Mais de 3 milhões de beneficiários de programas sociais federais já foram impedidos de abrir ou manter contas em sites autorizados a explorar, no Brasil, as apostas de quota fixa, as chamadas bets.
Entre os impedidos, estão beneficiários dos programas Bolsa Família; Benefício de Prestação Continuada (BPC); Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), além de programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola Brasil.
O bloqueio se tornou possível graças a uma funcionalidade do Sistema de Gestão de Apostas (Sigap), implementada em outubro de 2025. A regulamentação reacende o debate sobre o rápido crescimento do mercado de apostas no país, que movimenta bilhões de reais desde a liberação parcial em 2018.
Só em 2024, o setor cresceu mais de 30%, segundo levantamento da Datahub, impulsionado por publicidade massiva e parcerias com clubes esportivos. Segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio, o setor movimentou cerca de R$ 68 bilhões em 2024. A facilidade de acesso via smartphones fez com que as apostas deixassem de ser um gasto eventual para se tornarem uma despesa recorrente, disputando espaço com o supermercado do mês.
Dados da CNC revelam que, para as classes mais baixas, as apostas já chegam a representar 76% dos gastos com lazer e cultura e alarmantes 5% das despesas com alimentação. O resultado, de acordo com o CNC, foi que 1,3 milhão de brasileiros se tornaram inadimplentes em 2024 por conta das apostas.
Tal impacto tem introduzido uma nova e perigosa variável no orçamento das famílias brasileiras, o que antes era vendido como entretenimento, transformou-se em um “cassino de bolso”, drenando recursos que antes eram destinados a bens essenciais e à poupança.
O fenômeno, impulsionado por publicidade massiva, acende um alerta para uma crise silenciosa de endividamento e vulnerabilidade econômica. Essa dinâmica não apenas compromete o consumo, mas alimenta diretamente o endividamento. Um levantamento do Procon-SP indica que quatro em cada dez apostadores se endividaram após começarem a usar as plataformas.
‘Vício em apostas não se combate apenas com bloqueios’
Especialistas alertam que a medida do governo é um passo importante, mas insuficiente diante da ausência de políticas públicas estruturadas para tratar o vício em apostas, considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma forma de dependência comportamental. Iniciativas de apoio psicológico e educação financeira ainda são pontuais, e o país carece de programas preventivos de longo prazo.
Para Jezriel Francis, fundador da startup Aposta Zero, criada para oferecer apoio digital a pessoas com dependência em jogos, a decisão do governo traz um alerta necessário, mas evidencia um problema mais profundo.
A proibição é um avanço, mas o Brasil precisa investir em prevenção e recuperação. O vício em apostas não se combate apenas com bloqueios, e sim com informação, acompanhamento e redes de apoio acessíveis. Estamos diante de uma questão de saúde pública que exige empatia e estrutura, não apenas restrição”, afirma.
Para Vivian Domes, professora do curso de Economia da UNIASSELVI, o fenômeno vai além do entretenimento e têm consequências concretas e imediatas na rotina familiar. “Observamos uma redistribuição regressiva de recursos, em que parte significativa da renda familiar é destinada para o setor de jogos. Famílias, sobretudo as de menor renda, gastam parte significativa do orçamento para apostas, o que amplia a vulnerabilidade econômica no longo prazo”, explica.
“As dívidas não são apenas números abstratos: elas se traduzem em restrições concretas na vida doméstica. Valores acumulados reduzem a capacidade de pagar por itens básicos, levando famílias a cortar gastos em alimentação de qualidade, transporte, ou até mesmo em recursos que poderiam ser destinados a mensalidades escolares, cursos ou consultas médicas”, detalha.
Uma geração com o futuro em risco
Um dos pontos mais preocupantes é o impacto sobre a população jovem, que inicia a vida adulta já comprometida por dívidas de jogos. O endividamento precoce não apenas gera estresse e ansiedade, mas impõe barreiras estruturais para o desenvolvimento pessoal e profissional.
As dívidas adquiridas por apostas online comprometem o futuro financeiro, reduzindo sua capacidade de poupança, atrasando a independência e limitando oportunidades de mobilidade social. Em termos demográficos e econômicos, isso significa que uma geração pode carregar consigo uma fragilidade estrutural que impactará não apenas indivíduos, mas também o desenvolvimento econômo do país”, alerta a doutora.
O jovem endividado já começa a vida com o histórico de crédito afetado, o que dificulta o acesso a financiamentos para projetos de vida, como a casa própria ou a educação superior. “Recursos que poderiam ser destinados à formação de patrimônio são drenados para apostas e dívidas, criando uma fragilidade patrimonial que pode perpetuar desigualdades”, complementa.
Como evitar a armadilha do superendividamento?
Diante deste cenário, a orientação da especialista é clara: é preciso desmistificar a ideia de que apostas são uma forma de investimento. A única maneira de reduzir os riscos é tratar a prática estritamente como um entretenimento esporádico e com orçamento limitado.
O primeiro passo é reconhecer que apostas não são investimento. É fundamental definir um limite de gastos que não comprometa despesas essenciais e, principalmente, evitar o uso de crédito para apostar. O dinheiro da aposta deve ser aquele que não fará falta para nenhuma outra necessidade da família”, finaliza Vivian.
Entenda a medida do governo
Proibição de apostas com benefícios sociais gera debate sobre regulação
Em novembro de 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que o governo federal adotasse medidas para impedir o uso de recursos de programas sociais em apostas on-line, para evitar “impactos negativos sobre o orçamento das famílias e a saúde mental, especialmente de pessoas em situação de vulnerabilidade”.
O governo federal publicou em setembro de 2025 a norma que proíbe beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) de realizarem depósitos em plataformas de apostas esportivas (bets). A medida, que entrou em vigor após decisão do STF, impede que recursos de programas sociais sejam usados em jogos de azar e obriga as empresas do setor a bloquear transações provenientes dessas contas.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, a medida visa proteger famílias em situação de vulnerabilidade e coibir práticas que agravem o endividamento entre os mais pobres. Dados do Banco Central (Relatório de Apostas Online, agosto/2024) indicam que cerca de 24 milhões de brasileiros já fizeram transferências via Pix para casas de apostas, com gasto médio mensal de R$ 100 a R$ 3 mil, dependendo da faixa etária.
Como funciona o ‘Módulo Impedidos’
O Módulo Impedidos foi desenvolvido pelo Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), atendendo a uma decisão do STF. O Sigap é uma plataforma tecnológica que permite a regulação, o monitoramento e a fiscalização do mercado de apostas no país. Capaz de processar cerca de 500 milhões de registros diários, o sistema já acumula mais de 5 milhões de arquivos operacionais em sua base de dados.
A partir das informações reunidas pelo Sigap que as empresas licenciadas identificam os usuários impedidos de se cadastrar ou de manter uma conta já cadastrada nas plataformas de apostas. A verificação automática é feita em tempo real, no âmbito do Módulo Impedidos, por cruzamento entre o CPF e outras informações fornecidas pelo usuário.
Quando o impedimento é identificado em conta já existente, a plataforma tem até três dias para encerrá-la e devolver ao usuário todo o saldo disponível. A decisão de negar cadastro ou encerrar conta é da própria operadora. Não há intervenção manual nesse processo e o bloqueio não gera nenhuma outra penalidade ao usuário ou às empresas.
*Com informações da Secom-PR e Assessorias

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