Quando o assunto é proteção contra os raios solares, a maioria das pessoas lembra do rosto e do corpo, mas acaba esquecendo de uma região altamente vulnerável: os lábios. A exposição solar crônica e sem proteção representa um risco silencioso para o desenvolvimento do câncer de boca, especialmente no lábio inferior, que recebe maior incidência de radiação ultravioleta (UV). A relação entre a radiação solar e as lesões malignas ganha destaque ao longo deste mês com a campanha Maio Vermelho, voltada à prevenção e ao diagnóstico precoce da doença.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil pode registrar 10.880 casos de câncer de lábio em 2026, sendo estimado que 2.800 deles ocorram no estado de São Paulo. Embora os números chamem a atenção, o diagnóstico desse tipo de tumor costuma ocorrer tardiamente, o que compromete severamente as chances de cura. No entanto, quando a doença é identificada logo no início, as probabilidades de sucesso no tratamento dão um salto animador.

Quando o câncer é identificado no início, as chances de cura podem ultrapassar 80% a 90%”, afirma a cirurgiã-dentista Lígia Gonzaga Fernandes, do Centro de Especialidades Odontológicas (CEO) II Vera Cruz, unidade da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP) gerenciada pelo CEJAM (Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”).

Dados do National Cancer Institute dos Estados Unidos reforçam esse otimismo: quando o diagnóstico é feito precocemente e o tumor ainda está localizado, sem ter se espalhado para outras áreas do corpo, entre 90% a 100% dos casos de câncer de lábio podem ser curados.

O efeito cumulativo do sol na boca e os impactos na autoestima

A radiação ultravioleta atua como um agente carcinogênico crônico. Isso significa que o processo de mutação celular ocorre de maneira lenta, silenciosa e cumulativa ao longo dos anos.

A radiação ultravioleta provoca danos cumulativos no DNA das células ao longo dos anos, favorecendo mutações e alterações no controle da proliferação celular. A célula vai acumulando danos até perder sua capacidade normal de controle e passar a replicar essas alterações”, explica Lígia Gonzaga Fernandes.

Pessoas que trabalham diariamente ao ar livre — como agricultores e pescadores — estão entre os grupos mais expostos e vulneráveis ao câncer de lábio, sendo a radiação solar a principal causa da doença. O grande perigo reside no fato de que as alterações iniciais parecem inofensivas e, por não causarem dor, fazem com que o paciente demore a procurar ajuda médica ou odontológica.

Além de ser uma condição séria de saúde, especialistas do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), lembram que a doença traz impactos significativos tanto para a saúde quanto para a estética e para a funcionalidade bucal. Por provocar a perda de tecidos na face, o tumor pode afetar drasticamente a fala, a mastigação, a deglutição e a própria autoestima do paciente.

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Sinais de alerta: o que observar nos lábios

Os sintomas iniciais do câncer nos lábios costumam ser discretos e de evolução lenta. Secretário da Câmara Técnica de Estomatologia do Crosp, Yuri Kalinin alerta que os primeiros sinais que exigem atenção imediata são feridas ou úlceras que não cicatrizam em até 15 dias. Outros indicativos importantes incluem:

  • Ressecamento persistente, descamação labial, fissuras e crostas;

  • Manchas vermelhas, esbranquiçadas ou mais escuras nos lábios ou na cavidade oral;

  • Lesões que sangram com facilidade ou que apresentam bordas irregulares e endurecidas;

  • Nódulos ou caroços semelhantes a verrugas;

  • Perda de linha de limite visível entre o vermelhão do lábio e a pele do rosto.

Em estágios mais avançados, o tumor pode evoluir provocando nódulos no pescoço (ínguas), rouquidão persistente, sensação de algo preso na garganta e dificuldade severa para falar, mastigação ou deglutição. “Nem toda ferida é câncer, mas toda ferida que não cicatriza deve ser avaliada”, ressalta Lígia Gonzaga.

Fatores de risco biológicos e de estilo de vida

Além da exposição solar sem proteção, o desenvolvimento do câncer de lábio e de boca está intimamente ligado ao tabagismo e ao consumo de bebidas alcoólicas, sendo que o álcool potencializa os efeitos carcinogênicos do cigarro.

Contudo, fatores biológicos e genéticos também desempenham papel crucial na incidência da doença e devem ser considerados:

  • Infecção pelo vírus HPV: Especificamente o subtipo 16, está associado ao surgimento de casos;

  • Envelhecimento e características da pele: Maior incidência registrada em pessoas de pele clara com mais de 40 anos;

  • Histórico familiar: Passado genético de câncer de pele na família eleva o risco;

  • Imunidade: Indivíduos imunossuprimidos ou com o sistema imunológico enfraquecido são mais suscetíveis.

Prevenção e o papel da odontologia

A boa notícia é que é possível evitar o câncer de lábio por meio de hábitos saudáveis e da redução da exposição aos fatores de risco. Os especialistas indicam medidas simples que devem ser incorporadas à rotina:

  1. Fotoproteção diária: Usar protetor solar labial com FPS 15 ou superior todos os dias, especialmente em períodos de sol intenso;

  2. Proteção mecânica: Utilizar barreiras físicas, como chapéus de abas largas, bonés e roupas com proteção UV ao trabalhar ou caminhar ao ar livre;

  3. Atenção aos horários: Evitar a exposição solar direta nos horários críticos de radiação, entre 10h e 16h;

  4. Estilo de vida: Abandonar o tabagismo, reduzir o consumo alcoólico e manter uma boa higiene oral.

O cirurgião-dentista é o profissional plenamente habilitado para realizar o diagnóstico de neoplasias malignas na cavidade bucal por meio de avaliações clínicas detalhadas, apalpando lábios e bochechas. Diante de qualquer alteração suspeita que passe de duas semanas, o paciente deve buscar atendimento odontológico. O profissional também integra a equipe multiprofissional (ao lado de oncologistas e cirurgiões de cabeça e pescoço) para garantir tratamentos menos agressivos e com melhores resultados funcionais e estéticos.

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