‘A vida é um pêndulo entre a ânsia de ter e o tédio de possuir’. A megera Pilar – personagem muito bem vivido por Isabel Teixeira na novela das nove da Globo, citou a célebre frase que resume o pensamento do filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Para ele, a existência humana oscila como um pêndulo entre dois extremos: a dor causada pelo desejo daquilo que não temos e o tédio gerado logo após conseguirmos o que queríamos.
Citações e imagens que remetem a livros de pensadores e filósofos famosos estão no radar dos expectadores mais atentos. Em vez de sexo, Quem Ama Cuida surpreende crítica e audiência ao trocar as tradicionais cenas picantes que costumavam garantir a audiência no folhetim das nove por um rico painel de metalinguagem e referências culturais.
Sob a direção artística de Amora Mautner, a obra escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto conecta os dilemas dos personagens aos maiores clássicos da literatura, da filosofia e do pensamento universal. Uma aposta ousada para a televisão aberta se considerarmos que a grande maioria do público que assiste novelas na TV não lê livros – muito menos títulos tão profundos.
O meticuloso trabalho de direção envolve os telespectadores em uma trama digna dos mistérios nos romances policiais  de Agatha Christie, mas com reflexões profundas sobre a condição humana — colocando em xeque sentimentos como amor, ódio, vingança, ganância e injustiça.

 

Conheça alguns dos pensadores e autores presentes na trama

Essas obras funcionam quase como charadas sobre o destino trágico do milionário Arthur Brandão (Antonio Fagundes) e a vingança de Adriana (Letícia Colin):

  • Fiódor Dostoiévski: O autor russo é o mais presente na história. O Idiota é lido por Arthur Brandão antes de sua morte misteriosa; Os Irmãos Karamázov surge com Brigitte (Tata Werneck), antecipando o caos na disputa pela herança; e Crime e Castigo acompanha Dora (Mariana Ximenes) logo após o crime, levantando dúvidas sobre culpa e moralidade.

  • Confúcio: A sabedoria milenar chinesa ecoa na trajetória da protagonista Adriana através do famoso alerta: “Antes de sair em busca de vingança, cave duas covas”, simbolizando como o ódio e o plano de retaliação corroem a alma de quem o pratica.

  • Homero: O clássico grego Odisseia surge nas mãos de Adriana em um momento crucial, traçando um paralelo entre seus anos de sofrimento/prisão e o longo retorno para recuperar o que lhe foi tirado.

  • Truman Capote: A Sangue Frio, clássico do true crime sobre um assassinato brutal e real, também figurou na mesa de cabeceira do patriarca Arthur Brandão.

  • Agatha Christie: Morte no Nilo, lido por Carmita (Deborah Evelyn), reforça o clima do clássico suspense “quem matou?” (whodunit) que domina o núcleo central da Brandão Joias.

  • Marco Aurélio: O livro de filosofia estoica Meditações marcou presença logo nos primeiros capítulos da trama.

  • Marianne Williamson: O Valor da Mulher foi a escolha de Ingrid (Agatha Moreira), refletindo a busca de sua personagem por independência e afirmação.

A presença de autores brasileiros na trama

Além dos clássicos mundiais, o grande diferencial de Quem Ama Cuida é a inclusão de autores brasileiros contemporâneos, transformando as leituras em verdadeiros subtextos e spoilers sobre os rumos dos personagens — o que gerou forte repercussão nas redes sociais.

A inserção dessas obras rendeu reações bem-humoradas dos próprios autores na internet:

  • Solitária (Eliana Alves Cruz): Visto nas mãos da fútil Carmita (Deborah Evelyn). A autora brincou na rede dizendo que, pelo perfil preconceituoso da personagem, ela “deve ter largado a leitura no meio”.

  • A gente mira no amor e acerta na solidão (Ana Suy): O livro sobre psicanálise e relacionamentos surgiu sendo devorado pela personagem Bruna (Nanda Marques).

  • Coisa de Rico (Michel Alcoforado): O antropólogo celebrou ao ver Edvaldo (Guilherme Piva) lendo sua obra sobre o comportamento das elites brasileiras.

  • O Livro dos Espíritos (Allan Kardec): Marcou presença com Otoniel (Tony Ramos) no núcleo da floricultura após interações enigmáticas.

Literatura como farol para os dilemas da vida

Em tempos de consumo rápido de informação e telas frenéticas, ver o horário nobre da televisão brasileira transformar páginas de livros em motor de mistério e autoconhecimento é um respiro necessário. Ao colocar grandes obras nas mãos de personagens com falhas tão humanas, a novela lembra que a literatura não é um adorno acadêmico e distante, mas sim um espelho capaz de traduzir nossas dores, ambições e contradições mais profundas.

Afinal, seja na ficção ou na vida real, ler continua sendo o melhor caminho para entender quem somos — e para nos lembrar de que cuidar da mente é o primeiro passo para viver com mais sabedoria, um dia de cada vez.

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *