Perto de completar dois anos de idade, a pequena Maya corre e brinca como qualquer criança. Mas, para sua família, cada passo é uma conquista celebrada com emoção. Diagnosticada ainda durante a gestação com Pé Torto Congênito (PTC), ela precisou iniciar o tratamento nos primeiros meses de vida. Hoje, graças a um tratamento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS), ela se desenvolve normalmente e se tornou o símbolo de uma campanha vital.

Celebrado nesta quarta-feira (3), o Dia Mundial do Pé Torto Congênito joga luz sobre uma condição que, embora assuste os pais no primeiro momento, tem cura e tratamento integral gratuito pelo SUS.  O caso de Maya – que recebe acompanhamento completo no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), no Rio de Janeiro – mostra como o diagnóstico precoce e o acesso ao atendimento especializado são capazes de transformar realidades.

O que é o Pé Torto Congênito?

Segundo dados do Ministério da Saúde, o PTC afeta cerca de 200 mil recém-nascidos por ano no mundo, ocorrendo em aproximadamente um a cada mil nascidos vivos.  No Brasil, estima-se que surjam cerca de 3.500 a 4.000 novos casos de PTC por ano, segundo dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS).

Os meninos são duas vezes mais afetados que as meninas e, em metade dos casos, a malformação acomete ambos os pés. A condição ocorre no início da gestação e afeta ligamentos, músculos, tendões e ossos, alterando a posição dos membros inferiores do bebê, que se voltam para dentro e para cima. Sem o tratamento adequado, a condição progride, impedindo a criança de caminhar corretamente e comprometendo gravemente sua qualidade de vida e inserção social na vida adulta.

INTO triplica o atendimento em 2026

No Centro de Atendimento Especializado (CAE) da Criança e do Adolescente do INTO, no Rio de Janeiro, o pé torto congênito responde por aproximadamente 30% de todos os atendimentos ortopédicos infantis. Apenas no ano passado, a instituição realizou mais de duas mil consultas na área, sendo 600 delas dedicadas exclusivamente a pacientes com a deformidade.

Para responder à demanda e reduzir o tempo de espera — crucial para o sucesso da reabilitação —, o INTO triplicou a oferta de consultas ambulatoriais para o PTC em 2026, expandindo significativamente o acesso ao tratamento especializado na rede pública.

O início imediato das sessões é o principal fator preditivo de sucesso. “É importante conscientizar os profissionais das maternidades e unidades básicas de saúde para o diagnóstico precoce e o encaminhamento o mais rápido possível”, alerta o ortopedista Daniel Furst, chefe do CAE Infantil do INTO.

Da descoberta na gestação aos primeiros passos

A jornada da família de Maya começou antes mesmo de seu nascimento, durante o ultrassom morfológico de pré-natal. O impacto inicial da notícia foi superado pela busca imediata por informação.

Quando recebemos o diagnóstico, ninguém na família sabia o que era pé torto congênito. Começamos a pesquisar, entender a condição e procurar tratamento para que estivéssemos preparados quando ela nascesse”, relembra a mãe, Patrícia Martins.

Encaminhada ao INTO pelo Sistema de Regulação, a bebê realizou todas as etapas do Método de Ponseti e a cirurgia corretiva nos primeiros meses de vida. O resultado emociona quem acompanhou o processo de perto.

As pessoas olham para os pezinhos dela e nem imaginam tudo o que eles passaram. Ver minha filha caminhando, correndo e fazendo tudo o que qualquer criança faz é emocionante. Para as famílias que acabaram de receber esse diagnóstico, eu diria para confiar no processo”, desabafa Patrícia.

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Muito além da estética: o impacto social do pé torto congênito e a corrida contra o tempo pelo tratamento

Pesquisa inédita revela que a falta de assistência na infância gera desemprego e isolamento na vida adulta; especialistas defendem tratamento imediato e expansão de clínicas especializadas no SUS

A sensação de caminhar descalço na areia da praia ou sentir a água do mar nos calcanhares é um prazer rotineiro para a maioria dos brasileiros. No entanto, para milhares de pessoas que nasceram com Pé Torto Congênito (PTC) e não receberam o atendimento adequado na infância, esses pequenos atos representam barreiras físicas e sociais intransponíveis.

Mais do que uma alteração estética, a deformidade não tratada carrega um pesado custo social e emocional que acompanha o indivíduo até a maturidade. Uma pesquisa pioneira liderada pelo Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE), em São Paulo, acendeu o alerta para o impacto da condição na qualidade de vida.

Quase 90% dos adultos que convivem com a deformidade relatam problemas graves de relacionamento afetivo e interpessoal devido ao preconceito. O levantamento aponta ainda que o bullying, a discriminação e a falta de acessibilidade deixam marcas profundas na trajetória dessas pessoas.

O peso da deformidade no mercado de trabalho

Os dados do HSPE revelam que as limitações impostas pela malformação ultrapassam o âmbito pessoal e afetam diretamente a subsistência econômica dos pacientes:

  • 76% dos entrevistados afirmaram encontrar extremas dificuldades para conseguir emprego.

  • 35% dos participantes precisam faltar ao trabalho ou às aulas ao menos uma vez por semana devido às dores e complicações de locomoção, gerando perda imediata de renda.

Diagnóstico pode ser feito a partir da 12ª semana

Embora as causas exatas do PTC ainda sejam desconhecidas — com fortes indícios de fatores genéticos —, a identificação do problema está cada vez mais precoce. O diagnóstico pode ser feito ainda no primeiro trimestre de gravidez, a partir da 12ª semana de gestação, por meio de exames de ultrassonografia estrutural.

Nesses casos, logo após o diagnóstico, os pais já podem consultar um ortopedista especialista em cirurgia do pé e tornozelo para entender o problema e as opções de tratamento”, orienta a médica Jordana Bergamasco, ortopedista da Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé (ABTPé).

Quando a alteração não é detectada no pré-natal, o diagnóstico é clínico, realizado visualmente logo após o parto. “Os pés nascem virados para dentro com a curvatura bem acentuada, apresentando um formato que lembra um grão de feijão”, detalha a especialista.

Método de Ponseti: o padrão-ouro de tratamento

Atualmente, o protocolo mais utilizado e eficiente em todo o mundo para a correção da deformidade é o Método de Ponseti. Considerada o padrão-ouro da ortopedia pediátrica, a técnica é minimamente invasiva e consiste em:

  • Manipulações seriadas: Os pés do bebê são suavemente massageados e alongados por um especialista.

  • Gessos semanais: Após a manipulação, aplica-se um gesso para manter a nova posição. Esse processo é repetido semanalmente (em média, são necessárias seis trocas).

  • Tenotomia do Aquiles: Um pequeno procedimento cirúrgico com anestesia local para alongar o tendão de Aquiles.

  • Uso de órteses: Após a retirada do último gesso, a criança utiliza uma órtese (barra com sapatinhos) para garantir que o pé não retorne à posição inicial.

Em média, conseguimos corrigir o pé após cerca de seis trocas semanais de gesso e um procedimento cirúrgico. Depois disso, a criança utiliza órteses até os quatro anos e permanece em acompanhamento para garantir o desenvolvimento adequado”, explica o ortopedista pediátrico Régis Rodrigues.

O Método Ponseti e as “mega clínicas” no SUS

O tratamento padrão-ouro em todo o mundo é o Método de Ponseti, técnica que revolucionou a ortopedia pediátrica ao trocar longas e complexas cirurgias invasivas por manipulações gessadas semanais sucessivas (em média cinco a seis trocas), seguidas por uma pequena cirurgia ambulatorial para o alongamento do tendão de Aquiles (tenotomia) e o uso temporário de órteses.

Tatiana Guerschman, especialista no método e ortopedista do Centro de Excelência do Sabará Hospital Infantil, reitera que a eficácia é total quando o processo começa nos primeiros meses de vida. “O sucesso garante a possibilidade de uma infância cheia de brincadeiras, sem limitações para as atividades diárias e para a prática de esportes”, afirma.

Programa Erradicando o Pé Torto no Brasil

Para democratizar o acesso a essa técnica, que chegou ao Brasil há cerca de 25 anos, foi criado o “Programa Erradicando o Pé Torto no Brasil”, coordenado pela médica e pesquisadora Mônica Nogueira, do HSPE.

Entre 2016 e 2018, por meio de “mega clínicas” de treinamento prático e mentoria, o projeto capacitou centenas de médicos e ajudou a estruturar 88 clínicas de referência internacional dentro do SUS. O modelo brasileiro foi tão bem-sucedido que inspirou programas semelhantes em outros seis países da América Latina, incluindo Argentina e Colômbia.

Mônica Nogueira atualmente desenvolve um estudo inédito de custo-efetividade para demonstrar aos gestores públicos o impacto econômico positivo de se investir no tratamento precoce.

Conseguimos transformar vidas em menos tempo, livrando as crianças de uma deformidade que, se não tratada, causa preconceito e limitação. As crianças tratadas não têm restrições funcionais e o pé ganha um aspecto estético muito próximo do normal”, defende a pesquisadora.

Esperança também para os adultos

Embora a intervenção nos primeiros meses de vida seja o cenário ideal, a medicina traz novas perspectivas para quem não teve essa oportunidade no passado. A Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé (ABTPé) destaca que o SUS já oferece protocolos específicos para a correção de pés tortos congênitos em pacientes adultos.

Com algumas adaptações ao método original, podemos oferecer um tratamento que vem dando resultados bastante positivos. Pessoas que passaram a juventude inteira sem assistência adequada hoje estão conseguindo andar normalmente e retomar sua autonomia”, comemora a Dra. Jordana Bergamasco.

Como acessar o tratamento pelo SUS

O tratamento para o pé torto congênito deve ser iniciado preferencialmente nas primeiras semanas de vida do bebê, quando os tecidos e ligamentos são mais flexíveis.

Para receber o atendimento especializado no Into, os pais ou responsáveis devem procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou Clínica da Família mais próxima logo após o nascimento (ou assim que houver a suspeita).

O pediatra ou médico generalista fará a inserção da criança no Sistema de Regulação (Sisreg), direcionando o paciente para o serviço de ortopedia pediátrica de alta complexidade.

Ainda no Rio de Janeiro, o Hospital Estadual da Criança – dedicado ao cuidado de alta complexidade para crianças e adolescentes – conta com o único ambulatório no estado para tratamento do  torto congênito.

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Com informações do Into, ABTPé, HSPE e Hospital Sabará

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