A dor que paralisa, que afasta das aulas, do trabalho e do convívio social foi, por gerações, silenciada sob o pretexto de que “sentir dor faz parte de ser mulher”. No entanto, a ginecologia moderna e os relatos de milhares de pacientes mostram uma realidade bem diferente: a cólica menstrual intensa e incapacitante é um sinal de alerta do corpo e nunca deve ser tolerada ou banalizada.
O processo natural da menstruação envolve a liberação de prostaglandinas — substâncias que estimulam a contração do útero para eliminar o endométrio (a camada que reveste o órgão internamente e descama durante o ciclo). Sentir um leve desconforto é esperado, mas quando a dor rouba a qualidade de vida, o cenário muda.
É um processo natural do organismo, mas, quando a dor é muito intensa, incapacitante ou não melhora com analgésicos comuns, pode indicar problemas ginecológicos”, explica a ginecologista Loreta Canivilo.
Estudos apontam que cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no Brasil sofrem com a endometriose, de acordo com dados da Associação Brasileira de Endometriose (SBE). A condição se caracteriza pelo crescimento de um tecido semelhante ao endométrio fora do útero, provocando processos inflamatórios severos e, em cerca de 30% a 50% dos casos, a infertilidade.
O peso do silêncio e o atraso no diagnóstico correto
A busca por respostas costuma ser uma jornada longa e solitária. Pela falta de informação e pela herança cultural de naturalizar o sofrimento feminino, muitas mulheres demoram de sete a dez anos para descobrir a real causa de suas dores pélvicas.
A ginecologista Luciana dos Anjos, que atende em Goiânia, ressalta que essa visão ultrapassada impede que as jovens busquem ajuda precocemente. Como consequência, doenças crônicas evoluem de forma silenciosa e agressiva.
“A normalização da cólica faz com que as mulheres demorem anos para receber um diagnóstico preciso. Com isso, a doença evolui, causando mais dor, inflamação, infertilidade e, muitas vezes, exigindo cirurgias mais complexas no futuro”, alerta a Dra Luciana.
Quando a dor é acolhida e investigada logo nos primeiros anos de ciclo, as chances de um tratamento clínico bem-sucedido aumentam drasticamente, devolvendo o bem-estar e preservando os planos reprodutivos da paciente.
Quando a cólica deixa de ser comum? Conheça os sinais de alerta
Nem todo desconforto exige alarme, mas o corpo emite sinais claros quando algo não vai bem. Médicos orientam a prestar atenção aos seguintes sintomas:
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Impacto na rotina: Dores intensas que impedem a realização de atividades diárias simples, como estudar ou trabalhar;
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Evolução da dor: Cólicas que apresentam piora progressiva ao longo dos anos;
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Sintomas associados: Presença de sangramento menstrual muito intenso e irregular;
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Dor crônica: Desconforto na região pélvica mesmo fora do período da menstruação;
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Resistência a remédios: Falta de resposta a analgésicos e anti-inflamatórios convencionais;
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Sinais sistêmicos: Dor profunda durante a relação sexual ou alterações intestinais e urinárias (como diarreia, constipação e dor para evacuar ou urinar) especificamente no período menstrual.
Exames específicos e o olhar treinado na ginecologia
Para identificar se por trás da cólica excessiva existem condições como endometriose, adenomiose ou miomas uterinos, a propedêutica médica exige uma escuta sensível no consultório, além de exames de imagem com protocolos bem direcionados.
Os principais aliados no diagnóstico são o Ultrassom Transvaginal com Preparo Intestinal e a Ressonância Magnética da Pelve com Protocolo para Endometriose. Contudo, os especialistas fazem um alerta importante sobre a realização desses exames:
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Os exames e os laudos precisam ser executados por profissionais de radiologia especializados e com olhar treinado para mapeamento de endometriose profunda;
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A falta de expertise técnica na leitura das imagens em centros de saúde gerais é um dos principais fatores que alimentam o atraso no diagnóstico correto.
O tratamento deve ser totalmente individualizado. Para casos leves, ajustes na rotina podem ser suficientes. Já para quadros complexos, a abordagem leva em consideração a extensão da doença (se acomete órgãos como ovários, intestino ou bexiga), o desejo da mulher de engravidar e o impacto na sua saúde geral.
Dor pélvica por mais de três meses exige atenção multidisciplinar
O debate sobre a saúde da mulher ganha ainda mais relevância com a proximidade do 63º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia (CBGO 2026), onde a dor pélvica crônica será um dos temas centrais. Embora a literatura médica tradicional classifique a dor como crônica após seis meses de evolução, diretrizes recentes da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) apontam que sintomas persistentes por mais de três meses já justificam uma investigação minuciosa.
O médico Ricardo de Almeida Quintairos, ginecologista e presidente da Comissão Nacional Especializada em Endometriose da Febrasgo, explica que a dor na região inferior do abdômen é um sintoma inespecífico e pode ter origens variadas.
Muitas vezes, pode ser apenas uma cólica menstrual, mas também pode indicar condições importantes, como endometriose, infecções urinárias, doenças intestinais, alterações musculares (como a dor miofascial induzida por vícios posturais) e até alguns tipos de câncer”, esclarece o médico.
Caminhos para o tratamento e qualidade de vida
O manejo da dor crônica na pelve não se restringe ao uso de pílulas anticoncepcionais ou bloqueios hormonais para suspender a menstruação. O sucesso do tratamento depende de um olhar integral sobre a rotina e o corpo da paciente.
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Cuidado integrado: A abordagem ideal costuma ser multidisciplinar, unindo ginecologistas, fisioterapeutas pélvicos, gastroenterologistas e psicólogos;
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Estilo de vida: Adoção de uma alimentação equilibrada e com potencial anti-inflamatório, prática regular de exercícios físicos, boa hidratação e controle do estresse;
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Suplementação integrativa: O uso de compostos com propriedades anti-inflamatórias naturais, como o ômega 3 e a cúrcuma, tem se mostrado um excelente aliado no alívio dos sintomas a longo prazo.
Diante de dores recorrentes, o passo mais importante é não aceitar o desconforto como parte da rotina. Buscar o acolhimento de um profissional de saúde qualificado é o primeiro passo para resgatar a autonomia sobre o próprio corpo.
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Com informações de Assessorias




