A revelação do diagnóstico de Lúcio Mauro Filho na última semana jogou luz sobre o aumento de casos do câncer colorretal no Brasil. O ator de 52 anos descobriu a doença ainda no estágio inicial durante uma colonoscopia, fez todo o tratamento e está curado. O que muita gente ainda não sabe é que hábitos alimentares estão diretamente ligados a casos da doença, sobretudo em pacientes mais jovens.

Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) classificou as carnes processadas como carcinogênicas para humanos (Grupo 1) e as carnes vermelhas como provavelmente carcinogênicas para humanos (Grupo 2A) em relação ao câncer colorretal.

A nutricionista Adriana Stavro  explica o impacto das carnes processadas e da falta de fibras e diz que é possível prevenir essa doença pela alimentação. Ela lembra que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o consumo de pelo menos 400 g de frutas e hortaliças por dia.

A alimentação desempenha um papel central na prevenção do câncer, como destacado pelo Fundo Mundial para Pesquisa do Câncer (WCRF) e pelo Instituto Americano para Pesquisa do Câncer (AICR) em recomendações baseadas em evidências”, aponta.

Segundo ela, o alto consumo de alimentos de origem vegetal com baixo valor nutricional, como grãos refinados, bebidas açucaradas e doces e o baixo consumo de frutas, verduras, legumes, cereais integrais e outros alimentos ricos em fibras estão por trás do crescimento dos casos de câncer colorretal em todo o mundo, especialmente no Brasil.

Outros fatores de risco ligados ao câncer colorretal

Embora o câncer colorretal (CCR), que afeta o intestino grosso, incluindo o cólon e o reto, seja altamente tratável em seu estágio inicial, apenas 35,5% dos casos são diagnosticados precocemente. Segundo diretriz divulgada em 2018 sobre os fatores de estilo de vida que aumentam o risco de CCR, incluem inatividade física, tabagismo, alto consumo de carnes processadas, gorduras de má qualidade, baixa ingestão de fibras, consumo excessivo de álcool e obesidade.

Todos esses fatores são capazes de alterar a composição da microbiota intestinal, que constitui uma parte essencial do microambiente tumoral. A saúde da microbiota influencia a função da barreira intestinal e regula a camada de muco do intestino”, diz a nutricionista.

Um fator importante para a ocorrência dos casos é o sedentarismo. A OMS recomenda a prática de pelo menos 150 minutos de atividade física de intensidade moderada por semana, além de exercícios de fortalecimento muscular em dois ou mais dias da semana. Conheça outros fatores de risco:

  • Sobrepeso e obesidade.
  • Tabagismo.
  • Consumo elevado de bebidas alcoólicas.
  • A idade é um dos principais fatores de risco. Embora a doença possa ocorrer em adultos jovens, sua incidência aumenta progressivamente com o envelhecimento, especialmente após os 50 anos.
  • Histórico familiar de câncer colorretal em parentes de primeiro grau.
  • Síndromes hereditárias, como a síndrome de Lynch e a polipose adenomatosa familiar (PAF).
  • Presença de pólipos adenomatosos, que podem evoluir para câncer ao longo dos anos quando não identificados e removidos.
  • Doenças inflamatórias intestinais, como retocolite ulcerativa e doença de Crohn, principalmente quando de longa duração.

 

 

O papel promissor da nutrição para a microbiota intestinal

 

  • Dados de estudos demonstraram a capacidade da microbiota intestinal de interagir com o epitélio do cólon e as células imunológicas através da liberação de uma ampla gama de metabólitos, proteínas e macromoléculas que regulam o desenvolvimento do câncer colorretal (CCR).
  • Evidências pré-clínicas e algumas clínicas também ressaltam o papel da microbiota intestinal na modificação das respostas terapêuticas de pacientes com CCR à quimioterapia e imunoterapia.
  • Um estudo publicado em junho de 2020 mostrou que a modulação personalizada da microbiota intestinal por meio da dieta pode ajudar a prevenir a doença, reduzir a velocidade de progressão e melhorar a eficácia da terapia antitumoral.
  • Outra pesquisa de 2017 mostrou que os probióticos se alimentam de carboidratos não digeríveis, chamados prebióticos. Este processo estimula a multiplicação de bactérias benéficas no intestino, diminuindo o risco da doença. Fontes alimentares de prebióticos: aspargos, biomassa de banana verde, banana, chicória, alho, cebola, alcachofra, grãos e cereais integrais.

Alimentos probióticos, prebióticos e pós-bióticos

Probióticos

  • Os probióticos podem promover a secreção de muco e aumentar a expressão de proteínas de junção estreita para proteger a barreira intestinal.
  • Regulam as células imunológicas e as citocinas para reduzir a inflamação intestinal.
  • Reduzem a atividade das enzimas bacterianas patogênicas para inibir as ações dos patógenos.
  • Atuam na regulação da proliferação celular e apoptose de células tumorais.
  • Restauram o equilíbrio das bactérias intestinais para melhorar a homeostase do hospedeiro.

Fontes alimentares: Iogurte, kefir, chucrute, kimchi, tempeh, miso, kombucha, coalhada, vinagre de maçã, picles ou probiótico na forma de suplemento.

Prebióticos  

Os prebióticos são definidos como substratos que são utilizados seletivamente pelos microrganismos vivos (probióticos), conferindo benefícios à saúde. Os mecanismos dos prebióticos incluem modular a composição da microbiota intestinal, produzindo produtos de fermentação, aumentando a absorção de micronutrientes no cólon e regulando as enzimas metabolizadoras de xenobióticos e a resposta imune. Essas descobertas revelam que os prebióticos podem melhorar a função dos probióticos e a combinação deles pode melhorar a saúde intestinal e com isso prevenir a tumorogênese intestinal.

Alimentos fontes: Alho, cebola, alho-poró, banana verde, alcachofra, aspargos, aveia, cevada, lentilhas, grão-de-bico, feijão, maçãs, sementes de linhaça, raiz de chicória

Pós-bióticos

Os pós-bióticos incluem células microbianas inativadas, frações celulares e metabólitos celulares. Ácidos graxos de cadeia curta são os principais produtos dos metabólitos bacterianos das fibras alimentares conhecidos pós-bióticos.

Os mecanismos de ação dos pós-bióticos são múltiplos:

  • Eles podem induzir a apoptose de células cancerígenas
  • Prevenir a translocação de patógenos
  • Restaurar a barreira intestinal
  • Regular a atividade imunológica para combater a inflamação
  • Inibir enzimas bacterianas patogênicas
  • Exibir efeitos antimutagênicos e antioxidantes
  • Diminuir o pH intestinal e modular vias de sinalização associadas ao procedimento carcinogênico

Em resumo, os prebióticos e pós-bióticos incentivam os probióticos a converter os componentes dos alimentos em metabólitos benéficos e a exercer efeitos anti-inflamatórios, antioxidantes e anticancerígenos. A combinação de probióticos, prebióticos e pós-bióticos em aplicações clínicas é amplamente promissora. Finaliza Adriana Stavro.

Prevenção

  • Priorizar um padrão alimentar rico em alimentos de origem vegetal, como frutas, verduras, legumes, grãos integrais, leguminosas e oleaginosas, está associado à redução do risco de câncer colorretal.
  • Consumir pelo menos 400 g de frutas e hortaliças por dia (cerca de cinco porções), conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS).
  • Manter uma ingestão adequada de cálcio, preferencialmente por meio dos alimentos.
  • Evitar o consumo de carnes processadas, como salsicha, linguiça, bacon, presunto e salame.
  • Limitar o consumo de carnes vermelhas a 350 a 500 g por semana (peso cozido), dando preferência aos cortes magros.
  • Manter um peso corporal saudável.
  • Praticar pelo menos 150 minutos de atividade física moderada por semana, conforme recomendação da OMS.
  • Não fumar.
  • Limitar o consumo de bebidas alcoólicas.
  • Conhecer o histórico familiar e informar o médico, pois isso pode modificar a idade de início do rastreamento.
  • Realizar os exames de rastreamento de acordo com a idade, os fatores de risco e a orientação médica.

Pontos importantes

  • câncer colorretal é um dos poucos tipos de câncer que pode ser prevenido pela identificação e remoção de pólipos durante a colonoscopia.
  • A doença pode não causar sintomas nas fases iniciais.
  • A maioria dos casos está relacionada a fatores ambientais e ao estilo de vida.
  • Dietas ricas em fibras estão associadas à redução do risco.
  • Carnes processadas aumentam o risco de câncer colorretal.
  • O rastreamento salva vidas porque permite identificar lesões pré-cancerosas e diagnosticar a doença antes do aparecimento dos sintomas.

Curiosidades

  • Na maioria dos casos, o câncer colorretal leva cerca de 10 a 15 anos para se desenvolver a partir de um pólipo, o que torna o rastreamento altamente eficaz na prevenção.
  • A colonoscopia é um dos poucos exames capazes de diagnosticar e tratar a doença ao mesmo tempo, pois permite remover pólipos durante o procedimento.
  • Embora seja mais comum após os 50 anos, a incidência vem aumentando entre adultos com menos de 50 anos.
  • Nem todos os pólipos evoluem para câncer. Quando identificadas durante a colonoscopia, as lesões de maior risco podem ser removidas, interrompendo esse processo e reduzindo significativamente a chance de desenvolvimento da doença.

Com Assessoria

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