As apostas virtuais deixaram de ser apenas uma opção de entretenimento e passaram a se consolidar como um problema crítico de saúde pública, economia e bem-estar social no Brasil. Segundo o estudo inédito Mulheres e Bets: o Custo das Apostas Online para as Brasileiras e suas Famílias, divulgado nesta segunda-feira (17), quatro em cada dez mulheres brasileiras (42%) já jogaram ou continuam apostando em plataformas de apostas online. Conduzida pelo estúdio Clarice, Estratégia Latina e Instituto Ideia, a pesquisa revela que mais da metade das mulheres no Brasil (54%) sente o efeito direto das apostas — seja jogando ou sofrendo o impacto do endividamento e comportamento de familiares.

Mães e gestoras do lar enfrentam maior cobrança e julgamento social

O levantamento aponta uma importante discrepância sobre o perfil das apostadoras: 72% das mulheres que apostam têm filhos, sendo que mulheres com filhos apostam cerca de 1,6 vez mais do que as que não têm. Além disso, no recorte racial, o hábito atinge 45% das mulheres autodeclaradas pardas, 39% das brancas e 37% das pretas.

A pesquisa acende um alerta para as questões sociais e psicológicas de gênero. Enquanto o homem apostador é socialmente visto como alguém que busca prover a casa — o que costuma amenizar o julgamento —, a mulher apostadora sofre um estigma severo. Por ser historicamente associada ao papel do cuidado e à gestão do lar, a mulher carrega maior sentimento de culpa. Como consequência, a maioria opta pelo segredo: 30% das apostadoras costumam jogar à noite ou de madrugada para esconder a prática da família.

Busca por renda para pagar boletos e falsas promessas de ganho fácil

Diferente do público masculino, para a mulher brasileira a aposta nasce menos como lazer e mais como uma tentativa de administração financeira e sobrevivência doméstica. O objetivo principal costuma ser o custeio de despesas fundamentais, como comprar alimentos, pagar contas de luz ou adquirir material escolar para os filhos.

As plataformas de jogos virtuais exploram justamente o desejo do cuidado familiar. Além disso, as empresas estimulam a falsa impressão de que é possível ter “habilidade” ou “expertise” para vencer cassinos online — crença compartilhada por 25% das mulheres e 40% das apostadoras frequentes. A modalidade preferida do público feminino são os cassinos virtuais (49%), seguidos por jogos de sorte instantânea (29%) e apostas esportivas (26%).

Adoecimento mental, conflitos e episódios de violência doméstica

O impacto do vício ultrapassa a crise financeira e afeta diretamente a saúde mental e a segurança dos lares. Para 67% das entrevistadas, as apostas estão destruindo as famílias no país. A busca por dinheiro rápido leva muitas pessoas a recorrerem a empréstimos com agiotas — situação citada por 7% das apostadoras e 8% das mulheres impactadas.

O ambiente doméstico torna-se vulnerável a episódios de agressão e instabilidade emocional: 23% dos entrevistados presenciaram ou conhecem casos em que as apostas contribuíram para a violência doméstica. Entre os principais efeitos declarados pelas mulheres afetadas estão:

  • Conflitos familiares (24%)

  • Perda de confiança (24%)

  • Desgaste emocional e sofrimento psíquico (21%)

  • Queda na qualidade de vida (12%)

Apelo por proibição e diretrizes de saúde pública

A insatisfação com os impactos sociais do setor reflete no desejo da população por mudanças rigorosas. A maioria das brasileiras (62%) defende a proibição total das apostas online no país, em comparação com 50% dos homens. Além disso, 72% das entrevistadas avaliam que a publicidade ostensiva contribui para que as pessoas apostem mais do que deviam.

Os especialistas responsáveis pela pesquisa defendem que a contenção da crise exige ações estratégicas divididas em três eixos principais:

  1. Fortalecimento dos mecanismos de saúde pública para prestar atendimento psicológico e médico aos apostadores e seus familiares.

  2. Restrição severa da publicidade de apostas, eliminando conteúdos de “dicas”, “coaches” e promessas de lucros fáceis.

  3. Limitação gradual de modalidades de alto risco, iniciando pelo bloqueio de cassinos virtuais.

Para acompanhar mais análises e dados sobre saúde pública e bem-estar, acesse o canal do Portal Vida e Ação no WhatsApp.

Com informações originais da Agência Brasil.

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