O que parece um hábito inofensivo pode, na verdade, representar um grande risco para a saúde. Em um país onde ovos e frangos estão presentes diariamente na alimentação de milhões de pessoas, algumas dúvidas frequentes ainda geram debate: afinal, devemos ou não lavar os ovos antes de armazená-los? E o frango, deve ser lavado na hora de preparar?
De acordo com especialistas em segurança dos alimentos, que reforçam as orientações adotadas internacionalmente, a resposta é clara: não se deve lavar os ovos nem o frango antes do consumo. “Lavar carnes ou frangos crus na pia, além de desnecessário, espalha micro-organismos pela pia, bancada e utensílios”, alerta Paula Eloize, fundadora da Food Smart.
No caso do ovo, a razão está na estrutura da casca, que é naturalmente porosa. Ao contrário do que parece, a lavagem pode abrir caminho para microrganismos perigosos, como Salmonella, penetrarem no interior do alimento.
A casca do ovo possui uma camada protetora chamada cutícula, responsável por selar os poros e atuar como uma barreira natural contra a entrada de bactérias. Quando o ovo é lavado de forma inadequada, essa proteção é removida, deixando o alimento mais suscetível à contaminação.
Muita gente acredita que lavar o ovo é uma forma de garantir limpeza e segurança, mas na verdade o efeito é o contrário. A umidade e o atrito da lavagem comprometem a cutícula e facilitam a migração de microrganismos da casca para o interior”, explica a especialista em segurança dos alimentos.
No Brasil, a legislação estabelece que os ovos destinados ao comércio passem por processos industriais de higienização específicos, realizados sob condições controladas e seguras. Por isso, os ovos vendidos em supermercados já chegam ao consumidor prontos para consumo, sem necessidade de lavagem caseira.
Em casa, a recomendação é armazenar os ovos em local fresco e seco, preferencialmente dentro da geladeira. Esse cuidado reduz as chances de contaminação e mantém a integridade do alimento por mais tempo.
É fundamental que o consumidor entenda que práticas simples podem ter impacto direto na segurança daquilo que vai para a mesa. No caso dos ovos, preservar a cutícula é preservar a proteção natural contra bactérias”, reforça Paula Eloize.
Lavar frango cru aumenta o risco de contaminação

Outro hábito comum nas cozinhas brasileiras é lavar o frango antes de cozinhar, como se isso fosse uma forma eficaz de eliminar impurezas e bactérias. Especialistas alertam que essa prática pode aumentar o risco de contaminação cruzada, espalhando micro-organismos perigosos pela cozinha.
De acordo com Paula Eloize, a água não elimina as bactérias presentes na carne crua. Pelo contrário, ao entrar em contato com o frango, ela pode transportar agentes contaminantes para pias, utensílios e até mesmo para as mãos e roupas do manipulador.
Muitas pessoas acham que estão tornando o alimento mais seguro ao lavá-lo, mas, na verdade, estão espalhando bactérias por toda a cozinha, aumentando o risco de intoxicação alimentar”, explica Paula.
Segundo ela, o frango cru pode conter microrganismos como Salmonella e Campylobacter, que não são eliminados com água corrente, a lavagem do frango cru favorece a disseminação de microrganismos invisíveis a olho nu.
Quando o frango cru é lavado, a água espalha bactérias presentes na carne para a pia, bancadas, utensílios, mãos e até para outros alimentos. Esse respingo microscópico é suficiente para causar contaminação cruzada”, explica.
Ao contrário do que muitos acreditam, a aparência do frango não indica segurança. “Mesmo que o frango pareça limpo, sem cheiro ou viscosidade, ele pode estar contaminado. A água não remove esse risco”, destaca Paula.
Durante a lavagem, as bactérias podem se espalhar por toda a cozinha. “Pia, torneira, esponha, pano de prato e superfícies próximas podem se tornar veículos de contaminação, atingindo alimentos que não passarão por cocção, como saladas e frutas”, alerta.
Esse tipo de contaminação é uma das principais causas de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA) em ambientes domésticos. “A única forma eficaz de eliminar esses microrganismos é o cozimento adequado, atingindo temperaturas seguras em toda a carne. A cocção (cozimento) é o que realmente elimina os microrganismos patogênicos”.
Qual é a forma correta de preparar o frango

De acordo com a especialista, o preparo seguro envolve cuidados simples e eficazes:
- Não lavar o frango cru
- Manter o frango refrigerado até o momento do preparo
- Utilizar utensílios exclusivos para carnes cruas
- Lavar bem as mãos após manusear o frango
- Cozinhar completamente, sem partes cruas ou rosadas
A intoxicação começa antes do sintoma
Caso um alimento contaminado seja consumido, os sintomas podem surgir em poucas horas ou até dias depois. Náuseas, vômitos, diarreia, febre e dores abdominais estão entre os sinais mais comuns de uma Doença Transmitida por Alimentos (DTA).
Em casos mais graves, pode haver desidratação, hospitalização e até risco de morte. “Se houver sintomas persistentes ou sinais de desidratação, é fundamental procurar um médico”, reforça Paula.
Paula esclarece que algumas das bactérias presentes no frango cru, como a Salmonella e a Campylobacter, são responsáveis por infecções gastrointestinais graves. O contato dessas bactérias com outras superfícies pode resultar na contaminação de alimentos prontos para consumo, tornando o problema ainda mais perigoso.
A única forma segura de eliminar as bactérias do frango é cozinhá-lo em temperaturas acima de 74°C”, alerta a especialista. O calor reduz os micro-organismos e garante um alimento seguro para o consumo, conta.
Outros erros comuns na cozinha que podem causar contaminação
Você pode estar colocando sua saúde em risco — dentro da própria cozinha
A maior parte das pessoas acredita que intoxicações alimentares são problemas de restaurantes, fábricas ou comidas de rua. Mas a verdade é que muitos surtos têm origem dentro de casa, causados por falhas simples e evitáveis no preparo dos alimentos.
Segundo a médica veterinária e especialista em segurança dos alimentos, Paula Eloize, a segurança sanitária começa nas escolhas do dia a dia — e pequenos descuidos podem representar grandes riscos, principalmente para crianças, idosos e pessoas com baixa imunidade.
Tem gente que lava a carne, mas não lava as mãos. Ou descongela o frango na pia e depois volta a congelar. São hábitos comuns, mas que abrem as portas para bactérias perigosas como Salmonella e Listeria”, alerta Paula Eloize.
10 erros comuns que você pode estar cometendo na sua cozinha
Além do frango e dos ovos, outros alimentos exigem cuidados especiais para evitar riscos à saúde. Paula Eloize destaca alguns erros frequentes na cozinha e como evitá-los:
- Descongelar alimentos fora da geladeira – Deixar carnes ou outros alimentos descongelando em temperatura ambiente favorece a multiplicação de bactérias. O correto é descongelar dentro da geladeira ou no micro-ondas.
- Deixar alimentos cozidos em temperatura ambiente por muito tempo – Esperar a comida “esfriar totalmente” pode ser perigoso. Bactérias se multiplicam rapidamente entre 5°C e 60°C, conhecida como zona de perigo para os alimentos. Alimentos devem ser armazenados em até duas horas após o preparo, de preferência em recipientes rasos e tampados.
- Armazenar alimentos de forma inadequada – Misturar produtos crus com prontos para consumo na geladeira, usar potes sem tampa ou manter alimentos por muito tempo abertos contribui para a proliferação de bactérias e fungos.
- Usar a mesma tábua para cortar carnes e vegetais – A contaminação cruzada é um dos maiores riscos sanitários. Idealmente, deve-se usar tábuas e facas diferentes para alimentos crus e prontos para consumo. Carnes cruas podem conter bactérias que passam para vegetais e frutas, causando contaminação cruzada. Tenha uma tábua exclusiva para carnes e outra para vegetais.
- Não lavar frutas e verduras corretamente – Agrotóxicos, terra e micro-organismos podem estar presentes nos vegetais. Lave bem em água corrente e deixe de molho em uma solução com água sanitária própria para essa finalidade. É importante sempre verificar o rótulo do produto para conferir se ele pode ser utilizado em alimentos.
- Comer ovos crus ou mal cozidos – Ovos crus podem conter Salmonella, bactéria que pode causar intoxicação alimentar severa. Cozinhe ovos até que a clara e a gema estejam firmes e prefira consumir ovos pasteurizados em receitas como maionese caseira.
- Consumir leite ou derivados não pasteurizados – Leite cru pode conter bactérias perigosas, como Listeria e E. coli. Opte sempre por leite e derivados pasteurizados, garantindo a eliminação de micro-organismos nocivos.
- Consumir alimentos vencidos ou com embalagens danificadas – Mesmo com aparência e cheiro normais, produtos vencidos ou mal armazenados podem estar contaminados. O prazo de validade e as condições de conservação devem ser respeitados.
- Não higienizar corretamente as mãos e utensílios – Manter as mãos sujas ou usar utensílios mal lavados pode levar micro-organismos para os alimentos. Lave bem as mãos antes de cozinhar e higienize facas, colheres e outros itens antes de reutilizá-los.
- Ignorar a limpeza de esponjas, panos e utensílios – Esponjas úmidas e panos reutilizados acumulam microrganismos perigosos. Devem ser trocados com frequência, higienizados diariamente e, se possível, desinfetados com água fervente ou solução clorada.
Como se proteger?
- Siga as orientações de armazenamento dos rótulos;
- Lave bem as mãos antes, durante e depois da manipulação;
- Mantenha a cozinha limpa, ventilada e organizada;
- Não reutilize óleo muitas vezes;
- Evite deixar restos de comida fora da geladeira;
Informação protege a saúde
A conscientização sobre boas práticas de higiene e manipulação de alimentos é essencial para prevenir doenças e garantir refeições seguras. Paula Eloize destaca que muitos costumes foram transmitidos culturalmente, mas hoje já se sabe que podem trazer riscos.
A segurança dos alimentos não é um luxo — é uma prática diária de cuidado. Todo mundo que manipula alimentos precisa entender isso, inclusive dentro de casa. Pequenas mudanças de hábito reduzem significativamente o risco de contaminação”, reforça.
Atualizar hábitos é uma forma de cuidado. Cozinhar com segurança protege quem prepara e quem consome. O conhecimento salva vidas, e pequenas mudanças na rotina podem fazer toda a diferença na saúde da sua família. Educar é prevenir. E prevenir, quando se trata de alimentos, é proteger vidas”, conclui a especialista.




