A revelação do cantor britânico Robbie Williams, de 52 anos, sobre o seu diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) trouxe à tona uma reflexão essencial sobre o neurodesenvolvimento na vida adulta. O artista, que já havia compartilhado abertamente suas vivências com o Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), ansiedade e desafios na interação social, relatou ter feito um teste on-line em 2025 com resultado negativo. A confirmação do quadro só veio posteriormente, por meio de uma consulta médica especializada.
O episódio ajuda a esclarecer a diferença crucial entre testes de rastreamento de autismo da internet e o diagnóstico de TEA em adultos feito por especialistas. De acordo com o neurologista Dr. Matheus Trilico, especialista na área, questionários virtuais servem no máximo como um indicativo inicial, mas jamais substituem a avaliação clínica minuciosa ou devem ser usados para descartar a condição.
Camuflagem social e o desafio da dupla condição (TEA e TDAH)

A história do cantor reflete o mecanismo conhecido como masking ou camuflagem social no autismo. Ao longo dos anos, muitos adultos aprendem a imitar comportamentos e ensaiar interações para se adequar às exigências sociais. Esse esforço constante exige enorme gasto de energia mental, gerando esgotamento e sofrimento invisível a quem vê de fora.
A presença simultânea do TDAH e do autismo no mesmo indivíduo também é um fenômeno frequente. Estudos indicam que a coexistência entre TDAH e autismo atinge cerca de 38,5% das pessoas com TEA ao longo da vida. Outro levantamento realizado pelo Children’s Hospital of Philadelphia (CHOP) mostrou que 27% dos adultos autistas sem deficiência intelectual também têm TDAH — uma prevalência dez vezes superior à da população geral.
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Subidentificação histórica do autismo no Brasil e no mundo
O diagnóstico tardio de Robbie Williams ilustra uma barreira estatística enfrentada por gerações passadas:
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Subdiagnóstico global: Uma pesquisa do King’s College London aponta que entre 89% e 97% dos adultos autistas com 40 anos ou mais no Reino Unido não possuem diagnóstico formal.
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Cenário nacional: No Brasil, análises do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicadas por Santos e colaboradores (2026) na revista Autism mostram uma prevalência de 2,6% de TEA entre meninos de 5 a 9 anos, caindo para apenas 0,3% em adultos com 30 anos ou mais, evidenciando uma imensa lacuna de identificação em pessoas mais velhas.
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Barreiras no atendimento: Um levantamento de Sukiennik e colaboradores (2022) publicado na Frontiers in Neurology detalha a escassez de profissionais capacitados para o diagnóstico em adultos no país, além das acentuadas desigualdades de acesso à saúde regional.
Compreender o próprio funcionamento neurológico na maturidade não se trata de uma sentença, mas de uma chave para o autoconhecimento, viabilizando adaptações na rotina e ganhos expressivos na qualidade de vida.

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