InclusãoMENTE

O choro de Vini Jr: como enfrentar a dor do racismo?

Comoveu o mundo o desabafo do jogador brasileiro Vini Jr esta semana, alvo de inúmeros ataques racistas na Espanha. Atacante do Real Madrid, o clube mais cobiçado do mundo, ele chorou em entrevista coletiva ao revelar que pensa em deixar o futebol por causa dos insultos que vem sofrendo em campo por diversas torcidas.

“O racismo adoece e muito. Lutar o tempo todo contra algo que impacta a sua existência. O quanto que adoece a cada um de nós. Para a população negra é sobre lutar pela existência e contra o processo de opressão e violência”, avalia a psicóloga Lívia Marques, que também é negra (veja o artigo na íntegra abaixo).

No dia seguinte ao desabafo, o capitão da Seleção Brasileira foi ovacionado no Estádio Santiago Bernabéu, após o amistoso com a Seleção Espanhola – que terminou em empate (3 x 3). A partida foi promovida em apoio à luta antirracista deflagrada por Vini Jr no último ano na Espanha. No momento do hino, os jogadores brasileiros usaram jaquetas pretas com o slogan “uma só pele; uma só identidade”, em português, inglês e espanhol.

Jogador ganha mais de R$ 56 milhões de reais por ano

Nascido em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, Vinicius José Paixão de Oliveira Junior, de 23 anos, se revelou no Flamengo e chegou à nata do futebol internacional. Com um salário anual que gira em torno de 10,5 milhões de euros – algo equivalente a R$ 56,3 milhões -, há quatro meses ele renovou o contrato até junho de 2027 com o Real Madrid, o ‘clube dos sonhos’. Em caso de rescisão, a multa é de 1 bilhão de euros (cerca de R$ 5,35 bilhões).

Mas a fama, o dinheiro e o talento não são suficientes para barrar as ofensas racistas. A batalha de Vini Jr contra o racismo que enfrenta em território espanhol o coloca ainda mais nos holofotes. Desde outubro de 2021, quando houve o primeiro crime de racismo contra Vini Jr, 14 casos foram registrados de forma oficial – isso contando apenas episódios dentro dos estádios. O jogador sofre ataques, de torcidas diferentes, por conta da sua cor.

Todos os casos foram relatados aos procuradores do Campeonato Espanhol, que já realizou mais de dez denúncias junto à Justiça local contra ofensas raciais a Vini, oriundas de torcidas de clubes tradicionais como Barcelona, Atlético de Madrid e Valencia. Mas poucas resultaram em sanções aos torcedores.

Jogador chora: ‘quero que meu irmão de 5 anos não passe pelo que estou passando’

Questionado sobre o motivo de ter sido “o escolhido” para ser vítima de racismo na Espanha, em meio a 11 jogadores negros de seu clube, ele diz acreditar que adversários tentam intimidá-lo para minar seu jogo. Mas Vinicius se mantém firme e se tornou referência mundial contra o racismo ao escolher ficar na linha de frente dessa luta.

“É uma coisa muito difícil e eu tenho lutado bastante por tudo que vem acontecendo comigo. É desgastante porque você está meio que sozinho em tudo, porque eu já fiz tanta denúncia e ninguém é punido, nenhum clube é punido. E a cada dia que passa eu venho lutando por todas aquelas pessoas que vão vir, porque se fosse apenas por mim, pela minha família, eu acredito que eu já teria desistido de tudo que venho lutando”, desabafou o atacante.

Ele contou sobre o sentimento de tristeza. “A cada dia quer vou para casa fico mais triste, mas eu fui escolhido para defender uma causa tão importante, que cada dia eu estudo mais sobre [o racismo], eu venho aprendendo para que num futuro muito próximo, o meu irmão que tem cinco anos não venha a passar por tudo que estou passando”, afirmou.

Palavra de Especialista

Vini Jr e o racismo que nos adoece

Por Livia Marques*

Infelizmente, mais uma vez precisamos falar sobre isso. Perceber um jogador de futebol, estrela de um dos maiores times do mundo, em uma coletiva, chorar pelo fato de ter de se defender e justificar sobre o racismo vivenciado, dói.

O choro pode ser julgado ainda assim, levando em consideração o fato de ser um homem negro e questionarem: “Ué, mas ele sempre ‘bate de frente’ no campo e até levanta o punho cerrado. Agora, ele está chorando?”

Sim! Estar no ‘front’ e lutando frente a tantas violências que oprimem e violentam é dolorido. Ou será que pessoas negras não podem ter emoções? Ou será que não podem se expressar? Possivelmente, ambos os casos.

Quais são os posicionamentos que se tem? Não se tem. Será que existe uma normalização nisso tudo? Interessante dizer que se caso a pessoa reaja e fale algo, ela pode ser entendida como alguém que é arrogante, violenta ou “raivosa”.

Caso chore, a pessoa é considerada fraca. Os julgamentos sempre colocam a pessoa nos extremos. Ou se inferioriza ou se percebe como uma pessoa muito ruim.

racismo adoece e muito. Lutar o tempo todo contra algo que impacta a sua existência. O quanto que adoece a cada um de nós. Para a população negra é sobre lutar pela existência e contra o processo de opressão e violência.

Mas, caso a pessoa fale e diga com todas as letras que aquilo é racismo, logo somos taxados como militantes e raivosos. Para estereótipos que associam pessoas negras ao papel de desumanos serve, não é?

O fato aqui é que o racismo desumaniza, como Frantz Fanon e Abdias Nascimento nos trazem perfeitamente em páginas dos livros “Pele Negra, máscaras brancas” e “O genocídio do Negro Brasileiro. Processo de um racismo mascarado” que, por vezes, precisamos parar e respirar.

Quando abordamos o assunto racismo e saúde mental da população negra, percebemos o quanto o adoecer dessas pessoas ainda é invalidado e ainda pouco abordado.

Isso gera na pessoa diversas marcas, como, por exemplo, o sentimento de não pertencimento; defectividade, que é a sensação de ser defeituoso; desejo de se isolar socialmente; processo ansiogênico, a ansiedade que causa desconforto físico e psíquico, e o silenciamento.

A escritora Conceição Evaristo nos traz uma reflexão com relação à luta que é bastante pertinente para o caso: “eles combinaram de nos matar, mas a gente combinamos de não morrer”.

 (*) Psicóloga Clínica, Especialista em Terapia Cognitiva Comportamental, Formação em Terapia do Esquema, Estudiosa em relações raciais e saúde mental negra, Palestrante, MBA em Gestão de Pessoas, Coordenadora editorial e autora.

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‘Seria uma vitória para os racistas se ele decide ir embora da Espanha’

Para Marcelo Carvalho, fundador e diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol,, se tomar a decisão de deixar o Real Madrid, Vini Junior estará “entregando o jogo para os rivais racistas”. Se for embora da Espanha pode ser visto como uma vitória para os racistas. A questão parece transcender essa esfera, já que a saúde mental de Vinicius está em xeque.

“É uma decisão dele estar à frente dessa luta, resistir e não silenciar. Sabemos dos problemas que ele pode enfrentar, de represálias. Eu fico muito feliz dele estar ali, mas não gostaria que ele estivesse nesse lugar. Mas se ele sair, é uma vitória dos racistas e me pergunto, onde ele não sofreria racismo?”, questiona, em entrevista ao Torcedores.com.

Carvalho explica que não há vontade política na Espanha de mudar o cenário e que muitas vezes existe a intenção de culpar o jogador. São seguidos cartões que o brasileiro vem recebendo na Liga Espanhola (seis amarelos e um vermelho desde 2022), hora por descontrole reativo, hora por perseguição dos juízes, que assumem que o atacante do Real Madrid provoca os adversários.

“De fato, seria uma vitória para os racistas se ele decide ir embora da Espanha diante do racismo que ele sofre. Mas ao mesmo tempo, é uma decisão dele querer ter paz para jogar futebol e não ter de lidar com uma sociedade extremamente racista e contrária a ele, como a Espanha é hoje”, ressalta.

Racismo não é crime na Espanha

Ele ainda lembra que, fora de campo, ainda tem o fato de que racismo não é crime na Espanha. “Esses casos de racismo contra o Vini são tratados com total descaso. Não entendem a gravidade e todos os questionamentos que nós, brasileiros, fazemos. Nenhuma autoridade toma a frente do problema. No último caso do Atlético de Madrid, a La Liga não fará nada, porque era um jogo da Uefa. A Uefa lavou as mãos. E foram dezenas, centenas de pessoas”, diz Marcelo.

“Agora as autoridades espanholas estão falando em mudar isso, mas não se vê uma vontade política pela mudança. É o contrário, muitas vezes você vê uma vontade de culpar o Vinicius pelo que está acontecendo”, comenta.

Marcelo Carvalho, entretanto, pondera que não há garantias de que o brasileiro não irá sofrer com insultos da mesma natureza em outros lugares.  “Em qual liga do mundo hoje Vini jogaria sem passar pelo que ele está passando? Que liga protegeria Vini Jr como ele deve ser protegido? Eu desconheço, nem no Brasil ele estaria livre de sofrer insultos racistas”, afirma.

‘Racistas sempre serão minoria’, diz jogador

Diante da inoperância das autoridades espanholas quanto aos frequentes ataques de racismo que tem sofrido, o próprio Vinicius Júnior externou na coletiva pré-jogo realizada na última segunda-feira (25) sua exaustão em lutar contra o tema. Ele chegou a ir às lágrimas e ressaltou que não se sente protegido de nenhuma forma – nada de efetivo foi feito até o momento.

“Sinceramente, se fosse só por mim eu já teria saído (do Real Madrid). Se fosse até só pela minha família eu também já teria ido. Mas entendi que estou lutando por muitas pessoas que passam por isso diariamente, e há muito tempo. Eu venho estudando muito o racismo e sei que sou uma voz importante. Espero que no futuro meu irmão de cinco anos não passe pelo que estou passando. Mas é difícil, nenhum clube é punido e ninguém faz nada. A cada dia que vou pra casa fico mais triste”, declarou o jogador brasileiro.

Veja mais detalhes sobre a entrevista coletiva em que Vini Jr falou sobre os ataques que vem sofrendo.

Vini Junior Real, atacante do Real Madrid (Foto: Reprodução)

Sobre deixar o Real Madrid

“Pensei em sair, sim. Mas se saio daqui, estou dando o que querem aos racistas. Vou seguir lutando e jogando no melhor do mundo, ganhando títulos e fazendo muitos gols, para que vejam cada vez a minha cara. Sigo evoluindo para isso. Jogar futebol e fazer a alegria das pessoas e de todos que vão ao estádio”.

“Racistas sempre serão minoria. Como sou um jogador atrevido, que joga no Real Madrid e ganhamos muitos títulos, é complicado. Mas vou seguir firme e forte pois presidente me apoia, o clube me apoia, para que eu continue e possa ganhar muitas coisas”.

O que frustra mais?

“A falta das punições. Se a gente começar a punir todas essas pessoas que cometem crime e aqui eles não consideram crime, vamos começar a evoluir, tudo vai ficar melhor para todo mundo. Faço tantas denúncias, muitas vezes chegam cartas para fazerem mais denúncias, mas no final acontece como aconteceu com meu amigo em Barcelona, eles arquivam o processo e ninguém sabe de nada.

Se a gente começar a punir essas pessoas, não que eles vão mudar o pensamento, mas vão ficar com medo de falar, seja no estádio, onde tem câmeras… e assim vamos diminuir isso, colocar medo naquelas pessoas. E que eles possam também educar seus filhos. Muitas vezes aqui tem criança me xingando e eu não culpo a criança, porque eles não entendem, eu na idade deles não entendia o racismo. É complicado.

No futebol tem muitas pessoas, tantos jogadores melhores do que eu que já passaram por aqui, eu quero fazer com que as pessoas no mundo possam evoluir, melhorar, que possamos ter igualdade, que num futuro próximo haja menos casos de racismo, que as pessoas negras possam ter uma vida normal, como as outras.

Quero seguir lutando por isso. Se fosse por mim, eu já teria desistido, fico em casa, ninguém vai me xingar, fazer nada comigo… Eu vou para os jogos com a cabeça centrada no jogo para fazer o melhor para minha equipe, mas nem sempre é possível. Tenho que me concentrar muito todos os dias”, revelou, entre lágrimas.

Apoio dentro e fora de campo

“Quero agradecer desde já a todos os jogadores da Espanha que sempre que dão entrevista estão me apoiando, fazendo tudo para que a Espanha mude seu pensamento. Não só a Espanha, em todo lugar tem muito racismo. Espero que a gente possa fazer tudo para diminuir cada vez mais o racismo. Os jogadores da Espanha estão me ajudando muito, falando coisas que no início só eu falava.

Sempre peço que Fifa, Conmebol, Uefa possam fazer mais coisas, como a CBF está fazendo, vem me ajudando para que possamos evoluir como seres humanos, para que todos possam estudar para ver o que os pretos passam e passaram. O que eu passo não é nem perto do que todas essas pessoas passaram. Eu quero lutar por aqueles que são pretos”.

Críticas da imprensa espanhola

Ao longo da coletiva, Vini Jr chorou algumas vezes, a primeira delas ao abordar a forma como é tratado pela imprensa na Espanha. “Acredito que eles [jornalistas] têm que falar menos de tudo o que eu faço de errado dentro de campo. É claro que tenho que evoluir, mas tenho 23 anos, é um processo natural, saí muito novo do Brasil, não pude aprender tantas coisas”.

Tenho 23 anos e sigo estudando. Por que os repórteres da Espanha, que são mais velhos do que eu, não podem estudar e ver o que realmente está acontecendo? disse Vini Jr., enxugando as lágrimas.

Críticas de outros jogadores

No meio do futebol, Vini Jr também acumula críticas de outros jogadores. A mais recente veio de Dani Parejo, do Villarreal, que criticou as reações do brasileiro às injúrias raciais que sofre. Em entrevista ao “El Larguero”, Parejo minimizou.

“Quando você joga no Real Madrid, sempre há um ambiente diferente. Torcedores sempre implicam com os jogadores, as pessoas gostam de provocar. Mas já estive em campos por aí, e me chamam de bêbado, ou coisas do tipo, e não encaro as pessoas nem faço gestos. Isso é desnecessário. O jogador de futebol tem que estar acima dessas situações. Em certos comportamentos, ele está equivocado”, disparou Parejo.

O camisa 10 do Villarreal elogiou Vini – “ele é um jogador extraordinário, espetacular, com habilidades espetaculares’ – mas disse acreditar que ele precisa focar apenas no jogo e não se importar com os ataques das torcidas.

“É claro que eu nunca estive no cenário de ser um jogador importante para o maior time do mundo e ser bajulado por todos. Mas acho que nos jogadores precisam se dedicar apenas ao jogo. Vão haver ofensas em todas as partidas, e esse é um aprendizado que ele precisa trabalhar”, completou.

Com agências e assessorias

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