Dados do Disque 100 (Disque Direitos Humanos) apontam que mais de 53 mil casos de violência sexual contra crianças e adolescentes foram registrados apenas no primeiro semestre de 2026 — um salto de quase 60% em relação ao mesmo período do ano anterior. Paralelamente, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) alerta para a subnotificação histórica no país, onde estima-se que apenas 8,5% das ocorrências chegam a ser formalmente notificadas.

O combate às violações de direitos contra a infância ganhou dois importantes reforços no Brasil. Com o aumento expressivo dos casos de abuso e exploração, novas ferramentas buscam simplificar o caminho das denúncias e preparar educadores, familiares e a comunidade para agir de forma correta ao receberem relatos de violência.

Mapa conecta mais de 3,5 mil Conselhos Tutelares

Para encurtar a distância entre a suspeita e a proteção efetiva, o Movimento Violência Sexual Zero — aliança composta por Childhood Brasil, Instituto Liberta, Grupo Mulheres do Brasil e Vibra Energia — disponibilizou o Mapa Nacional dos Conselhos Tutelares. A plataforma funciona como um canal de localização rápida para mais de 3,5 mil conselhos pelo país, oferecendo contatos atualizados e orientações passo a passo sobre como formalizar denúncias.

O portal orienta os fluxos adequados para cada contexto de violação:

  • Suspeitas gerais e anonimato: Uso do Disque 100, serviço gratuito do governo federal.

  • Situações flagrantes ou emergenciais: Telefones 190 da Polícia Militar (PM) e 191 da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

  • Crimes e abusos no ambiente online: Encaminhamento direto a entidades especializadas, como a SaferNet.

A atenção aos crimes cibernéticos reflete uma mudança alarmante no perfil dessas violações: segundo dados da rede internacional InHope, o Brasil saltou da 27ª posição em 2022 para a 5ª colocação em 2024 no ranking mundial de denúncias de páginas com conteúdos de exploração sexual infantil.

Capacitação para acolher a “revelação espontânea”

A forma como o primeiro relato de violência é recebido por um adulto pode determinar o sucesso ou o insucesso do processo de proteção. Em muitos casos, a vítima busca espontaneamente a ajuda de um professor, familiar ou figura de confiança durante uma conversa informal, brincadeira ou atividade rotineira.

Para capacitar a sociedade a conduzir esses momentos sem revitimizar a criança, o Centro Marista de Defesa da Infância (CMDI) e o Farol 1817 lançaram o curso online e gratuito Revelação Espontânea, realizado em parceria com o Centro Universitário Católica de Santa Catarina e a FTD Educação.

Com carga horária de 22 horas e 23 aulas gravadas, o curso prepara o público para:

  • Escuta qualificada: Evitar atitudes prejudiciais, como expressar choque, fazer perguntas invasivas ou prometer segredos que impeçam o encaminhamento do caso.

Fluxos de atendimento: Entender os caminhos corretos dentro do Sistema de Garantia de Direitos.

  • Papéis institucionais: Diferenciar a responsabilidade pessoal do profissional da conduta esperada pelas instituições de proteção.

  • Legislação vigente: Aplicar as diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e do ECA Digital.

A formação é direcionada a educadores, gestores escolares, conselheiros tutelares, líderes comunitários, agentes pastorais e qualquer adulto que conviva com crianças e adolescentes. As inscrições estão abertas na página do Farol 1817.

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