A demanda por transplantes de órgãos permanece elevada no país. Dados do Ministério da Saúde divulgados este mês apontam que mais de 49 mil pessoas aguardam por um transplante no Brasil, sendo cerca de 45 mil por um rim. Somente na fila por uma córnea estão 37.719 pessoas, segundo levantamento do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), número 15% maior que o registrado em dezembro de 2025.

De acordo com dados do Registro Brasileiro de Transplantes, daAssociação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), em 2025, foram registrados 15.940 potenciais doadores no país. Desse total, 4.335 tornaram-se doadores efetivos, o maior número da última década, e 27.725 procedimentos. No mesmo ano, o Brasil alcançou 20,3 doadores efetivos por milhão de habitantes, contra 19,2 em 2024.

Os transplantes de córnea e renais lideraram o volume de procedimentos, seguidos pelos transplantes de fígado, coração, pâncreas e pulmão. Apesar do avanço no número de transplantes, O desafio para reduzir a fila de espera permanece latente. A lista de espera ainda reúne cerca de 74 mil pessoas no Brasil, que aguardam por um órgão para seguir com o tratamento.  A grande maioria concentra-se na espera por um transplante de rim e córnea, seguidos por pacientes que aguardam por fígado, coração, pulmão e pâncreas.

45% das famílias recusam autorização para doação

No Brasil, a retirada de órgãos após a morte encefálica de um paciente depende da concordância da família, mesmo quando a pessoa manifestou em vida o desejo de ser doadora. Entre as famílias entrevistadas, 4.200 não autorizaram a doação, o equivalente a 45% das entrevistas realizadas.

No Brasil, não é necessário realizar cadastro, registrar a decisão em cartório ou portar qualquer documento específico para ser doador de órgãos. O mais importante é conversar em vida com familiares, como pais, irmãos e cônjuge, e deixar claro o desejo de doar, já que a autorização da família é obrigatória para que a doação seja efetivada”, destaca Tainá de Sandes, presidenta da ABTO.

Atualmente, a taxa média de recusa familiar gira em torno de 45%, segundo levantamento da ABTO,  tornando este um dos principais desafios para ampliar a oferta de órgãos e reduzir as filas por transplantes Entre os motivos apontados estão o desconhecimento sobre a vontade do potencial doador, além de dúvidas e receios relacionados ao procedimento.

No dia 27 de setembro, é celebrado o Dia Nacional de Doação de Órgãos, data criada para estimular a discussão sobre o tema e incentivar as pessoas a comunicarem aos familiares sua vontade de serem doadoras. Um dos principais desafios para aumentar as doações de órgãos tem sido a autorização familiar.

É neste contexto que a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (Aedo) permite que o cidadão deixe formalmente registrada sua decisão.  Mais de 32 mil brasileiros já utilizaram cartórios de notas para manifestar formalmente a intenção de doar órgãos, desde o lançamento do procedimento, em 2024.

Dados dos Cartórios de Notas mostram que 32.587 solicitações de Aedo já foram realizadas no país. Foram 18.659 em 2024, 8.886 em 2025 e outras 5.042 em 2026, segundo os dados mais recentes da plataforma. Essa queda por ser atribuída a menos campanhas de divulgação da iniciativa.

São Paulo concentra o maior número de manifestações desde a criação do serviço, com 9.399 solicitações, seguido por Paraná (3.818), Rio de Janeiro (2.930), Minas Gerais (2.172) e Rio Grande do Sul (2.012). A Aedo registra solicitações em todas as unidades da Federação.

Procedimento é gratuito e pode ser realizado pela internet

Segundo o Colégio Notarial do Brasil – Conselho Federal (CNB/CF), o procedimento é gratuito e realizado integralmente pela internet. O interessado acessa a plataforma da Aedo, disponível no e-Notariado, preenche seus dados e escolhe um cartório de notas para realizar o procedimento.

Na sequência, participa de uma videoconferência com o tabelião para confirmar sua identidade e sua desejo de doar órgãos. O documento é assinado eletronicamente e passa a integrar a Central Nacional de Doadores de Órgãos, que pode ser consultada pelos profissionais autorizados do Sistema Nacional de Transplantes.

A pessoa pode indicar quais órgãos, tecidos ou partes do corpo deseja doar e revogar a autorização a qualquer momento. Todo o procedimento pode ser realizado sem necessidade de comparecimento presencial ao cartório.

A decisão final continua sendo da família. Por isso, tão importante quanto registrar a vontade de ser doador é conversar sobre ela. A Aedo permite que essa manifestação fique formalizada e ajuda a levar esse assunto para dentro das famílias, para que elas conheçam previamente a decisão de quem deseja doar”, afirma Eduardo Calais, presidente do CNB/CF.

Campanha Setembro Verde alerta para recusa familiar de doações de órgãos

45% das famílias ainda recusam a doação de órgãos; campanha da ABTO reforça a importância do diálogo sobre o tema

O assunto ganha importância durante o Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos. A campanha promove, ao longo de todo o mês, a conscientização sobre a importância da doação de órgãos e tecidos e busca mobilizar a sociedade para a necessidade de ampliar o número de doadores no Brasil.

Um único doador pode transformar a vida de até oito pessoas que aguardam por um transplante, além de beneficiar outras por meio da doação de tecidos. O Brasil tem o maior programa público de transplantes do mundo, e o Sistema Nacional de Transplantes é uma das políticas públicas mais bem-sucedidas do país, mas precisamos avançar na conscientização das famílias, porque informação e diálogo podem fazer a diferença em um momento de dor e permitir que uma decisão se transforme em oportunidade de vida para outras pessoas”, destaca Tainá de Sandes, presidenta da ABTO.

Realizada anualmente em setembro, a Campanha Nacional de Doação de Órgãos conta com o apoio da ABTO e está relacionada à Lei nº 15.463, de 18 de junho de 2014, que instituiu setembro como o mês de conscientização sobre a doação de órgãos.

Em 27 de setembro, é celebrado o Dia Nacional da Doação de Órgãos, data que reforça a importância desse gesto capaz de transformar e salvar vidas. Entre as ações realizadas pela ABTO está uma caminhada, que reunirá profissionais de saúde, pessoas transplantadas, familiares, doadores, parceiros e toda a comunidade no dia 13 de setembro, na Avenida Paulista.

Com informações da Agência Brasil

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