De um lado, a Argentina de Javier Milei, aliado de Donald Trump. De outro, a Espanha, considerada pelo presidente americano uma ‘causa perdida’. No meio, a torcida brasileira dividida entre a seleção latina e a europeia. A final da Copa do Mundo de 2026, em que a Espanha venceu a Argentina por 1 a 0 na prorrogação, foi festejada pela esquerda brasileira, que não poupou ironias e memes à imagem de Trump entregando a taça à seleção que representa um país que não se curvou a sua política intervencionista, enquanto bolsonaristas choraram a derrota dos hermanos.

Para além da polarização político-ideológica, outra questão esteve no centro desse duelo: o racismo no futebol. O tema ganhou enorme repercussão dentro e fora de campo, impulsionado por uma série de polêmicas e ataques discriminatórios durante a maior edição de Copas do Mundo da história, envolvendo três países das Américas – Estados Unidos, México e Canadá. O ator norte-americano Samuel L. Jackson causou forte repercussão ao publicar um desabafo no Instagram pedindo para que as pessoas não torcessem para a Argentina, classificando o país como historicamente racista. 

Entre os brasileiros, a repercussão foi intensa. Após a decisão, o atacante brasileiro Richarlisson comemorou a vitória espanhola em suas redes sociais. Como resposta, ele e sua família receberam mais de 200 mensagens e comentários com ofensas racistas, incluindo o envio sistemático de emojis de macaco e banana por parte de torcedores argentinos. Estudantes universitários brasileiros residentes na Argentina denunciaram ter sofrido ameaças de morte e hostilidades xenofóbicas logo após a derrota da seleção local.

Casos de racismo no futebol

A discussão sobre o comportamento de torcedores e atletas já vinha se acumulando ao longo do Mundial e de competições anteriores: 
  • Caso IShowSpeed: Durante as oitavas de final, a FIFA abriu uma investigação oficial após o influenciador negro americano ser alvo de insultos racistas por parte de um torcedor argentino no estádio. 
  • Partida contra o Egito: No jogo entre Argentina e Egito, denúncias de cânticos racistas direcionados aos atletas egípcios resultaram no acionamento do gesto de braços em “X” (protocolo oficial da FIFA contra o racismo). 
  • O passado de Enzo Fernández: Críticos e torcedores relembraram ativamente o episódio de 2024, quando o volante argentino Enzo Fernández e outros atletas da seleção cantaram músicas de teor racista e transfóbico contra os jogadores negros da França após o título da Copa América.

Mas afinal, qual país é mais racista – Argentina ou Espanha?

Embora o foco imediato das críticas pós-final tenha sido a Argentina (o que fez muitos torcedores brasileiros celebrarem o título da “La Roja”), analistas e a mídia internacional relembraram que a Espanha também enfrenta problemas graves e estruturais de racismo no esporte. 
A própria seleção espanhola precisou lidar com protestos do atacante Lamine Yamal contra a islamofobia de seus próprios torcedores em meses anteriores. Além disso, o histórico recente do futebol espanhol é amplamente marcado pelas recorrentes 20 denúncias de racismo feitas por Vinicius Júnior atuando pelo Real Madrid, expondo que a praga da discriminação é um desafio urgente para ambas as federações e para o futebol mundial.
Em meio à polêmica nas redes, cientistas políticos,  sociólogos e historiadores afirmam que não é possível apontar cientificamente qual dos dois países é “mais racista”, pois o racismo é um problema estrutural complexo que se manifesta de formas diferentes em cada sociedade, dependendo de sua história, demografia e cultura. Ambas as nações enfrentam crises severas e amplamente documentadas de discriminação, mas com características distintas.
Abaixo, confira uma análise de como o racismo se manifesta estruturalmente na Argentina e na Espanha, com base em dados históricos, sociológicos e em episódios recentes do futebol mundial.

O racismo na Argentina: a negação da identidade

O racismo na Argentina é caracterizado historicamente pela invisibilização e pela tentativa de construir uma identidade nacional exclusivamente europeia e branca. 
    • O mito da “Argentina branca”: Durante o final do século XIX e início do século XX, políticas de Estado incentivaram a imigração europeia em massa enquanto promoviam o apagamento histórico das populações indígenas e afro-argentinas. Criou-se o mito cultural de que “não existem negros na Argentina”.
    • Xenofobia como expressão de Racismo: Como a população negra local é estatisticamente pequena, o preconceito racial frequentemente se funde com a xenofobia. Ele é direcionado a imigrantes de países vizinhos (como Bolívia e Paraguai) e a cidadãos das províncias do norte do país, associados a traços indígenas.
    • A linguagem xotidiana: Expressões pejorativas como “negro de mierda” ou “negro de alma” são culturalmente banalizadas na Argentina. Sociólogos apontam que o termo “negro” no país muitas vezes é usado para marginalizar classes sociais mais baixas, independentemente da cor da pele, revelando um racismo profundamente ligado ao preconceito de classe (classismo). 
    • A impunidade institucional: No futebol, os ataques racistas de torcedores argentinos contra brasileiros e outras nacionalidades são frequentemente defendidos localmente como “folclore do futebol” ou “provocação de jogo”, dificultando o reconhecimento do crime. 

O racismo na Espanha: discriminação estrutural e institucional

Na Espanha, o racismo se manifesta de forma mais visível contra comunidades imigrantes e minorias étnicas, impulsionado por tensões migratórias e heranças coloniais. 
    • Foco das ofensas: O preconceito espanhol atinge fortemente a população cigana (historicamente marginalizada no país), imigrantes de origem africana (principalmente subsarianos e marroquinos) e cidadãos latino-americanos.
    • Ataques em espaço público: Diferente da Argentina, onde o apagamento é a norma, na Espanha o racismo frequentemente se traduz em hostilidade direta e vocal em espaços públicos, escolas e estádios de futebol. O caso do jogador brasileiro Vinicius Júnior expôs ao mundo como ofensas racistas coletivas e simulações de enforcamento foram normalizadas em diversos estádios do país. 
    • Islamofobia crescente: O país vive uma onda forte de preconceito religioso e racial direcionado a muçulmanos (comunidade magrebina), o que ficou evidente nas redes sociais com os ataques sofridos pelo próprio jogador da seleção espanhola, Lamine Yamal.
    • Racismo institucional: Relatórios de órgãos de direitos humanos da União Europeia apontam problemas na Espanha relacionados à abordagem policial baseada em perfil racial (paradas policiais motivadas pela cor da pele ou etnia) e dificuldades de acesso à moradia e ao emprego para minorias.

Resumo comparativo

Aspecto Argentina Espanha
Origem principal Mito da homogeneidade branca e apagamento histórico. Tensões de imigração contemporânea e herança colonial.
Alvos principais Populações indígenas, imigrantes latinos vizinhos e classes marginalizadas. Imigrantes africanos (incluindo árabes), ciganos e latino-americanos.
Manifestação comum Uso de termos racistas naturalizados na linguagem e agressões verbais no esporte. Hostilidade pública direta, islamofobia e discriminação institucional (perfilamento policial).

O “escanteio” e a ironia geopolítica

O debate político nas redes sociais no Brasil em torno da imagem de Donald Trump entregando a taça da Copa do Mundo de 2026 à seleção da Espanha foi marcado por uma polarização ideológica intensa. A presença e a insistência do presidente americano em permanecer no palco dos campeões no MetLife Stadium serviram como combustível para uma verdadeira guerra de narrativas geopolíticas e locais entre a esquerda e a direita brasileiras.
Setores alinhados à esquerda celebraram o desfecho da final como um revés político para Trump. Os principais argumentos foram: 
    • A “inconveniência” no palco: Perfis ironizaram o fato de Trump ter permanecido no pódio para sair na foto oficial e precisar ser discretamente “conduzido” para fora pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino. A cena foi descrita como “patética” e virou meme. 
    • As fotos oficiais: A divulgação de imagens oficiais pela FIFA e pela Federação Espanhola onde Trump foi visivelmente enquadrado para fora (ou “cortado”) foi amplamente comemorada como uma resposta à soberania espanhola. 
    • Vitória de Pedro Sánchez: Políticos e influenciadores progressistas destacaram a ironia geopolítica: dias antes, Trump havia classificado a Espanha como uma “causa perdida” e ameaçado cortar comércio. No fim, ele teve de entregar o troféu para o país governado pelo primeiro-ministro de esquerda Pedro Sánchez, aliado do presidente Lula. 
    • Derrota de milei e do bolsonarismo: A vitória da Espanha sobre a Argentina foi utilizada para atacar o presidente argentino Javier Milei, apoiado pela direita brasileira e pelo próprio Trump. O resultado em campo foi traduzido como “Chora Milei, chora Trump, chora Bolsonaro”. 

A narrativa da direita: protagonismo de Trump e crítica ao “boicote”

Por outro lado, o campo conservador e apoiadores da direita brasileira saíram em defesa do presidente norte-americano, projetando o episódio sob outra ótica: 
  • Protagonismo global: Perfis de direita exaltaram a imagem de Trump entregando o troféu mais importante do esporte mundial como uma demonstração de força, prestígio e liderança dos Estados Unidos sob sua gestão.
  • Acusações de censura na mídia: A repercussão de que a FIFA e a Federação Espanhola “apagaram” Trump das fotos foi interpretada por influenciadores conservadores como uma prova do “boicote globalista” e do “esquerdismo” das entidades esportivas, que tentaram esconder o mandatário legítimo do país-sede.
  • A farsa do “corte por edição”: Agências de checagem brasileiras precisaram desmentir publicações virais que alegavam que a foto da Espanha havia sido alterada digitalmente via Photoshop para remover Trump. Na realidade, a foto compartilhada pela seleção espanhola apenas capturou o instante em que ele já havia se afastado voluntariamente do centro do pódio.
Com Assessorias
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