Com o avanço dos casos de sarampo no estado de São Paulo, a Secretaria de Estado da Saúde intensificou a recomendação de vacinação. O sarampo é uma doença viral transmitida pelo contato próximo através de gotículas de saliva durante a fala, espirro, respiração e tosse, sendo considerado uma das doenças infecciosas mais contagiosas do planeta.

O cenário é preocupante. Uma única pessoa infectada pode transmitir o vírus para outras 18, afirma. Isso explica a estimativa OMS (Organização Mundial da Saúde)  de 95 mil mortes/ano no mundo, a maioria de crianças com até cinco anos, que poderiam ser evitadas com a vacina tríplice viral para sarampo, caxumba e rubéola.

Pode parecer uma condição simples, mas pode evoluir para complicações graves. Embora atinja principalmente o trato respiratório superior, a infecção também afeta o trato inferior, incluindo os pulmões, além de causar lesões nos olhos e no aparelho auditivos.

Sintomas e como evitar a disseminação

Os sintomas do sarampo frequentemente se assemelham aos de outras infecções respiratórias virais, como influenza e Covid-19. No entanto, a doença costuma ser mais persistente, apresentando febre alta, muita coriza, tosse e conjuntivite. Os olhos vermelhos acompanhados de fotofobia (dificuldade em permanecer em ambientes iluminados devido ao comprometimento ocular) são marcas características da condição.

O vírus do sarampo tem elevada afinidade com vias respiratórias, olhos e pele. Os primeiros sinais que denunciam a infecção são vermelhidão nos olhos e manchas brancas na mucosa bucal”, afirma o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, diretor executivo do Instituto Penido Burnier.

Transmissão e riscos na gravidez

O especialista – que é membro do CBO (Conselho Brasileiro de Oftalmologia) – recomenda às gestantes  evitarem aglomerações. Isso porque, o sarampo na gestação, pode cursar com  aborto espontâneo e parto prematuro, condições  perigosas à vida da mãe e do bebê.

Uma das consequências para  a visão da criança é a retinopatia da prematuridade, doença que afeta os vasos da retina e pode levar a perda da visão”, pontua. A prematuridade também interfere no desenvolvimento do olho, aumentando o risco de estrabismo ou olhos desviados, alta miopia e ambliopia ou olho preguiçoso, maior causa de cegueira monocular na infância.

Sensibilidade à luz é o principal sintoma

Para o diagnóstico preciso, realizam-se pesquisas de sorologias para anticorpos ou testes moleculares diretos em secreções de nasofaringe.

Por ser uma doença viral, não existe uma medicação específica contra o sarampo, de forma que o tratamento é voltado para o alívio dos sintomas. Além disso, a infecção causa uma queda na imunidade que facilita o surgimento de infecções bacterianas secundárias, como sinusites, otites, laringites, traqueobronquites e pneumonias, sendo necessário o uso de antibióticos nesses cenários”, explica Guilherme Furtado, infectologista do Hcor.

Outras doenças oculares

Nem todos os infectados pelo sarampo apresentam o mesmo risco de perder a visão. “Enquanto a maioria desenvolve apenas conjuntivite e sensibilidade à luz, outros sofrer complicações que atingem estruturas nobres do olho, como córnea, retina e nervo óptico“, diz o o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto.

As principais doenças oculares decorrentes do sarampo, sintomas e riscos  elencadas pelo oftalmologista são:

  1. Conjuntivite: Surge no início do sarampo da maioria das pessoas e geralmente desaparece espontaneamente. Queiroz Neto recomenda usar óculos escuros no sol para reduzir o desconforto e passar por consulta para uma recomendação personalizada. Afinal, cada olho é único.
  2. Ceratite é uma infecção da córnea.  Os sintomas incluem dor, vermelhidão, lacrimejamento, sensibilidade à luz visão turva temporária, mas pode levar à formação de cicatrizes e  diminuição permanente da visão. Exige acompanhamento oftalmológico.
  3. Cicatrizes na córnea ou úlceras são feridas abertas que podem aparecer como pontos brancos na parte frontal do olho e geralmente são tratadas com colírios antivirais ou antibióticos. Quando cicatrizam podem prejudicar a visão e causar cegueira.
  4. Retinopatia embora rara, há casos em que o vírus do sarampo destrói a retina, parte posterior do olho que converte a luz em impulsos elétricos que vão para o cérebro. Pode causar perda de visão temporária e, em alguns casos, permanente. Em casos raros se desenvolve anos após a infecção por sarampo.
  5. Neurite Óptica : Inflamação que afeta o nervo óptico onde são enviados sinais da parte posterior do olho para o cérebro. É relativamente rara, mas pode ocorrer em pacientes com sarampo que também desenvolvem encefalite, ou inchaço cerebral. Os casos agudos podem ser tratados com corticosteroides. A perda de visão causada pela neurite óptica pode ser temporária ou permanente.

 

Sarampo pode causar perda auditiva irreversível em uma a cada dez crianças

Pouco discutida, a relação entre sarampo e perda auditiva preocupa especialistas: as sequelas podem ser permanentes e afetar ambos os ouvidos. O diagnóstico precoce permite a identificação rápida e o início oportuno das intervenções terapêuticas e da reabilitação auditiva

Diante da escalada de casos de sarampo em São Paulo, especialistas também chamam atenção para outra complicação da doença pouco discutida, mas potencialmente grave e irreversível: o comprometimento da audição. Dados do Ministério da Saúde apontam que uma a cada 10 crianças com sarampo desenvolve algum grau de comprometimento auditivo.

Segundo Marcelo Mello, otorrinolaringologista do Hospital Cema, o sarampo pode comprometer a audição das duas formas.  A primeira ocorre por meio de otites, que causam perda auditiva temporária e sensação de ouvido abafado. A segunda, mais grave, é a perda auditiva neurossensorial, que pode provocar alteração na percepção dos sons, zumbido e dificuldade para compreender a fala, com risco de sequelas permanentes.

Surdez por sarampo costuma ser bilateral e de difícil recuperação

De acordo com o Dr. Marcelo Mello, quando o comprometimento auditivo decorrente do sarampo evolui para perda mais severa, atingindo os dois ouvidos, o índice de recuperação é reduzido.

Trata-se de uma perda auditiva bilateral e, infelizmente, as chances de reversão diminuem com o passar do tempo. Por isso, é fundamental procurar atendimento especializado diante de qualquer alteração na audição. Quanto mais precoce for o diagnóstico e o tratamento, maiores são as chances de um desfecho favorável. Nenhuma mudança na capacidade de ouvir deve ser considerada normal ou passageira”, reforça o especialista.

Quando procurar atendimento

Diante de qualquer alteração na audição — como zumbido, sensação de ouvido abafado, distorção dos sons, percepção metálica ou dificuldade para compreender a fala — durante ou após um quadro viral, a recomendação é procurar um otorrinolaringologista imediatamente, sem aguardar a melhora espontânea dos sintomas.

O tempo é um fator determinante para o prognóstico desses casos. Ao menor sinal de comprometimento auditivo, o atendimento especializado deve ser buscado o quanto antes”, orienta o Dr. Marcelo Mello.

Grupos de risco merecem atenção redobrada

Os principais grupos de risco são: quem não é vacinado, crianças, idosos, imunossuprimidos, desnutridos, gestantes e pessoas com deficiência de vitamina A.  Essas pessoas têm maior risco de apresentar quadros graves, caso sejam contagiados.

Embora qualquer pessoa infectada pelo sarampo possa desenvolver algum grau de comprometimento auditivo, alguns grupos exigem vigilância ainda maior:

  • Crianças;
  • Idosos;
  • Gestantes;
  • Pessoas com doenças pré-existentes;

Como prevenir a transmissão

O otorrinolaringologista do Hospital Cema reforça ainda um alerta específico para viajantes que estiveram recentemente em países das Américas, região que tem registrado surtos da doença, e que devem observar sintomas com atenção redobrada ao retornar ao Brasil.

Como o vírus é facilmente transmitido, aqueles com suspeita ou confirmação da doença precisam ser isolados para conter a propagação. O recurso mais importante para prevenir o contágio é a vacinação. No Brasil, a vacina tríplice viral – que também protege contra caxumba e rubéola – é oferecida pelo SUS e em clínicas privadas.

O esquema de imunização prevê a primeira dose aos 12 meses e a segunda aos 15 meses de idade; em adolescentes e adultos de até 30 anos são indicadas duas doses, enquanto para a faixa de 30 a 59 anos recomenda-se uma dose.

Queiroz Neto  ressalta que os olhos podem ser os primeiros a denunciar o sarampo e em muitos casos os últimas a se recuperar. Por isso, a vacinação e o diagnóstico precoce continuam sendo as medidas mais eficazes para proteger não apenas seus olhos mas a saúde coletiva, conclui.

Para evitar a disseminação do vírus são necessárias medidas de isolamento: interrupção temporária das aulas, atividades em grupo e separar  todos os objetos de uso pessoal.  Queiroz Neto ensina observar se a criança fecha os olhos sob o sol e examinar a boca.

Caso apresente pequenos pontos brancos na mucosa das bochechas indicam sarampo. As manchas vermelhas no rosto que se espalham pelo corpo só aparecem depois de 3 a 5 dias”, pontua.

Com Assessorias

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