

Ao longo de 2025, 159.041 meninas e mulheres sofreram algum tipo de violência no estado do Rio de Janeiro, o equivalente a aproximadamente 18 vítimas por hora. O perfil predominante é de mulheres negras (52,3%), solteiras (47,9%) e jovens entre 18 e 29 anos (29,8%).
O estudo traz dados inéditos sobre a disseminação de discursos de ódio e do chamado movimento redpill nas redes sociais, apontando como a misoginia vem se adaptando ao ambiente digital e ampliando diferentes formas de violência de gênero.
O termo redpill é utilizado para designar grupo de homens que defendem o discurso do “masculinismo”, em contraposição ao feminismo. Nesses espaços, eles pregam que o homem deve reassumir o domínio e manter a mulher submissa.
Em 2015, primeiro ano da série histórica, foram registradas 239 vítimas de violência psicológica e moral cometidas em ambiente virtual. Em 2025, do total de 5.970 vítimas, 3.417 foram de violência psicológica, correspondendo a 57% dos registros – é o quinto ano seguido que esse tipo de violação aparece como a mais recorrente.
O levantamento também mostra que os ambientes digitais passaram a ser utilizados para descumprir medidas protetivas de urgência. Em 2025, um em cada dez descumprimentos ocorreu por meio de redes sociais, mensagens por aplicativos e até transferências via PIX utilizadas para monitorar, perseguir ou manter contato com as vítimas.
Discurso misógino
O dossiê apresenta uma análise inédita sobre a violência digital e o movimento redpill na plataforma X, antigo Twitter. De acordo com o estudo, há um fortalecimento de discursos misóginos, que se adaptam para difundir conteúdos de ódio e atacar mulheres nas redes sociais, mesmo diante do avanço das políticas de proteção e enfrentamento à violência de gênero.
Infelizmente, a gente vê que o público jovem está sendo muito atraído por esse discurso. Isso é muito triste para a nossa sociedade. A gente está regredindo nesse pensamento misógino, machista e que vai contra todos os ganhos que tivemos recentemente”, avaliou a diretora-presidente do ISP, Bárbara Caballero.
Em março, o Senado aprovou um projeto de lei que criminaliza a misoginia. A proposta insere o delito entre os crimes de preconceito e discriminação previstos na Lei do Racismo. A matéria seguiu para análise da Câmara dos Deputados.
Violência física
A violência física permaneceu como a segunda forma de violência mais frequente contra mulheres no estado, com 43.307 vítimas em 2025: uma ocorrência a cada 12 minutos. A lesão corporal dolosa respondeu por 42.363 registros, sendo que, em mais da metade dos casos, os autores eram companheiros ou ex-companheiros das vítimas.
As Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) concentraram 28,3% de todos os registros de violência contra mulheres no estado. As 15 unidades especializadas realizaram, em média, uma denúncia a cada 12 minutos.
Feminicídio
O estudo aponta, ainda, que 105 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025 no Rio de Janeiro. A maior parte dos crimes ocorreu dentro das próprias residências (83,8%), e os companheiros foram responsáveis por mais da metade dos casos (51,4%). Mais de 70% das vítimas já haviam sofrido violência doméstica anteriormente, mas não procuraram as autoridades para registrar ocorrência.
Os dados também mostram que 67,3% dos autores possuíam antecedentes criminais e que 78,2% dos feminicídios tiveram como motivação conflitos relacionados a ciúmes, separação, suspeita de traição ou discussões consideradas banais. Em quase metade dos casos (46,4%), os autores estavam sob efeito de álcool ou drogas. Entre as vítimas, 59% eram mães, e, desse grupo, 71% deixaram filhos menores de idade.
Violência sexual
A violência sexual atingiu 8.681 meninas e mulheres em 2025. As meninas de 13 anos concentraram a maior parcela das vítimas. Entre os crimes, o estupro de vulnerável apresentou o maior número de registros (3.415 vítimas), seguido pela importunação sexual (2.723) e pelo estupro (1.653).
Quase metade das vítimas de estupro de vulnerável tinha até 11 anos de idade. Em 46,6% dos casos, o crime ocorreu dentro de casa. Mais da metade dos autores era conhecida da vítima, incluindo pais e padrastos em 21,3% das ocorrências.
Entre os demais delitos, a importunação sexual cresceu 11,6% em relação ao ano anterior. Já o assédio sexual apresentou redução de 10,3%, enquanto os registros de ato obsceno aumentaram 3,5%.
Estado de SP registra crescimento de casos de feminicídios em 2026

Entre janeiro e maio deste ano, o estado de São Paulo registrou um aumento nos casos de feminicídio, puxado principalmente pelos assassinatos de mulheres ocorridos no interior paulista. Nesse período foram contabilizadas 124 ocorrências de feminicídios no território paulista, contra 107 que foram registradas no mesmo período do ano passado.
Grande parte dessas mortes ocorreram no interior, com 85 notificações. Os dados foram divulgados na tarde de terça-feira (30) pela Secretaria de Segurança Pública do estado de São Paulo.
Considerando-se apenas o mês de maio, no entanto, houve queda nos casos de feminicídio, que passaram de 26 para 18 notificações na comparação com o mesmo mês do ano passado. A redução foi mais expressiva nos municípios do interior do estado, que passaram de 15 ocorrências para nove.
Além dos feminicídios, o estado de São Paulo também registrou aumento no total de estupros entre janeiro e maio deste ano. Neste mesmo período do ano passado, o estado havia recebido um total de 6.219 notificações relacionadas a esse tipo de crime. Neste ano, o total passou para 6.500 ocorrências. Só no mês de maio foram registradas 1.320 ocorrências, contra 1.183 casos notificados em 2025.
O último estágio de uma sequência de violências
O feminicídio é todo assassinato de mulher caracterizado por violência doméstica ou familiar ou que ocorre por menosprezo e discriminação à condição de mulher Para a delegada Cristiane Braga, que coordena as Delegacias de Defesa da Mulher do estado de São Paulo, é preciso incentivar as pessoas a denunciar a violência doméstica e familiar.
O feminicídio normalmente é o último estágio de uma sequência de violências que, muitas vezes, já vinha sendo praticada contra a mulher. Se não há denúncia, não temos como saber que há um problema ali”, disse em nota.
Segundo ela, quanto mais cedo essa vítima consegue acessar os canais de atendimento e denunciar o agressor, maiores são as chances de interromper esse ciclo e evitar uma tragédia. “Por isso, trabalhamos continuamente para ampliar o acesso das mulheres aos serviços especializados e garantir que elas encontrem acolhimento e proteção”, acrescentou a delegada.
Nenhum caso de feminicídio é aceitável. Por isso, temos investido em ações preventivas, no fortalecimento dos canais de atendimento e na capacitação permanente dos policiais para acolher e proteger as vítimas. A redução registrada em maio é um resultado importante, mas seguimos atuando de forma incansável para preservar vidas e garantir que as mulheres se sintam seguras para denunciar qualquer tipo de violência”, disse a coronel Glauce Anselmo Cavalli, comandante-geral da Polícia Militar.
Queda em homicídios e latrocínios
O levantamento também mostrou que em maio deste ano, o estado de São Paulo registrou 163 homicídios dolosos ou intencionais, menor número para o mês da série histórica, iniciada em 2001. No mesmo mês do ano passado foram contabilizados 190 casos.
No acumulado do ano, entre janeiro e maio, o estado somou 970 ocorrências, o menor patamar da série e a primeira vez que o indicador ficou abaixo de mil casos durante esse intervalo. Em 2025, foram registradas 1.028 ocorrências de homicídios nesse mesmo período.
Quanto aos latrocínios – os chamados roubos seguidos de morte, eles se mantiveram estáveis no resultado do mês, com sete ocorrências, mesmo número registrado em maio do ano passado. No acumulado do ano, houve queda nesse indicador, que passou de 58 ocorrências em 2025 para 38 entre janeiro e maio deste ano.
Da Agência Brasil




