A perda de um bebê durante a gestação, no parto ou logo após o nascimento ainda costuma ser acompanhada pelo silêncio, por frases prontas e pela falta de acolhimento adequado. Para muitas famílias, a dor atravessa os corpos, os planos de futuro e a dinâmica da casa, exigindo preparo e sensibilidade da sociedade e dos profissionais de saúde para ser enfrentada.

Para ampliar essa rede de cuidado, as psicólogas Rafaela Schiavo, Natália Aguilar e Elenice Bertanha organizaram o livro De mãos vazias – compreendendo e acolhendo a perda e o luto perinatal. A obra reúne profissionais da saúde, pesquisadores e especialistas para debater temas fundamentais, como infertilidade, óbito fetal, o luto masculino, a lactação após a perda e o impacto emocional nos irmãos.

O luto perinatal não é só da mãe. Parece que apenas ela fica de luto, mas há também o pai, os irmãos, os avós e toda uma família atravessada por essa perda. Quando falamos de uma das maiores dores emocionais que um ser humano pode sentir, não dá para acolher sem preparo”, afirma Rafaela Schiavo, psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline.

Uma dor que vai além da perda física

A obra mostra que o sofrimento emocional pode surgir em diferentes momentos da experiência reprodutiva. Além da perda gestacional e neonatal, o livro aborda o luto pela infertilidade, a dor de uma amamentação que não se concretizou ou o impacto de um parto diferente do planejado.

Segundo Rafaela, comentários bem-intencionados como “logo você engravida de novo” ou “pelo menos foi no começo” acabam por invalidar o sofrimento. A psicóloga explica que acolher exige abandonar a pressa por respostas e aprender a escutar sem julgamentos.

Como agir diante do luto perinatal:

  • O que evitar: Frases de consolo rápido que minimizem a dor ou tentem dar explicações lógicas para a perda.

  • O que dizer: Expressões simples de presença e escuta, como “sinto muito”, “estou aqui para você” ou “quer me contar sobre o seu bebê?”.

  • Respeito ao tempo: Aceitar que cada pessoa vivencia a dor à sua maneira, seja guardando lembranças e realizando rituais, seja precisando de silêncio e espaço.

Avanço no atendimento e saúde pública

O debate sobre a humanização desse cuidado ganhou respaldo legal no Brasil por meio da Lei nº 15.139, que estabeleceu diretrizes para o atendimento humanizado a famílias que enfrentam o luto materno e parental em maternidades. A legislação prevê suporte psicológico, ambientes adequados e o direito ao registro do nome do bebê natimorto.

As autoras destacam que a comunicação de más notícias exige preparo técnico e sensibilidade humanizada por parte das equipes médicas, garantindo privacidade e respeito à memória da família desde os primeiros momentos da notícia.

O impacto em toda a família e quando buscar ajuda

O sofrimento resultante de uma perda perinatal atinge diferentes membros do núcleo familiar. O luto dos pais homens frequentemente se torna invisível devido à cobrança social por uma postura de fortaleza, enquanto crianças pequenas da casa sentem as mudanças no ambiente, mesmo que não consigam expressá-las em palavras.

Embora o luto não tenha um prazo fixo, a intervenção profissional passa a ser necessária diante de sinais de paralisação e sofrimento crônico.

Sinais de alerta para a busca de apoio especializado:

  • Isolamento social prolongado e sentimento persistente de culpa;

  • Dificuldade severa para realizar atividades cotidianas e cuidados básicos;

  • Crises frequentes de ansiedade, sintomas depressivos ou perda do sentido de viver.

Ficha técnica

De mãos vazias – compreendendo e acolhendo a perda e o luto perinatal
Organizadoras: Rafaela Schiavo, Natália Aguilar e Elenice Bertanha.
Editora: MaterOnline, 2ª edição
Número de páginas: 382
Preço: R$ 280,00
Onde encontrar: Instituto MaterOnline

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