O avanço desenfreado da ludopatia — o vício em jogos, já reconhecido como doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS) — acendeu um alerta vermelho para os impactos psicológicos e o sofrimento emocional gerados pelo comportamento de risco. Para milhares de apostadores compulsivos que viram suas finanças e relações ruírem com as apostas esportivas online, a tomada de consciência começou a se traduzir em ação.

A Plataforma Centralizada de Autoexclusão, gerenciada pelo Governo Federal, já registra mais de 1 milhão de usuários cadastrados desde que foi criada, em dezembro de 2025. Segundo dados do Ministério da Fazenda e da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), a ferramenta sofreu uma disparada nos pedidos durante o mês de junho, impulsionada pela realização da Copa do Mundo da Fifa 2026.

Antes do início da Copa, 62,13% solicitaram a autoexclusão por tempo indeterminado. Durante o torneio, esse percentual subiu para 63,53%. Entre 15 e 28 de junho, No auge da Copa, quando a Seleção Brasileira ainda estava competindo, a plataforma recebeu 250.129 pedidos de bloqueio ou de prorrogação de bloqueios feitos por usuários. Isso representa uma média de 17.866 solicitações por dia no período.

Escalada nos pedidos durante a Copa do Mundo

Entre os dias 15 e 28 de junho, a plataforma recebeu 250.129 solicitações de bloqueio ou prorrogação — uma média expressiva de 17.866 pedidos por dia. Em comparação ao período de 11 a 25 de maio (antes do torneio), quando a média diária era de 2.594 solicitações, o crescimento no número médio de pedidos foi de 588%.

Em números absolutos, foram registrados 211.222 pedidos a mais de autoexclusão durante o período da Copa analisado pela SPA em relação ao intervalo anterior. A diferença ocorreu mesmo com o recorte de junho tendo um dia a menos: foram 14 dias, entre 15 e 28 de junho, contra 15 dias no período de 11 a 25 de maio.

Período Média diária de Pedidos Total de Solicitações
Pré-Copa (11 a 25 de maio) 2.594 38.907
Durante a Copa (15 a 28 de junho) 17.866 250.129

A maioria dos usuários (mais de 63%) optou pelo bloqueio por tempo indeterminado. Os dados completos do torneio ainda serão contabilizados. Também estão sendo contabilizados os números de novos usuários que se cadastraram para apostar durante o torneio.

Mudança de perfil: da perda de controle ao medo do uso de dados

Além do volume, o levantamento apontou uma mudança relevante no perfil e na motivação dos usuários para buscar o bloqueio do CPF:

Motivo alegado Antes da Copa (%) Durante a Copa (%)
Prevenção contra uso irregular de dados 12,08% 29,50%
Perda de controle sobre o jogo 43,56% 24,13%
Decisão voluntária 12,68% 18,93%
Motivo não informado 16,10% 15,31%
Dificuldades financeiras 14,07% 10,91%
Recomendação médica 1,52% 1,22%

Quase 18 mil pedidos de autoexclusão por dia

Esta foi a primeira Copa do Mundo com o mercado de bets regulamentado no Brasil.  Lançado em dezembro de 2025, o sistema permite ao cidadão bloquear, com um único comando, o acesso do CPF a todas as operadoras autorizadas oficialmente a oferecer jogos esportivos, além de interromper de forma imediata o recebimento de publicidade direcionada.

Depois de processados, os pedidos impedem que essas pessoas utilizem seus CPFs para apostar em bets legalmente autorizadas a funcionar. Isso evita que o usuário consiga se bloquear em uma plataforma, mas fique livre para jogar em outra.

Os dados também apontam uma mudança nos motivos que teriam levado os usuários a solicitar o bloqueio. Antes da Copa, o principal motivo para a autoexclusão era a perda de controle sobre o jogo, como mostra o ranking abaixo:

  • perda de controle sobre o jogo (43,56%)
  • motivo não informado (16,1%)
  • dificuldades financeiras (14,07%)
  • decisão voluntária (12,68%)
  • prevenção contra uso de dados (12,08%)
  • recomendação médica (1,52%)

durante a Copa, o principal motivo alegado para a autoexclusão foi se precaver contra o uso irregular dos dados pessoais por empresas de bets:

  • prevenção contra uso de dados (29,5%)
  • perda de controle sobre o jogo (24,13%)
  • decisão voluntária (18,93%)
  • motivo não informado (15,31%)
  • dificuldades financeiras (10,91%)
  • recomendação médica (1,22%)

Para a SPA, o aumento é resultado de uma combinação entre a maior exposição do público às apostas durante o torneio, a divulgação da plataforma de autoexclusão entre usuários e o crescimento da conscientização sobre os riscos financeiros e emocionais associados ao jogo.

A combinação entre informação, conscientização e maior divulgação da ferramenta tem contribuído para ampliar o alcance do instrumento e fortalecer a proteção dos cidadãos”, disse a SPA à ‘BBC News Brasil’.

Entidades do setor e especialistas consultados pela BBC News Brasil apontam que o aumento expressivo reflete não apenas o agravamento de casos de jogo compulsivo, mas também uma postura preventiva de cidadãos diante da forte exposição publicitária, e do receio de uso indevido de seus dados pessoais.

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) avaliam que o avanço também refletiria a maior divulgação da ferramenta, seu uso preventivo por parte dos usuários e a ampliação dos mecanismos de proteção disponíveis no mercado após após a regulamentação da atividade, ocorrida em 2023,

Para entidades que acompanham os impactos das apostas, essa mudança de perfil sugere que o crescimento da autoexclusão não ocorreu apenas entre pessoas que já enfrentavam problemas com o jogo compulsivo. Parte dos novos pedidos, segundo essas organizações, pode ter partido de usuários que decidiram se bloquear preventivamente diante da maior exposição às apostas durante a Copa e do temor de que seus dados sejam utilizados de forma indevida por essas empresas.

Leia mais aqui no especial ‘Aposta de Risco’

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Uma questão de sobrevivência psicológica

Diante de um mercado que estimula a repetição e a busca por recompensas imediatas, especialistas em saúde mental que acompanham o avanço das bets no Brasil afirmam que a plataforma de autoexclusão consolidou-se não apenas como uma ferramenta de proteção em massa contra os perigos do endividamento causado pelo vício em apostas, mas, sobretudo, uma questão de sobrevivência psicológica.

Para a neuropsicóloga Maria Klien, a relevância da ferramenta vai além da barreira burocrática ou tecnológica: trata-se de criar um freio físico e emocional no cotidiano do indivíduo.

A compulsão não se caracteriza apenas pela frequência de uma conduta, mas pela dificuldade de interrompê-la mesmo diante de graves prejuízos emocionais, financeiros e familiares. Toda estratégia que cria um intervalo entre o impulso imediato e a ação favorece a retomada da consciência sobre as próprias escolhas”, explica a especialista.

A ciência por trás da pausa: criando um escudo entre o impulso e a ação

Especialistas em neuropsicologia explicam que as interfaces das bets são minuciosamente desenhadas para ativar os sistemas cerebrais de recompensa variável. O cérebro responde de forma intensa à promessa de ganho, fazendo com que o indivíduo insista em novas tentativas na ilusão de recuperar o dinheiro perdido, gerando um ciclo compulsivo difícil de quebrar sem intervenção externa.

Os mecanismos visuais e de usabilidade presentes nos aplicativos de apostas são projetados para ativar os sistemas cerebrais ligados à expectativa de recompensa. Maria Klien detalha que o cérebro humano responde de forma extremamente intensa a esses estímulos de ganho variável.

Com o tempo, o foco do usuário deixa de ser o retorno financeiro em si e passa a ser a própria experiência e a adrenalina de apostar, gerando um ciclo em que a pessoa crê piamente que a próxima tentativa vai compensar os prejuízos anteriores”.

Proteção não é sinal de fracasso

Um dos principais obstáculos para o enfrentamento da ludopatia é o estigma social. A psicóloga reforça que o ato de reconhecer a perda de controle e utilizar os mecanismos de bloqueio do governo não pode ser interpretado pelo paciente ou pela família como um sinal de fraqueza ou fracasso pessoal.

De acordo com a especialista, existe uma cultura equivocada na sociedade que associa o autocontrole à capacidade mística de resistir sozinho a qualquer tipo de impulso ou gatilho comercial agressivo.

Na prática clínica, contudo, o cuidado e a cura passam necessariamente pela criação de estruturas externas de proteção. Limitar os acessos bancários e estabelecer barreiras tecnológicas são, na verdade, movimentos de profunda responsabilidade e preservação da vida.

A importância de buscar suporte especializado

Embora a autoexclusão do CPF seja um passo fundamental para estancar a crise financeira e o impulso imediato, a busca por apoio terapêutico especializado continua sendo indispensável. Isso porque a compulsão opera frequentemente como uma tentativa de anestesiar dores profundas, como angústias, sentimentos de vazio ou quadros persistentes de ansiedade, que precisam ser devidamente investigados e tratados para que o indivíduo recupere sua autonomia.

O uso da ferramenta de autoexclusão deve ser visto como uma estrutura de proteção e um ato de responsabilidade, e não como fracasso pessoal. No entanto, a psicoterapia clínica continua sendo indispensável. Na maioria dos casos, a compulsão atua como uma válvula de escape para o alívio de quadros persistentes de ansiedade, angústia ou vazios emocionais que demandam tratamento especializado e contínuo.

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Com informações da BBC Brasil e Assessorias de Imprensa

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