Ativo nas altas rodas da sociedade paulista, o empresário Ivo Vel Kos, de 48 anos, foi preso em flagrante na madrugada de 15 de agosto, em São Paulo, suspeito de agredir e ameaçar a esposa, a cirurgiã-dentista Giullia Vel Kos, de 27. O caso foi registrado na 4ª Delegacia de Defesa da Mulher como lesão corporal, ameaça e violência doméstica.
A prisão foi convertida em preventiva após audiência de custódia. Câmeras de segurança registraram parte da ocorrência, enquanto o depoimento prestado pela vítima descreve agressões iniciadas dentro do carro e prolongadas na residência do casal. Nas redes sociais, imagens da dentista com o rosto desfigurado e cheio de hematomas rapidamente viralizou.
Para Graziela Jurça Fanti, advogada especialista em mulheres, o episódio reúne características da violência matrimonial, expressão usada para descrever abusos praticados dentro do casamento. Juridicamente, essas condutas são analisadas como violência doméstica e familiar.
A agressão física pode ser a parte mais visível de um contexto formado por ameaças, isolamento, controle econômico e restrição da liberdade. A apuração precisa considerar a sequência dos acontecimentos, além do episódio que motivou a prisão”, afirma.
Quem é Ivo Kos: o controle financeiro sobre a vítima
Para entender o contexto familiar, é importante saber quem é Ivo Kos. Com mais de duas décadas de atuação no mercado financeiro, o empresário passou por instituições como J.P. Morgan e UBS. Foi sócio da Link Investimentos durante 11 anos e ocupou a diretoria de operações da Itaim Asset Management entre 2013 e 2018.
Naquele ano, participou da criação da Virgo, empresa dedicada à securitização, à estruturação de operações financeiras e a investimentos em startups. A companhia ganhou projeção no mercado de capitais e aproximou o nome do empresário do ambiente da Faria Lima, a famosa avenida de São Paulo que funciona como endereço de grandes empresas.
A trajetória profissional também passou a ser alvo de questionamentos. Em 2025, quando Kos ainda controlava a Virgo, ele começou a ser investigado pela Comissão de Valores Mobiliários por suspeitas relacionadas ao uso de recursos de investidores.
Segundo a Folha de S.Paulo, a acusação envolve operações consideradas irregulares e suposta atuação em benefício próprio. O processo administrativo permanece em andamento e ainda não possui decisão definitiva. A companhia negou irregularidades e declarou que não houve prejuízo aos investidores.
A apuração conduzida pela CVM não possui relação direta com o inquérito sobre violência doméstica. A posição econômica ocupada pelo empresário, porém, ajuda a dimensionar a desigualdade de recursos narrada pela esposa. Giullia declarou que dependia financeiramente dele enquanto preparava a abertura da própria clínica.
Agressões dentro do carro e na rua
Na noite da ocorrência, o casal retornava de um jantar com clientes de Kos quando começou uma discussão, conforme os depoimentos. Giullia afirmou que foi agredida ainda no carro e impedida de sair. Ao chegar à residência, no Jardim Paulistano, correu descalça pela rua em busca de ajuda. Segundo seu relato, Kos a alcançou na calçada e desferiu um soco em seu rosto.
A dentista contou que foi ameaçada com uma arma de choque para retornar ao imóvel. Dentro da casa, correu para o banheiro e tentou chamar a polícia por um telefone fixo, pois seu celular teria sido retirado pelo marido. A ligação não foi completada. Enquanto Kos telefonava para os pais dela, pedindo que fossem buscá-la, Giullia aproveitou a distração para sair novamente. Vizinhos que estavam na rua acionaram a Polícia Militar.
Giullia também declarou que sofreu socos no rosto e pelo corpo e que teve a mão direita atingida por um taco de beisebol. Disse ainda ter recebido ameaças de morte ao tentar deixar a residência. Após a passagem pela delegacia, passou a madrugada no hospital e relatou fratura na mão, deslocamento no maxilar e lesões em diferentes regiões do rosto. Ela pediu medidas protetivas e foi para a casa dos pais.
Acusado se diz vítima de agressões da mulher
Kos apresentou uma versão diferente. Afirmou à polícia que a esposa havia consumido álcool e se alterado durante uma discussão. Alegou ter sido atacado com socos e chutes e admitiu ter acertado o rosto de Giullia, mas declarou que apenas reagiu. Também negou o uso do taco de beisebol e da arma de choque.
O argumento apresentado pelo empresário deverá ser analisado à luz do artigo 25 do Código Penal, que exige o uso moderado dos meios necessários para repelir uma agressão injusta, atual ou iminente.
Legítima defesa não autoriza qualquer ato de revide. A reação precisa ser necessária para interromper uma agressão injusta e os meios empregados devem ser utilizados com moderação”, explica a advogada.
O caso ainda precisa ser investigado, mas a diferença entre as lesões descritas por Giullia e por Ivo chama atenção e deverá ser confrontada com as imagens, os laudos do IML e os depoimentos. “Esses elementos permitirão avaliar se a reação alegada permaneceu dentro dos limites previstos pela lei”, explica Graziela.
Os dois apresentavam ferimentos e foram encaminhados ao Instituto Médico Legal IML). A defesa de Ivo informou que não comentaria o episódio naquele momento, em respeito às famílias envolvidas. O caso continua sob investigação, e a prisão preventiva possui caráter cautelar, sem representar condenação antecipada.
Primeiro tapa ainda antes do casamento
Os dois estavam casados havia dois anos e sete meses, após um namoro de aproximadamente quatro meses. O relato da dentista descreve uma história anterior à ocorrência que terminou na delegacia. Giullia afirmou que recebeu o primeiro tapa duas semanas antes do casamento.
Chegou a procurar a polícia, mas desistiu de formalizar a queixa por receio de prejudicar o filho do empresário. Mesmo considerando cancelar a cerimônia, decidiu manter o casamento. Em outubro de 2025, segundo ela, uma nova denúncia foi registrada e o casal se separou temporariamente.
Giullia passou a morar sozinha em um apartamento cujo aluguel continuava sendo pago por Kos. A dentista afirmou que essa dependência permitia que o dinheiro fosse utilizado para pressioná-la e interferir em suas decisões. Casada sob o regime de separação total de bens, ela ainda precisava de investimentos para colocar a própria clínica em funcionamento.
A dependência financeira também alcança mulheres qualificadas, inseridas no mercado de trabalho e pertencentes a famílias de alta renda. Quando moradia, alimentação ou atividade profissional dependem da pessoa apontada como agressora, a saída pode significar desamparo material e aumento do risco”, explica Graziela.
Retomar o relacionamento, demorar para denunciar ou não possuir registros anteriores não apaga os fatos narrados. Medo, isolamento, promessas de mudança, preocupação com familiares e falta de alternativas concretas podem adiar o rompimento. O padrão de vida da família tampouco assegura autonomia individual quando uma única pessoa concentra o patrimônio e decide de que maneira o dinheiro será utilizado.
Violência patrimonial é reconhecida pela Lei Maria da Penha
Neste Agosto Lilás, mês de conscientização sobre a violência contra a mulher, é importante entender os diferentes tipos de violência que ela spodem sofrer. A Lei Maria da Penha reconhece as violências física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.
Controle de recursos, retenção de celular e obstáculos ao trabalho ou à saída da residência podem integrar diferentes formas de abuso, conforme as provas reunidas. Medidas protetivas, entre elas o afastamento do lar e a proibição de contato ou aproximação, podem ser concedidas mesmo sem boletim de ocorrência, inquérito ou ação judicial.
O balanço de 2025 do Ligue 180, serviço do Ministério das Mulheres que recebe denúncias e orienta vítimas, ajuda a dimensionar a recorrência. Das 155.111 denúncias registradas no ano, 32.435 envolviam violências que persistiam havia mais de 12 meses. Em 49.424 casos, as violações aconteciam diariamente. Os dados abrangem somente as comunicações feitas à central, mas mostram que muitos episódios integram uma sequência prolongada.
Como denunciar o romper o ciclo de violência
Em uma emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190. O Ligue 180 funciona 24 horas e oferece informações sobre delegacias, centros de referência, casas de acolhimento e outros serviços. Para muitas mulheres, interromper a violência depende da resposta policial e judicial, além de renda, moradia e uma rede de apoio capaz de sustentar a decisão de sair.








