O mercado de “canetas emagrecedoras” no Brasil vive um momento histórico de virada, comparado à chegada da penicilina, após a quebra da patente da Novo Nordisk para a fabricação de produtos à base de semaglutida – Ozempic, Wegovy e Rybelsus – que abriu caminho para a entrada de versões genéricas no Brasil. A concorrência pós-patente tem impulsionado a democratização do acesso a esses tratamentos e prometendo facilitar a vida de quem busca tratamentos para diabetes tipo 2 e obesidade .

Até pouco tempo atrás, o acesso aos injetáveis de GLP-1 era restrito pelo alto custo, frequentemente superando os R$ 1.300 mensais em farmácias, podendo chegar a R$ 4 mil dependendo  da marca e da dosagem. No entanto, a recente abertura do mercado para novas opções farmacêuticas – incluindo versões sintéticas fabricadas no Brasil, como Ozivy, a primeira semaglutida nacional – sinaliza uma mudança importante.

Em maio de 2026, a Anvisa marcou um novo capítulo ao aprovar o primeiro medicamento à base de semaglutida sintética no país.  O recém-lançado Ozivy chegou ao mercado com um preço inicial promocional de R$ 287 mensais para pacientes que aderem ao programa Vida + Leve durante o primeiro trimestre. Após esse período, o valor de tabela por caneta passa a ser, a partir de R$ 498.

Enquanto  isso, medicamentos consagrados como Ozempic e Wegovy, que possuem preços de tabela mais elevados também ajustaram seus preços. Essa estratégia pode reduzir o custo final para o consumidor em farmácias físicas e e-commerce, situando-os frequentemente na faixa de R$ 900 a R$ 1.100, dependendo da dosagem e da rede.

A estratégia dos fabricantes é utilizar programas de fidelidade para tornar o tratamento mais acessível. Por isso, é fundamental que o paciente consulte o médico e verifique os programas de desconto de cada laboratório, pois a economia pode ser decisiva para a continuidade do tratamento, que é, por natureza, de longo prazo., por meio de programas de laboratórios.

O país já se posiciona ao lado de Índia, China e Canadá como um dos primeiros mercados a permitir essa concorrência. Segundo análise do Itaú BBA, a competição deve provocar uma redução de 30% a 50% nos preços de referência da semaglutida nos próximos 12 a 18 meses.

Preço mais baixo reduz dependência de importação

Grandes laboratórios nacionais que representam os principais fabricantes desses medicamentos já anteciparam esse movimento. A EMS lançou os produtos Olire e Lirux, enquanto a Eurofarma trouxe Poviztra e Extensior ao mercado. A capacidade combinada estimada é de 750 mil canetas por mês, o que deve reduzir a dependência de importação e pressionar os preços do Ozempic original.

A redução dos preços dos medicamentos à base de GLP1 tem potencial para ampliar o acesso ao tratamento e expandir o mercado. Um exemplo é o Poviztra, medicamento produzido pela Novo Nordisk e distribuído pela Eurofarma, que que possui indicação para obesidade e sobrepeso associado a comorbidades.

O medicamento passou por uma redução de preço, fazendo com que a dosagem necessária para um mês de tratamento chegasse a R$ 299,50 com seu programa EuroCuida. Segundo a companhia, o objetivo é democratizar o alcance a terapias com produtos que possuem histórico consolidado de segurança.

Paralelamente, para enfrentar a perda da sua hegemonia no mercado de semaglutida após a quebra da patente, a Novo Nordisk mantém suas iniciativas para o Wegovy e Rybelsus, incluindo benefícios como a oferta da dose inicial de 0,25 mg sem custo na compra de outras dosagens e condições especiais em compras de múltiplas unidades.

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69% dos usuários de GLP-1 no Brasil pertencem à classe A

Tratamento acessível alcançará classes B e C, que somam 110 milhões de brasileiros

O mercado de GLP-1 no Brasil é um dos mais dinâmicos do mundo. Com 5,5% da população usando esses medicamentos, o país supera a média global de 3,7%, sendo 40% superior aos Estados Unidos, conforme levantamento da EMS. A estimativa é que o mercado formal de GLP-1 no Brasil alcance R$ 50 bilhões até 2030.

Já os dados da NielsenIQ indicam que 4,6% dos lares brasileiros já fazem uso desses injetáveis, com 26% de consumidores potenciais que ainda não utilizam devido ao alto custo ou por receio dos efeitos colaterais desses medicamentos.  Atualmente, 69% dos usuários pertencem à classe A, um segmento que compõe apenas 4% da população.

A expansão do setor mira as classes B e C, que somam cerca de 110 milhões de brasileiros. O impacto dessa mudança já é sentido pelas redes de farmácias: a Pague Menos, por exemplo, registrou um aumento de 153% na venda de GLP-1 no primeiro trimestre de 2026 em comparação ao ano anterior e uma participação de 9,1% no faturamento total.

Após esse movimento, a segunda maior rede de farmácias do Brasil observou um aumento de 100,8% no número de clientes e 178% nas unidades vendidas, com 84% desses novos clientes nunca tendo usado semaglutida ou tirzepatida antes.

Estamos diante de uma das mudanças mais potentes desde a descoberta da penicilina. Nosso objetivo é garantir que essa inovação chegue a todos que precisam, democratizando o acesso e melhorando a qualidade de vida de milhões de brasileiros”, disse Jonas Marques, CEO da Pague Menos.

Muito além do emagrecimento, a revolução no consumo

O impacto econômico do GLP-1 vai muito além do emagrecimento. As chamadas “canetas emagrecedoras”, que impactam não apenas o cenário da saúde, mas o consumo em geral no Brasil, transformando o comportamento humano em relação a múltiplas indústrias.

A mudança pode ser sentida pelos setores de alimentação, bebidas, moda e até mesmo da aviação, como ficou evidenciado no primeiro fórum no Brasil sobre o impacto econômico do GLP-1, sob o tema “O Próximo Capítulo da Saúde e a (R)evolução do Consumo”.

Para viabilizar o acesso desses medicamentos a mais brasileiros, as redes de farmácias estão investindo em infraestrutura, como cadeias frias robustas para medicamentos termolábeis, e usam dados de fidelidade para “personalizar a jornada do paciente”, impulsionando a venda de suplementos e vitaminas (produtos com maior margem de lucro) que complementam o tratamento.

Durante o evento, a rede de farmácias Pague Menos reforçou que, com a entrada de genéricos nacionais, espera uma forte expansão de volume de vendas,  principalmente levando em consideração a capilaridade da companhia, que está presente em todos os estados do Brasil, com mais de 1.180 consultórios farmacêuticos.

O cuidado com a prescrição da receita

É importante lembrar que as condições comerciais podem variar entre farmácias e estão sujeitas a alterações pelos fabricantes. O tratamento com GLP-1 deve ser acompanhado exclusivamente por prescrição médica, mediante apresentação de receita, como determina a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Também é importante lembrar a importância da comprovação científica no uso de medicamentos já aprovados e o perigo de se consumir medicamentos manipulados ou sem autorização da Anvisa. A Novo Nordisk, por exemplo, diz que seus dados se baseiam em mais de 50 estudos globais e locais, envolvendo mais de 60 mil pacientes.

Aqui no VIDA E AÇÃO ainda destacamos que a obesidade é uma condição complexa que exige uma visão integrada. O conceito de One Health (Saúde Única) nos lembra que a saúde humana está intrinsecamente ligada à saúde ambiental e animal.

No contexto do tratamento da obesidade, a mudança no perfil de consumo e a busca por qualidade de vida refletem essa interdependência, onde o bem-estar do indivíduo deve ser analisado sob uma perspectiva holística e sustentável.

Referências consultadas:

Com Assessorias

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