Aos 13 anos de idade, o estudante alagoano Eduardo de Paula Sabino de Oliveira surpreendeu os participantes de uma audiência pública realizada em fevereiro deste ano no Senado Federal, com um relato sobre sua experiência e os dramas vividos na rotina escolar e na vida pessoal. O estudante é um dos 7 mil brasileiros identificados com altas habilidades ou superdotação, sendo 3,1 mil crianças e adolescentes e 3,9 mil adultos mapeados.

Eduardo de Paula Sabino de Oliveira, superdotado da Mensa Brasil

Essa marca coloca o Brasil na oitava colocação do ranking da Mensa Internacional, a maior organização de alto QI do mundo. Segundo mapeamento da Associação Mensa Brasil, o estado de São Paulo lidera a lista, com 2.645 ‘superinteligentes’. Em seguida estão Rio de Janeiro, com 686, Minas Gerais, com 599, Paraná, com 561, e Distrito Federal, com 439 (veja a lista completa ao final do texto).

De acordo com a entidade que representa oficialmente a Mensa Internacional no país, 44,3% dos identificados são crianças e adolescentes. A primeira criança ingressou na associação em setembro de 2006, aos 9 anos. Hoje, a organização registra membros com idades entre 2 e 75 anos.

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O impacto da subnotificação

Brasil identifica menos de 0,5% dos alunos com altas habilidades: OMS estima índice até dez vezes maior

Promovida em fevereiro pelas comissões de Direitos Humanos e de Educação e Cultura do Senado Federal, a audiência pública discutiu o fortalecimento de políticas que assegurem a identificação e o estímulo ao desenvolvimento desses estudantes. O debate foi um passo fundamental para a Lei nº 15.436, que institui a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação (AH/SD), em vigor desde o dia 18 de junho.

Durante a tramitação do projeto, parlamentares destacaram que o Brasil pode ter milhões de pessoas com altas habilidades ou superdotação, mas apenas uma pequena parcela é oficialmente identificada pelas redes de ensino. Embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) estime que entre 2% e 5% da população apresente altas habilidades, o Brasil identifica oficialmente menos de 0,5% dos alunos com esse perfil.

O Brasil ainda desperdiça muitos desses potenciais simplesmente porque essas pessoas nunca foram identificadas. Muitas crescem sem compreender suas próprias características, sem estímulo adequado e, muitas vezes, sem encontrar espaços onde possam desenvolver plenamente suas habilidades”, afirma Julio Cesar Campos Filho, presidente da Associação Mensa Brasil.

Muitas crianças permanecem invisíveis no ensino regular

Subidentificação de alunos com altas habilidades no Brasil expõe falhas estruturais na educação e deixa milhares de crianças sem atendimento adequado

Esse cenário de subdiagnóstico compromete o desenvolvimento educacional e socioemocional de milhares de crianças. Especialistas apontam que o baixo índice de identificação decorre da falta de formação específica dos professores; do desconhecimento sobre o tema e da ausência de políticas públicas estruturadas voltadas ao atendimento desses estudantes.

Na prática, muitas crianças permanecem invisíveis dentro do ensino regular, sem que suas necessidades pedagógicas sejam reconhecidas ou atendidas, como avalia afirma Clarissa Vergara, professora com formação em Neuropedagogia e Altas Habilidades.

Muitas crianças rotuladas como desinteressadas estão, na verdade, reagindo à falta de um ambiente que respeite sua curiosidade e intensidade. Quando encontram um espaço seguro e desafiador, elas voltam a se engajar e a aprender com prazer”,

Crianças com altas habilidades ou superdotação costumam apresentar características como aprendizagem acelerada, pensamento crítico avançado, elevada curiosidade intelectual e interesse intenso por temas específicos. De acordo com diretrizes do Ministério da Educação e estudos amplamente utilizados na área, esses potenciais podem se manifestar de diferentes formas, incluindo talentos acadêmicos, científicos, artísticos ou de liderança. 

Quando não identificadas e estimuladas adequadamente, essas crianças podem desenvolver desmotivação escolar, queda no desempenho acadêmico, dificuldades de socialização e quadros de ansiedade, o que reforça a importância de ambientes educacionais que reconheçam e desenvolvam suas necessidades cognitivas e socioemocionais.

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Nova lei cria política nacional para estudantes com altas habilidades

Legislação prevê identificação precoce, atendimento especializado, centros de referência e formação de profissionais

A recém-criada Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação (AH/SD) estabelece diretrizes para identificação precoce, atendimento educacional especializado e desenvolvimento integral, além de criar um cadastro nacional voltado a esses estudantes.

Também prevê a criação de centros de referência, formação de profissionais especializados, programas de enriquecimento curricular, aceleração de estudos quando necessária e outras medidas voltadas para garantir que alunos com altas habilidades recebam acompanhamento compatível com suas necessidades educacionais.

A nova lei busca ampliar a identificação desses estudantes e é orientar ações coordenadas entre União, estados e municípios, garantindo que o potencial desses jovens seja devidamente aproveitado pela sociedade. Quando são oferecidas oportunidades para que esses alunos desenvolvam plenamente suas capacidades, não apenas o indivíduo é beneficiado, mas também a produção científica, cultural, tecnológica e artística do país.

Clube incentiva a autonomia intelectual

Diante das lacunas do sistema educacional tradicional, iniciativas como o Clube Amplexo Educação buscam oferecer alternativas de enriquecimento curricular. O projeto foca no estímulo ao pensamento crítico e à ampliação do repertório de aprendizagem, por meio de aulas diversificadas, encontros temáticos e preparação para olimpíadas do conhecimento nacionais e internacionais, criando um ecossistema atento às diferentes formas de aprender e e ao desenvolvimento integral das crianças..

Idealizado como um espaço de aprendizagem acolhedor, o Clube Amplexo desenvolve projetos educacionais alinhados à valorização das singularidades de cada estudante. A proposta é atender crianças que buscam fortalecer sua aprendizagem e expandir seus horizonte”, diz Clarissa Vergara, que utiliza sua experiência como membro da Intertel e da Mensa para apoiar o desenvolvimento de crianças e adolescentes.

Superdotados identificados por estado

Estado Total
São Paulo (SP) 2.645
Rio de Janeiro (RJ) 686
Minas Gerais (MG) 599
Paraná (PR) 561
Distrito Federal (DF) 439
Santa Catarina (SC) 360
Rio Grande do Sul (RS) 334
Bahia (BA) 273
Espírito Santo (ES) 134
Ceará (CE) 121
Goiás (GO) 114
Mato Grosso (MT) 84
Paraíba (PB) 54
Mato Grosso do Sul (MS) 50
Pará (PA) 48
Maranhão (MA) 37
Alagoas (AL) 35
Amazonas (AM) 28
Tocantins (TO) 14
Rondônia (RO) 12
Amapá (AP) 10
Acre (AC) 4
Roraima (RR) 4
Não informado 381

Com Assessorias

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