Durante muito tempo, falar sobre saúde mental de crianças significava, principalmente, discutir dificuldades de aprendizagem, comportamento ou adaptação escolar. Questões como ansiedade e depressão pareciam pertencer a fases posteriores da vida. Hoje, porém, os dados mostram que essa separação não faz mais sentido. O sofrimento psíquico pode surgir ainda na infância e, quando não é reconhecido, interferir no desenvolvimento, nas relações e na rotina da criança.

Uma análise baseada no Estudo Global de Carga de Doenças (Global Burden of Disease – GBD 2023), publicada no The Lancet Regional Health – Americas, estima que 15,6 milhões de brasileiros entre 5 e 29 anos convivam com algum transtorno mental. Isso corresponde a cerca de 20,91% dessa população.

Entre as crianças de 5 a 9 anos, mais de 10% apresentam algum transtorno mental, e a ansiedade aparece como a principal causa de incapacidade nessa faixa etária. Esses números não significam que toda criança ansiosa tenha um transtorno ou que comportamentos comuns da infância deva ser medicalizada. O dado mais importante é outro: precisamos estar atentos ao sofrimento emocional desde cedo.

Nem toda ansiedade é um transtorno

Sentir medo, preocupação ou ansiedade faz parte do desenvolvimento. Uma criança pode ter medo do escuro, ficar apreensiva antes de uma prova, sofrer com a separação dos pais ou demonstrar insegurança diante de uma mudança de rotina. Essas experiências, por si só, não indicam necessariamente um problema de saúde mental.

A diferença está principalmente na intensidade, na frequência e no impacto que esses sentimentos provocam.

A ansiedade merece atenção quando deixa de ser uma reação pontual e começa a limitar a vida da criança. Se ela deixa de brincar, passa a evitar situações comuns da idade, apresenta sofrimento intenso diante da escola, tem sintomas físicos recorrentes ou deixa de realizar atividades cotidianas por causa do medo, é importante investigar o que está acontecendo.

Outro ponto importante é que a criança nem sempre consegue dizer que está ansiosa. O sofrimento pode aparecer de maneiras diferentes: irritabilidade, alterações no sono, queixas frequentes de dor de cabeça ou dor de barriga, dificuldade de concentração, recusa em ir à escola, queda no rendimento ou mudanças significativas na forma de se relacionar.

Por isso, observar o comportamento é fundamental. Mais do que identificar um sintoma isolado, é preciso perceber mudanças persistentes e compreender em que contexto elas surgem.

O que acontece quando a criança não consegue dizer o que sente

Uma das dificuldades no cuidado com a saúde mental infantil é justamente interpretar comportamentos que, à primeira vista, podem ser vistos apenas como desobediência, preguiça, birra ou falta de interesse.

Uma criança que começa a se recusar repetidamente a ir à escola, por exemplo, pode estar enfrentando dificuldades acadêmicas, conflitos sociais, bullying, medo de avaliações ou ansiedade de separação. Da mesma forma, uma criança mais irritada ou isolada pode estar expressando um sofrimento que ainda não consegue nomear.

Isso não significa interpretar todo comportamento difícil como sinal de transtorno. Significa evitar conclusões precipitadas e olhar para a criança como um todo.

Quando uma mudança persiste e começa a interferir na rotina, nas relações, no sono, na escola ou nas atividades que antes eram prazerosas, o comportamento deixa de ser apenas uma questão disciplinar e passa a merecer uma investigação mais cuidadosa.

A adolescência aumenta a complexidade

Se a ansiedade já ocupa um lugar importante entre as crianças, a situação ganha novas dimensões durante a adolescência. Segundo o estudo, transtornos de ansiedade e depressão estão entre as principais causas de incapacidade a partir dessa fase, com impacto maior entre as meninas.

O levantamento também estima 5.402 mortes anuais por suicídio entre brasileiros de 10 a 29 anos, sendo 77% entre homens. Esses dados mostram que falar de saúde mental na infância não significa antecipar problemas da vida adulta, mas reconhecer que diferentes etapas do desenvolvimento estão conectadas.

Uma dificuldade emocional que não é identificada ou acompanhada pode se prolongar, mudar de forma ou se somar a outras questões ao longo do desenvolvimento.

Por isso, não é necessário esperar que o sofrimento se torne intenso para buscar ajuda. Quanto mais cedo uma criança ou adolescente que está sofrendo recebe acolhimento e, quando necessário, acompanhamento profissional, maiores são as possibilidades de evitar que o problema comprometa outras áreas da vida.

Isso também não significa medicalizar a infância. O cuidado em saúde mental pode envolver diferentes estratégias, de acordo com cada situação, e deve considerar o contexto familiar, escolar e social da criança.

O papel dos adultos é observar, acolher e investigar

Pais, responsáveis e professores estão entre as pessoas que mais convivem com as crianças e, portanto, podem perceber mudanças antes mesmo que elas sejam capazes de explicar o que está acontecendo.

Alguns sinais merecem atenção quando aparecem de forma persistente ou representam uma mudança significativa no comportamento habitual: irritabilidade frequente, alterações importantes no sono ou no apetite, isolamento, queda repentina no rendimento escolar, medo excessivo, crises recorrentes, recusa persistente em frequentar a escola, queixas físicas sem causa aparente e perda de interesse por atividades que antes despertavam entusiasmo.

A criança não precisa necessariamente dizer “estou com ansiedade” para que os adultos percebam que alguma coisa não está bem. O comportamento também é uma forma de comunicação.

Nesse momento, a postura dos adultos faz diferença. Em vez de simplesmente cobrar que a criança volte a se comportar como antes, é mais importante tentar compreender o que mudou, fazer perguntas, ouvir sem julgamento e observar se há algum fator desencadeador ou mantenedor daquele sofrimento.

Também é importante evitar dois extremos: minimizar o que a criança está sentindo ou transformar qualquer manifestação emocional em diagnóstico.

Saúde mental também se constrói na infância

Os dados do estudo reforçam que a saúde mental precisa ser considerada desde os primeiros anos do desenvolvimento. Isso envolve não apenas os serviços de saúde, mas também famílias, escolas e políticas públicas capazes de oferecer suporte adequado em diferentes fases da vida.

Cuidar da saúde mental desde a infância não significa impedir que a criança enfrente frustrações, perdas, conflitos ou dificuldades. Essas experiências também fazem parte do desenvolvimento e contribuem para a construção de recursos emocionais.

O objetivo é oferecer condições para que ela possa aprender a lidar com essas situações e, principalmente, reconhecer quando o sofrimento ultrapassa aquilo que é esperado para determinada fase.

A ansiedade infantil não deve ser ignorada, mas também não deve ser encarada automaticamente como doença. Entre esses dois extremos existe um espaço fundamental de observação, escuta e cuidado. É nesse espaço que pais, professores e profissionais de saúde podem ajudar a criança a compreender o que está acontecendo e, quando necessário, buscar o suporte adequado.

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