Viajei sozinha durante 50 dias levando uma mala preparada para os 50 dias. Quando fechei o zíper, parecia uma decisão lógica. Eu precisava estar pronta para qualquer situação. Afinal, quem viaja por tanto tempo imagina que precisa levar quase tudo: desde roupas de banho até casacos pesados para dias muito frios.

Já no início da viagem, entendi que havia cometido um equívoco que exigiria força extra do meu corpo. O peso necessário para o quinquagésimo dia foi carregado desde o primeiro. Pior: havia coisas naquela mala que eu literalmente levei para passear, porque nem cheguei a usar. Levei “por garantia”. Para evitar a sensação de que poderia faltar alguma coisa.

Talvez isso tenha uma explicação. Na minha infância, os presentes chegavam apenas duas vezes por ano: no aniversário e no Natal. Cresci aprendendo a esperar. Já adulta, felizmente, passei a viver outra realidade. Se preciso de alguma coisa, posso comprá-la quando for necessário. Mas percebi que meu comportamento ainda carregava traços daquela antiga sensação de escassez.

Prometi a mim mesma que, na próxima viagem, farei diferente. Levarei uma mala para uma semana. O restante, se realmente for necessário, comprarei ao longo do caminho. Assim, carregarei apenas no final da viagem o peso que, desta vez, levei desde o primeiro dia.

Ao mesmo tempo, lidar com esse problema foi me tornando mais estratégica. Passei a calcular tudo: a distância até o próximo destino, se valia a pena caminhar, pegar um trem ou chamar um táxi. E uma pergunta passou a me acompanhar quase diariamente: “Quanto vale a minha paz hoje?”

Percebi que nem sempre a opção mais barata era a mais inteligente. Às vezes, preservar minhas pernas, minha energia ou simplesmente reduzir o estresse era o melhor investimento que eu poderia fazer.

Esvaziando minha mala emocional

Curiosamente, enquanto aprendia a administrar melhor a bagagem física,fui esvaziando outra mala: a emocional.

Ao longo da viagem, abandonei culpas infundadas, cobranças, expectativas e preocupações que já não faziam sentido. Se a bagagem de volta foi ficando mais pesada, ao passo que ia fazendo compras e adquirindo mais lembrancinhas por onde passava, a bagagem emocional foi ficando mais fácil de carregar. 

Vieram livros que encontrei pelo caminho, pequenos itens escolhidos para mim, presentes comprados pensando nas pessoas que amo e memórias que nenhum excesso de bagagem será capaz de medir. Saí de casa com uma mala pesada. Voltei com três.

A mala física ganhou peso. A emocional perdeu.

Hoje percebo que existem pesos que valem a pena. O peso de um livro que desperta novas ideias, o de um item decorativo que nos faz reviver um momento especial, o de um presente escolhido com carinho para alguém que amamos.

Fazendo uma comparação com a vida da gente, o problema nunca foi carregar peso. Foi carregar peso antes da hora ou carregar aquilo que nunca foi nosso.

Talvez essa seja uma boa pergunta para todos nós: quanto pesa a mala que você está carregando? E, mais importante ainda: quanto desse peso é realmente necessário para a viagem que você está vivendo hoje?

Muita gente vai se acostumando, com a rotina comum, a colocar pesos em nossa mala que não necessariamente cabe a nós carregar. De repente, a gente está sentindo o peso de carregar toda a responsabilidade no ambiente de trabalho, de cuidar da família inteira – ainda que todos sejam adultos e responsáveis –, do relacionamento amoroso (ainda que ambos tenham de cuidar bem do outro), das amizades, dos compromissos sociais que a gente assume…

Enfim, a gente tem de esvaziar o peso da nossa mala emocional se quiser viver mais e melhor. Pense nisso você também!

 

 

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