasil: Promove mutirões itinerantes de cadastramento no sistema do Ministério da Saúde e distribuição de kits.
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Instituto ELA: Desenvolve projetos de fortalecimento emocional e profissional, além de receber e distribuir doações de itens de higiene.
Canais de Comunicação Portal Vida e Ação: Acompanhe atualizações sobre novos mutirões e pontos de coleta no Rio de Janeiro através do nosso Canal do WhatsApp.




