Qual o meu lugar nesse universo de disputa de narrativas eleitorais? Preciso saber de onde vim, para onde quero ir, para me posicionar? Enquanto por aqui uma amiga é atropelada por um motorista de patinete que ia fazer uma entrega de comida, dessas que se compra por aplicativo, ao vir na contramão (custou cirurgia, fisioterapia etc.), há quem defenda a liberdade de cortar árvores, diminuir a maioridade penal e incitar o ódio só porque o outro pensa e é diferente. Garantias de mínima civilidade estão na berlinda.

O que quero chamar a atenção neste texto é o que cada um de nós representa neste momento em que nosso Estado, nossa cidade, nosso lugar de vida — que já foi modelo de participação e de cidadania — está metido. Ouso fazer essa provocação porque vivo e sinto na pele, no bolso e em outras partes do corpo o significado de ter nascido e permanecer vivendo no Rio Grande do Sul. Um Estado que já foi melhor de se morar e que hoje está no epicentro dos eventos climáticos extremos.

Esse contexto em transformação, quanto mais estudamos e conseguimos juntar as peças, mais percebemos que há muita manipulação e interesses arranjados de forma a beneficiar poucos em detrimento da maioria.

Os tentáculos do Capitaloceno e o consumo acelerado

Ora, isso sempre foi assim, alguém já me disse ou você pode argumentar. Sim, só que agora os tentáculos do Capitaloceno agem no atacado: gerações inteiras estão sendo comandadas ora por telas, ora por desejos banais. Há grupos interessados em fazer com que deixemos de refletir, problematizar e analisar nosso próprio destino.

A internet hoje é o meio que tira o foco do que é importante para o bem-estar da sociedade e para o bem comum. O que impera são formas diferentes de se gastar dinheiro: seja para comer, viajar, ficar bonita ou comprar um utensílio fútil. Há estímulos de todo tipo para que compremos mais alguma bugiganga e desfrutemos do hedonismo da vez, um movimento que acelera nosso rumo ao precipício e deixa rastros na saúde e no ambiente.

E, fora das telas, ao sair pela rua, dói nos olhos e no coração ver aquela profusão de wind banners disputando a atenção com o colorido das árvores (algo que numa cidade grande é muito pior que no interior) e ver a cara de candidatos preocupados apenas com sua própria perpetuação no poder.

Mudanças climáticas fora da pauta dos candidatos

Aliás, você já perguntou aos seus candidatos o que eles pretendem fazer em relação à adaptação e àmitigação às mudanças climáticas? É patético, mas os candidatos que mais aparecem não comentam sobre o assunto. Nem parece que temos enfrentado recorrentes ciclones, tornados e inundações. Esse cenário de disputa a unha por atenção e voto está sendo péssimo para quem se preocupa com os direitos e a qualidade de vida.

É inacreditável, mas hoje precisamos voltar a explicar a necessidade de termos árvores sadias nas ruas ou ensinar a separar os resíduos. Pior: prefeituras que pagam fortunas para aterrar lixo porque não segregam o que recolhem. Quem se importa com isso diante dos impactos dos resíduos na saúde humana e ambiental?

As instituições que deveriam batalhar pela coletividade e pelo bem comum hoje se mostram mais ocupadas com benefícios próprios. E nem dá para criticar além da conta, afinal, para vivermos numa democracia, precisamos dessas instituições fortes para poder confiar nelas. Já imaginaram vivermos no olho por olho, dente por dente? Só que esse mosaico de interesses diversos está minando o fluxo que nutre a confiança, a essência da vida em sociedade.

Leia mais na coluna Antropoceno

Viver na barriga do monstro: como resistir na era do ‘capitaloceno’
O que podemos e devemos aprender com a ancestralidade indígena
‘Desastroceno’ e a urgência da comunicação de risco e cultura do cuidado

 

Qual é o nosso papel no tabuleiro político?

Então, qual é o seu e o meu lugar nesse tabuleiro? Você é daquelas pessoas que nunca se pronunciam ou nem vão à reunião de condomínio e reclamam da conta de água? Ou daqueles que batem o tapete sujo na janela, sem se importar com quem está embaixo? Ou é a vizinha que se queixa das folhas da árvore do pátio ao lado?

Se temos um monte de candidatos de olho em seus próprios negócios e partidos que não se preocupam em promover novas lideranças ou escutar as bases, qual é o nosso papel nessa rede?

Agora é a hora de explicar para quem está indeciso o significado de votar em quem prefere a arma ou o livro. É o momento de sustentar que há nuances e que o contexto não é puramente polarizado — quem afirma isso pode estar interessado em manter a população estagnada.

A poluição visual e o custo ambiental dos wind banners

O Rio Grande do Sul é um dos estados com maior número de indecisos: pesquisas apontam cerca de 29% que não sabem em quem escolher. Será que essas pessoas estão buscando entender a proposta de cada candidatura ou se guiando pela propaganda eleitoral das ruas?

Com o bombardeio de estímulos nas ruas, telas e rádios, o resultado é mais confusão do que clareza. E, sinceramente, esses wind banners servem mais para poluição visual e poluição ambiental do que para informar. Atrapalham o trânsito, a visibilidade de motoristas e pedestres e, feitos de tecido sintético derivado do petróleo, nem sequer podem ser reciclados. Vão direto para os aterros sanitários.

Isso significa que, além de financiar a campanha via recursos públicos, a sociedade paga pelo descarte, pelo transporte até o aterro e pela disposição final desses trapos. Em Porto Alegre, assim como em várias outras cidades, o gasto com gestão de resíduos só perde para Saúde e Educação. Algum candidato está propondo soluções reais para isso ou trazendo a resiliência e estratégias de adaptação para a pauta?

Exercer a cidadania e a responsabilidade coletiva

A democracia exige cabeças pensantes que busquem o aperfeiçoamento e a eficiência das políticas públicas. Equilibrar o certo, o possível e o correto não é simples, mas deve haver formas de promover escolhas sem poluir ou azucrinar a atenção do cidadão.

Estamos em um momento no qual não podemos nos eximir da nossa responsabilidade. Que esta reflexão ajude a tornar o pleito eleitoral um processo com menor impacto ambiental e estimule mais diálogos sobre a decisão consciente na hora de votar.

Leia o artigo originalmente publicado no site Sler aqui
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