Você já parou para pensar que a saúde de uma pessoa pode ser diretamente impactada por como ela é tratada pela sociedade? Um levantamento do Instituto Nacional do Câncer (Inca) traz à tona uma realidade que não podemos ignorar: a taxa de tabagismo entre pessoas homossexuais e bissexuais é 76% maior do que entre a população heterossexual.

Enquanto 12,7% dos heterossexuais consomem produtos de tabaco, o índice sobe para 22,4% entre pessoas do primeiro grupo. A disparidade é ainda mais gritante quando se analisa o uso de cigarros eletrônicos (vapes): o consumo entre homossexuais e bissexuais é quase seis vezes maior.

Mesmo com dados escassos a última Pesquisa Nacional de Saúde, principal base de informações oficiais sobre a saúde dos brasileiros, lançada em 2019, foi possível confirmar a maior incidência de tabagismo na população LGBTQIAPN+: 19,7% das pessoas que se declararam como homossexuais consumiam produtos de tabaco, contra 7,3% das que se declararam heterossexuais. 

O dado do Inca – divulgado às vésperas do Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+ (28/6), revela como o combate ao tabagismo no Brasil ganha uma dimensão de equidade urgente. Mais do que apenas números, essa estatística nos convida a olhar para o que acontece por trás do hábito de fumar.

Afinal, o que leva tantas pessoas desse grupo a buscarem o cigarro convencional ou eletrônico (vape) e outros produtos derivados do tabaco?

O peso da LGBTIfobia como fator de risco

Especialistas explicam que a resposta passa por dois caminhos muito claros. De um lado, o impacto social, agravado pela exposição precoce ao tabagismo. De outro, a indústria do tabaco, que sabe exatamente como atrair o público jovem, usando vapes com sabores, cores e embalagens “tecnológicas” que escondem um perigo real.

Para a pesquisadora Aline Mesquita, que integra a Divisão de Controle do Tabagismo e Outros Fatores de Risco da Coordenação de Prevenção e Vigilância do Inca, o preconceito e a violência são fatores-chave para entender esses números.

Noventa porcento das pessoas que fumam começam antes dos 19 anos. Imagina um adolescente, que já tem as vulnerabilidades típicas da adolescência e sofre com esses fatores relacionados à LGBTIfobia”.

Esse sofrimento gera um terreno fértil para a ansiedade e a depressão, fazendo com que o cigarro se torne, para muitos, uma válvula de escape nociva. “Há mais chance de um quadro de depressão e ansiedade, e tudo isso acaba sendo um terreno propício para o uso não só de tabaco, mas de álcool e outras drogas”, complementa.

Gab Van, diretor executivo da Liga Transmasculina João W Nery, corrobora essa observação, destacando que o consumo entre pessoas trans está frequentemente atrelado a picos de violência e episódios de sofrimento psíquico.

Em uma atividade feita pela liga, a gente perguntou para os meninos se eles fumavam e em que período eles começaram e coincidia com um momento de ansiedade, de violência. E quando eles sofriam mais violência era quando eles consumiam mais”, contou.

A “isca” da indústria e o peso do preconceito

A disparidade não é uma coincidência. O lançamento de dispositivos eletrônicos com sabores, aditivos e design moderno atua como uma “isca” especialmente eficaz para os mais jovens. Segundo o Inca, a indústria tabagista tem estratégias direcionadas para este público, incluindo o que é chamado de “responsabilidade social corporativa” — como o patrocínio de eventos — para criar uma imagem positiva e promover produtos indiretamente.

É importante lembrar: o cigarro eletrônico não é “água com cheirinho”. O Inca alerta que o uso de vapes entre homossexuais e bissexuais chega a ser seis vezes maior do que entre heterossexuais. Esse consumo excessivo, muitas vezes turbinado por doses altíssimas de nicotina, coloca o organismo sob um estresse contínuo, aumentando riscos graves de câncer, doenças respiratórias e problemas cardíacos, como alerta Aline Mesquita.

Rumo a um atendimento mais qualificado

Especialistas defendem que a política antitabaco brasileira — referência mundial — precisa dialogar diretamente com as especificidades e vulnerabilidades dessa população. Para Denise Taynah, secretária-executiva do Conselho Estadual dos Direitos da População LGBTI+ do Rio de Janeiro, a solução passa pela criação de protocolos específicos.

Segundo ela, serviços que já atendem essa população, como as unidades que realizam o processo transsexualizador, devem atuar como pontes para o suporte à cessação do tabagismo.

Como os serviços de saúde vão tratar essas pessoas de uma forma efetiva para que elas reduzam o fumo? A gente precisa de um protocolo para as unidades de saúde colaborarem para aquela pessoa ter uma saúde física e mental melhor e mais anos de vida”, disse à Agência Brasil.

O Ministério da Saúde aponta que o Sistema Único de Saúde (SUS) já deu um passo fundamental: desde 2024, os campos “orientação sexual” e “identidade de gênero” tornaram-se de preenchimento obrigatório nos cadastros da atenção primária, respeitando a vontade do paciente em declarar a informação.

A atenção primária é a porta de entrada e pode ser esse lugar de escuta qualificada, fundamental para o controle do tabaco no Brasil”, defende Danylo Guimarães, assessor técnico do Ministério da Saúde.

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O panorama atual do tabagismo no Brasil

Após anos de uma trajetória de queda, o cenário do tabagismo no Brasil apresentou uma mudança de direção recentemente. Dados oficiais mais recentes indicam:

  • Crescimento recente: Após um período de estagnação desde 2019, o número de brasileiros que se declaram fumantes de cigarro convencional voltou a subir em 2024, atingindo 11,6% da população adulta, contra 9,3% em 2023.

  • Dados de uso geral: Quando incluímos fumantes de diversos produtos e dispositivos, a frequência de adultos que utilizam esses itens passou de 11,3% em 2019 para 13,1% em 2024.

  • Impacto nos jovens: Um dos maiores alertas das autoridades de saúde para 2026 é o aumento do uso de Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEF), conhecidos como vapes. Entre jovens de 18 a 24 anos, o uso atual chegou a 10,1%, o maior índice da série histórica para essa faixa etária.

A luta contra o vício esbarra no estigma e na LGBTIfobia

O dado do Inca de que a taxa de tabagismo é 76% maior entre bissexuais e LGBTQIAPN+ refere-se à proporção interna de cada grupo (a porcentagem de pessoas dentro daquele recorte específico que fuma) e não ao número total de indivíduos na população geral. Por representar a grande maioria da população brasileira, a parcela dos heterossexuais ainda detém o maior número absoluto de fumantes no país.

No entanto, é fundamental deixar claro que a maior incidência proporcional na população LGBTQIAPN+ é um indicador de vulnerabilidade social e necessidade de políticas públicas específicas. O fato de o número absoluto ser maior na população heterossexual não diminui a urgência de olhar para o grupo minoritário, que enfrenta barreiras extras — como o estigma e a LGBTIfobia, que os tornam mais suscetíveis ao vício. 

Como mudar esse cenário?

Não basta apenas dizer “pare de fumar”. A luta por uma vida mais saudável é um processo contínuo. Sabemos que abandonar o cigarro é uma jornada difícil, mas você não precisa passar por isso sozinho.  A rede pública de saúde oferece auxílio gratuito para interromper o tabagismo – inclusive o vício em cigarros eletrônicos.

Em 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou que mais de 2,5 milhões de brasileiros buscaram tratamento para parar de fumar, o que demonstra que, apesar da retomada do consumo, existe uma demanda significativa e ativa por auxílio profissional para a cessação.

  • Acolhimento no SUS: A rede pública de saúde está se adaptando para oferecer uma escuta qualificada, onde o paciente se sinta seguro para compartilhar sua identidade e receber suporte médico adequado.
  • Rede de apoio: Ter um espaço de diálogo — sem julgamentos — é o que faz a diferença na hora de decidir largar o cigarro.

  • Saúde mental: Cuidar do que sentimos é o primeiro passo para não precisar recorrer ao vício para lidar com as pressões do dia a dia.

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Com informações do Inca e Agência Brasil

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