O mundo contabiliza cerca de 117,8 milhões de pessoas em deslocamento forçado, das quais cerca de 43,7 milhões são consideradas refugiadas, segundo a Agência da ONU para Refugiados no Brasil (ACNUR), o maior número já registrado. No Brasil, o movimento segue a tendência internacional, com o país batendo recorde de solicitações de refúgio.

De 2015 a 2024 foram 454.165 solicitações de reconhecimento da condição de refugiado no país, o que corresponde a 95,0% do total registrado no Brasil até o final do ano, segundo dados do Refúgio em Números 2025, feito pela OBMigra – Observatório das Migrações Internacionais.

Conseguir asilo humanitário é somente o primeiro desafio para os refugiados, que enfrentam dificuldades para entrar no mercado de trabalho brasileiro. O idioma, a discriminação e a falta de acesso a oportunidades são algumas das barreiras iniciais para o imigrante à procura de emprego no Brasil. A ausência de documentos e as dificuldades de validação de diploma também impedem a entrada no mercado de trabalho.

O Dia Mundial do Refugiado (20 de junho) marca o debate internacional sobre proteção, acolhimento e inserção socioeconômica de pessoas em situação de refúgio.  Nos últimos anos, empresas brasileiras têm se reunido com o ACNUR para um engajamento maior nas contratações desses grupos vulneráveis de diversas nacionalidades que chegam ao país.

O apoio para essas organizações vem do Fórum Empresas com Refugiados que já promoveu 17 mil pessoas refugiadas contratadas pelos integrantes, em 2025 – um crescimento expressivo de 41% em relação a 2024. O Fórum conta com 144 membros, entre eles nomes de peso na representatividade de negócios no país e na expertise em contratação de refugiados.

Entre as companhias participantes desta iniciativa da ACNUR no Brasil estão grandes grupos hospitalares, como A.C. Camargo, Albert Einstein e Kora Saúde, entre outros. Accor, BRF, Tenda, Iguatemi, Lojas Renner, Vagas.com, Sodexo, Belgo Arames e diversas outras marcas também integram o fórum.

Inclusão Sem Fronteiras: Kora Saúde já contratou 56 refugiados

O cenário desafiador para os refugiados no Brasil também motivou a Kora Saúde, uma das principais redes hospitalares do país, a lançar o projeto “Inclusão sem Fronteiras”, com o propósito de oferecer oportunidades de emprego para refugiados, reconhecendo e valorizando suas habilidades e experiências únicas.

O projeto já está presente em todas as unidades da rede, sendo responsável por 56 contratações de refugiados e solicitantes de refúgio desde novembro de 2023.  A maior parte dos contratados é formada por venezuelanos, acompanhados de profissionais da Colômbia, Guiné-Bissau, Haiti, Cuba, Angola e Congo.

Ao todo, 29 mulheres e 27 homens compõem a força de trabalho da Kora, falando idiomas como espanhol, francês e crioulo-francês, e atuando em áreas administrativas, recursos humanos, financeiro, tecnologia da informação, atendimento e funções técnicas para as quais concluíram formação no Brasil.

Refletindo uma realidade – nove entre 10 refugiados no Brasil vêm da Venezuela – , a maioria dos refugiados contratados pela rede Kora Saúde também é originária daquele país, trazendo consigo uma riqueza de experiências e habilidades para a equipe. Eles desempenham papéis essenciais nas áreas administrativas e de apoio, como atendimento ao cliente e recursos humanos.

Uma dessas histórias inspiradoras é a de Alejandra Rojas Rosas, de 33 anos, que deixou Caracas há quatro anos devido a problemas econômicos e encontrou na Kora Saúde uma nova oportunidade. Alejandra, que agora atua como assistente de RH em uma filial da Kora Saúde no Espírito Santo, descreve o projeto como uma “bênção muito grande”, destacando o acolhimento e apoio que recebeu da empresa.

O projeto para refugiados da Kora para mim foi uma bênção muito grande. O acolhimento foi muito ótimo”, comentou Alejandra, que continua buscando oportunidades para se desenvolver profissionalmente, frequentando cursos técnicos e se especializando na área.

Magda Costa, coordenadora de Recrutamento e Seleção Corporativo da Kora Saúde e idealizadora do projeto, afirma que a iniciativa surgiu tanto por sensibilidade humanitária quanto pela oportunidade de fortalecer a cultura interna.

A diversidade é o primeiro grande benefício para a empresa. Equipes com culturas diferentes, bilíngues e com histórias marcadas por resiliência trazem riqueza para o ambiente de trabalho e ampliam nossa capacidade de enxergar o cuidado de maneira mais humana e completa.”

Kora Saúde amplia contratação de refugiados 

Considerada a maior rede hospitalar privada do Espírito Santo, Ceará e Tocantins e presente ainda no Mato Grosso, Distrito Federal e Goiás, a Kora Saúde aderiu em 2023 ao Fórum Empresas com Refugiados da ACNUR;

Em um momento histórico de deslocamentos globais recordes, a empresa se posiciona como exemplo nacional de inclusão através do trabalho, uma ferramenta poderosa para reconstruir vidas e fortalecer equipes em todo o Brasil”, diz Magda.

Segundo ela, cada unidade define suas metas de acordo com o contexto em que está inserida. A questão da diversidade é o primeiro benefício para a empresa, que passa a ter equipes com culturas diferentes e bilíngues.”

Processo permanente de seleção de refugiados

Ao contrário de programas tradicionais, o “Inclusão Sem Fronteiras” não possui período fixo de inscrições. A Kora mantém captação contínua de currículos e orienta que candidatos refugiados enviem seus dados diretamente para o e-mail recrutamento@redemeridional.com.br, por onde cada hub regional direciona os perfis para as vagas disponíveis. Como a plataforma de vagas não identifica automaticamente o status migratório do candidato, essa estratégia garante que refugiados possam ser priorizados e acolhidos desde o primeiro contato.

Para ampliar o acesso, a empresa também flexibiliza a comprovação de escolaridade para cargos operacionais, e diplomas estrangeiros só precisam ser validados em funções regulamentadas por conselhos profissionais. Essa abordagem prática e inclusiva coloca a Kora à frente da maioria das empresas brasileiras, já que apenas cerca de 15% possuem políticas específicas voltadas para refugiados.

O projeto também atua para além da contratação. A Kora realiza oficinas de empregabilidade, rodas de conversa semestrais com todos os colaboradores refugiados, mantém um grupo oficial de WhatsApp para suporte contínuo e indica cursos gratuitos de português para reduzir a principal barreira de integração: o idioma. Entre jovens aprendizes refugiados matriculados no ensino regular, a adaptação tem sido ainda mais rápida, o que amplia perspectivas de carreira dentro da própria rede hospitalar.

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A.C.Camargo Cancer Center quer empregar 70 refugiados até 2027

Programa oferece capacitação, empregabilidade e crescimento profissional

O A.C.Camargo Cancer Center, por exemplo, alcançou a marca de 25 profissionais refugiados compondo o quadro de colaboradores em 2024, mais que o dobro do ano anterior. Outros 35 já passaram pelo programa desde sua criação.  Segundo Anaísa Lübeck Carlini, Superintendente de Pessoas e Desenvolvimento Organizacional., a meta é chegar a 70 profissionais empregados, capacitados e em formação até 2027.

Em outubro de 2025, o hospital recebeu o prêmio Ações que Inspiram, promovido pelo Fórum Empresas com Refugiados, na categoria “Sem deixar ninguém para trás”. A premiação é um reconhecimento dos esforços envolvidos no programa de apoio para refugiados e migrantes, que oferece oportunidades reais, com capacitação técnica contínua, cursos de Língua Portuguesa, apoio psicossocial e plano para crescimento profissional, estimulando a inserção no mercado de trabalho formal.

Nosso compromisso com pessoas refugiadas vai além de uma posição de trabalho: queremos proporcionar um ambiente de acolhimento, crescimento e propósito para aqueles que tiveram que deixar tudo para trás”, conta Anaísa.

Agenda Positiva

São Paulo oferece mutirão de empregos com 400 vagas para refugiados

A Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) do Estado de São Paulo, por meio do Posto de Atendimento ao Trabalhador (PAT), participa do Mutirão de Emprego no CIC do Imigrante, promovido em comemoração ao Dia Mundial do Refugiado na última sexta (19), disponibilizando 404 vagas de emprego para refugiados, imigrantes e demais interessados em ingressar ou retornar ao mercado de trabalho.

O mutirão tem como objetivo facilitar o acesso às oportunidades de emprego, promover a inclusão social e incentivar a autonomia financeira de refugiados, imigrantes e demais trabalhadores em busca de recolocação profissional. As oportunidades estão abertas para jovens a partir dos 18 anos e a faixa salarial chega a três salários mínimos. As oportunidades são para os cargos de: Auxiliar de Limpeza (220 vagas);  Controlador de Acesso (120 vagas);  Atendente de Loja (33 vagas);  Porteiro (20 vagas);  Auxiliar de Estoque (6 vagas);  Confeiteiro (2 vagas);   Motorista Entregador (2 vagas) e Pizzaiolo (1 vaga). 

Com Assessorias

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