Eis que o outono definitivamente resolveu dar as caras. E assim como flores e folhas caem das árvores, se espatifam no chão, há tantas declarações jogadas ao vento para que repercutam do jeito que beneficie os interesses de alguns. Ops, interesses de quem os espalhadores de narrativas, né? Pois uma civilização não terminou do jeito que um certo imperialista sentenciou, e aqui pelos pagos a disputa de poder desconsidera as implicações da emergência climática em que estamos inseridos.
Que canseira. O pior de tudo é que todos somos impactados com essas medidas de gente que vive com a cabeça em algum lugar que ignora (ou faz por gosto mesmo) a existência de riscos e perigos de suas decisões. Por essas e por outras que aprecio criar microambientes que permitam que eu experimente alternativas de combinações na vida real. O emaranhado sórdido e desafiador das várias camadas do cenário em que estamos metidos deixa qualquer pessoa mais ou menos lúcida, com algo mais entre as orelhas (lembram do slogan da rádio Ipanema?) apreensiva.
Por isso vou ocupar esse meu espaço pra contar o quanto é interessante observar e cultivar plantas em pequenos espaços para desopilar. As plantas servem de bioindicadoras para várias situações que estamos atravessando. Estar atenta ao que elas querem dizer requer desligar-se minimamente dos problemas e focar no que elas querem comunicar.
Aqui em casa, neste ano, algumas laranjas abriram antes de amadurecer, outras caíram do pé. Isso significa algo que ainda não sabemos. Excesso de chuva? Algum fungo? Falta de nutrientes. É preciso investigar. O fato é que sempre estamos de olho nos bichinhos que atacam as folhas, nos ovinhos de alguma lagarta e nos inúmeros insetos que rondam as flores.
Leia mais
Hora do Planeta: há 20 anos alertando sobre a crise climática
Onda de calor no outono eleva riscos de desidratação
Como conscientizar os brasileiros sobre a crise climática?
Como manter a natureza sempre por perto
Ter plantas em lugar acessível, na altura dos olhos, em vasos, aguça várias dimensões da nossa passagem por esse planeta. Recomendo a todo mundo que tenha natureza por perto. Nem que seja em um vasinho. Pois uma vida atrai outras.
O que vai aparecer junto depende da nossa capacidade de reagir ao que a planta necessita. A escolha das espécies é decisiva. Tem algumas que se dão muito bem com recipientes de plástico. Outras, em barro, em concreto.
Enfim, se o macro, o planeta, está passando por transformações jamais vistas na história da humanidade, nós podemos aprender muito lidando em algum microcosmos da Terra. E aí, dá para testar, experimentar, mudar de lugar. Eu costumo plantar a mesma espécie em diferentes lugares, para constatar onde elas se dão melhor.
São situações manejáveis que, na jornada da existência, em boa parte das vezes, são impossíveis de se fazer. Pois, geralmente precisamos nos adaptar às circunstâncias. E isso requer sabedoria, discernimento, paciência. Aprendizados de muitas vidas. Às vezes penso que tomadores de decisão deveriam também cultivar jardins, saber observar o que a natureza está querendo transmitir.
Pois o que temos visto, tanto no global quanto no local, é gente querendo construir castelos e portos em areia movediça. Ou promovendo guerras, matando inocentes, lançando zilhões de toneladas de gases de efeito estufa (GEE), tudo por dinheiro e para se perpetuarem no poder por mais alguns anos, deixando um passivo gigantesco para esta e para próximas gerações.
Texto publicado originalmente no site Sler – veja aqui




