O Sistema Único de Saúde (SUS) passará a contar com um reforço histórico em sua estratégia de oncologia. A partir do segundo semestre deste ano, o Ministério da Saúde implementará um protocolo nacional inédito para o rastreamento e a detecção precoce do câncer colorretal. A medida institui o Teste Imunoquímico Fecal (FIT) como o exame de referência para homens e mulheres assintomáticos na faixa etária de 50 a 75 anos.

A incorporação da tecnologia, chancelada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), surge em resposta a um cenário epidemiológico alarmante. O câncer de intestino já se consolidou como o segundo tipo de tumor mais incidente no Brasil, superado apenas pelos casos de pele não melanoma. Diante do crescimento contínuo de diagnósticos tardios, a nova política pública visa criar uma linha de defesa ágil diretamente na atenção primária à saúde.

Estamos anunciando a primeira política de rastreamento do câncer colorretal no nosso sistema. Baseados na pesquisa e na evidência, começaremos uma estratégia de detecção baseada na atenção primária, com exame fecal e apoio de centros especializados em imagem e colonoscopia, se necessário”, declarou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha,durante agenda internacional em Lyon, na França.

A urgência do rastreamento frente à escalada da mortalidade

Dados recentes de projeções científicas apontam para uma realidade preocupante: as mortes decorrentes do câncer colorretal podem sofrer um aumento de quase três vezes no Brasil até o ano de 2030. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a estimativa oficial é de 53,8 mil novos casos por ano no país a cada ano do triênio 2026-2028. A principal barreira para a sobrevida global dos pacientes reside no fato de que a maior parcela dos diagnósticos ocorre em estágios avançados, quando as chances de cura diminuem drasticamente.

A discussão pública sobre a patologia ganhou forte visibilidade no país por meio da trajetória da cantora Preta Gil. Ao compartilhar abertamente o seu diagnóstico e as etapas de seu tratamento, a artista mobilizou a sociedade civil e jogou luz sobre a necessidade de agilidade na identificação dos primeiros sinais, desmistificando os exames de intestino.

O anúncio do novo protocolo coincide estrategicamente com as ações do Maio Roxo, período dedicado globalmente à conscientização sobre as Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), como a Doença de Crohn e a Retocolite Ulcerativa. Pacientes diagnosticados com DII crônica apresentam riscos elevados para o desenvolvimento de neoplasias colorretais a longo prazo, o que reforça a importância de monitoramento rigoroso e de uma rede pública estruturada.

Leia mais

Diarreia e dor abdominal acendem alerta para doenças intestinais
Doença de Crohn: diagnóstico pode levar mais de 5 anos
Retocolite ulcerativa aumenta em 10 vezes o risco de tumor de intestino
Maio Roxo: o perigo das doenças inflamatórias intestinais

Como funciona o FIT e quais as suas vantagens técnicas

O Teste Imunoquímico Fecal – conhecido como FIT – do inglês Fecal Immunochemical Test –  opera como um mecanismo de triagem altamente eficiente, apresentando sensibilidade entre 85% e 92% para a detecção de anormalidades. Diferente das metodologias tradicionais de pesquisa de sangue oculto nas fezes, o FIT utiliza anticorpos específicos criados para reconhecer exclusivamente a hemoglobina humana, eliminando margens de erro provocadas por interferências alimentares.

Triagem e padrão-ouro: O FIT atuará como um filtro populacional. Os pacientes que apresentarem positividade no teste de fezes serão imediatamente encaminhados para a realização de colonoscopia. Esse exame definitivo permite visualizar o cólon e o reto, além de viabilizar a retirada imediata de pólipos antes que eles evoluam para uma condição maligna.

A escolha do FIT para o ambiente do SUS baseia-se em múltiplos fatores operacionais e clínicos:

  • Conforto e Praticidade: O cidadão retira o kit na unidade de saúde e realiza a coleta em uma única amostra no próprio domicílio, sem necessidade de dietas restritivas ou preparos complexos.
  • Eficiência laboratorial: O exame utiliza fitas rápidas de leitura simplificada. Por dispensar automações de alta complexidade, reduz os custos operacionais e acelera a entrega de laudos.
  • Adesão populacional: Por ser um método não invasivo na primeira fase, registra índices de aceitação substancialmente maiores se comparado à indicação direta de exames endoscópicos.

Expansão da oncologia no SUS e parcerias internacionais

O novo protocolo de rastreamento integra o escopo do programa federal Agora Tem Especialistas, que busca sanar gargalos históricos de exames especializados na rede pública. A iniciativa complementa o recente aporte de R$ 2,2 bilhões anunciado pelo Governo Federal focado na ampliação de tratamentos oncológicos, o qual instituiu o financiamento de cirurgias robóticas e a atualização da tabela de fármacos de alto custo.

Paralelamente ao anúncio em Lyon, a agenda ministerial firmou uma cooperação científica estratégica. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) assinou um memorando de entendimento com a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), órgão vinculado à Organização Mundial da Saúde (OMS). A parceria mútua engloba cooperação em desenvolvimento tecnológico, formação acadêmica e formulação de políticas públicas oncológicas de última geração.

Com a implementação do FIT na rotina da Atenção Primária, o Brasil alinha-se às principais diretrizes de saúde das nações desenvolvidas, descentralizando o diagnóstico e consolidando uma rede de proteção capaz de salvar milhares de vidas anualmente através do diagnóstico oportuno.

Fontes e referências científicas:

  • Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa de Incidência de Câncer no Brasil para o Triênio 2026-2028. Ministério da Saúde.
  • Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Parecer de Recomendação de Protocolo de Rastreamento de Câncer Colorretal (Março/2026).
  • Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC / OMS). Dados Epidemiológicos Globais e Diretrizes de Rastreamento Colorretal.

Com informações do Ministério da Saúde e assessorias

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *