No artigo anterior, contei que recorri à inteligência artificial para realizar uma tarefa que, até pouco tempo atrás, dependeria de alguém com conhecimentos de Photoshop. No dia seguinte, encontrei um designer utilizando IA para executar praticamente o mesmo trabalho. Ele continuava empregado, mas já havia incorporado a tecnologia à sua rotina. Mais recentemente, meu ex-aluno, agora profissional de design, me disse que usa IA em tudo e continua na vida profissional.
Fiquei pensando em quantas pessoas ainda não perceberam o que está acontecendo. Enquanto discutimos se a inteligência artificial vai roubar nossos empregos, há profissionais fazendo corpo mole, desperdiçando tempo e resistindo a aprender. Talvez não tenham percebido que estão oferecendo às empresas argumentos para automatizar suas atividades.
Não me refiro a quem trabalha demais, recebe pouco ou enfrenta condições inadequadas. Estou falando de quem se acomodou. Daquele profissional que leva uma manhã inteira para realizar uma tarefa simples, reclama de qualquer mudança e considera suficiente repetir o que aprendeu há dez anos.
Durante muito tempo, estar ocupado foi confundido com ser produtivo. Conhecemos pessoas que fazem questão de anunciar o quanto trabalham, quantas reuniões frequentam e quantas mensagens precisam responder. Algumas transformaram a falta de tempo em símbolo de importância. Mas o que efetivamente entregam?
A inteligência artificial está colocando essa pergunta sobre a mesa. Se consigo realizar em vinte minutos uma atividade que antes consumia três horas, preciso decidir o que fazer com o tempo que ganhei. Posso continuar produzindo as mesmas coisas ou aproveitar a oportunidade para ampliar minhas competências e contribuir de maneira mais significativa para a organização.
É por isso que considero urgente aprender sobre gestão do tempo, gestão de pessoas e produtividade. E não estou falando apenas dos profissionais que ocupam cargos de chefia.
Quem não sabe administrar o próprio tempo dificilmente conseguirá aproveitar os benefícios da IA. Poderá produzir relatórios mais rapidamente, responder dezenas de e-mails e preparar apresentações em poucos minutos, mas continuará perdido entre atividades que não levam a lugar algum. A tecnologia acelera a execução, mas decidir o que merece ser executado continua sendo responsabilidade nossa.
A gestão de pessoas também precisa entrar nessa conversa. Tenho observado profissionais extremamente competentes tecnicamente que não conseguem trabalhar em equipe, compartilhar conhecimentos ou estabelecer relações produtivas. Há gestores que passam boa parte do expediente controlando atividades que poderiam ser automatizadas, enquanto negligenciam aquilo que deveria ocupar sua atenção: o desenvolvimento das pessoas.
Se a IA pode ajudar a organizar processos, acompanhar indicadores e distribuir tarefas, por que ainda gastamos tanto tempo com atividades burocráticas e tão pouco com conversas que poderiam melhorar o ambiente de trabalho?
Nas instituições de ensino, essa discussão deveria ganhar mais espaço. Estamos formando profissionais para executar tarefas ou para compreender problemas? De que adianta um estudante dominar ferramentas digitais se não consegue cumprir prazos, organizar prioridades, trabalhar coletivamente ou assumir responsabilidades?
Tenho defendido que a inteligência artificial precisa entrar na formação profissional acompanhada de uma discussão séria sobre produtividade. Não aquela produtividade que transforma cada minuto da vida em oportunidade de trabalho, mas a capacidade de produzir resultados com qualidade, inteligência e responsabilidade.
Também precisamos cobrar mudanças das empresas. Se um funcionário consegue concluir suas atividades em metade do tempo, isso não deveria significar automaticamente dobrar sua carga de trabalho. Parte dos ganhos precisa ser convertida em formação, melhores condições e oportunidades de desenvolvimento. Caso contrário, estaremos apenas utilizando tecnologias sofisticadas para reproduzir velhas práticas de exploração.
Volto ao designer que encontrei na loja. Ao utilizar IA, ele poderia atender mais clientes, experimentar novas soluções e dedicar tempo ao desenvolvimento de sua criatividade. Mas também poderia continuar fazendo exatamente as mesmas coisas, sem ampliar seu repertório ou melhorar seu atendimento. A ferramenta estava disponível. O que fazer com ela dependia dele.
É esse o ponto que me interessa. Não acredito que a inteligência artificial vá substituir indiscriminadamente todos os profissionais que executam tarefas automatizáveis. Mas haverá organizações interessadas em reduzir custos, reorganizar equipes e eliminar funções que considerem dispensáveis.
Nesse cenário, fazer corpo mole pode sair caro. E trabalhar até a exaustão não oferece qualquer garantia de permanência.
É hora de gastar menos energia tentando descobrir quando a IA vai assumir nosso emprego e mais tempo aprendendo a administrar o trabalho, desenvolver pessoas e produzir resultados que façam sentido.
Afinal, se você continua fazendo exatamente o que fazia há dez anos, da mesma maneira e no mesmo ritmo, vale perguntar: o que o mercado ainda está pagando para você fazer que uma inteligência artificial já consegue entregar?




