Dados do Disque 100 (Disque Direitos Humanos) apontam que mais de 53 mil casos de violência sexual contra crianças e adolescentes foram registrados apenas no primeiro semestre de 2026 — um salto de quase 60% em relação ao mesmo período do ano anterior. Paralelamente, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) alerta para a subnotificação histórica no país, onde estima-se que apenas 8,5% das ocorrências chegam a ser formalmente notificadas.
Em todo mundo, também cresce a preocupação com a violência sexual online. Cerca de 20 milhões de crianças e adolescentes de 21 países já sofreram, no período de um ano, algum tipo de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia. Os dados fazem parte do relatório Pelos Olhos das Crianças: Como as Tecnologias Digitais Facilitam o Abuso Sexual Infantil  lançado nesta semana pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). 
O estudo estima que 9 milhões tenham sido induzidas a manter conversas de teor sexual ou compartilhar imagens desse cunho contra sua vontade e que 4 milhões tiveram imagens delas vazadas. O quantitativo de crianças expostas a conteúdo sexual indesejado é estimado em 15 milhões. Na avaliação dos especialistas do Unicef, contudo, os números devem ser ainda maiores.
A explicação é a de que muitas vítimas não chegam a comunicar a ninguém o que aconteceu a elas. Mais de 40% das ocorrências informadas durante a coleta de informações não foram reveladas pelas vítimas. O principal motivo para deixarem de contar é não saber aonde ir ou a quem recorrer.

Redes sociais

Quanto às plataformas digitais com maior número de violações, os dados revelam que, em média, cerca de 60% aconteceu em redes como o Facebook, Instagram, Snapchat, TikTok e WhatsApp – e 14% dos crimes ocorreram enquanto as vítimas se divertiam em jogos online.

O relatório assinala que o ambiente de jogos online é especialmente propício para o cometimento dessas formas de abuso porque a dinâmica nas relações se baseia em um jogador explorar a confiança do outro.

Mais da metade (57%) dos casos declarados aos pesquisadores envolviam alguém do convívio da criança e do adolescente, incluindo familiares, conhecidos, amigos, namorados e namoradas. O dado contraria o imaginário de que a violência online é perpetrada principalmente por estranhos.

Ao mesmo tempo, ressalta o relatório, 38% das vítimas encontraram seus agressores pela primeira vez na internet, indicativo de que contas fake e o envio de mensagens privadas facilitam as violações. 

Essas experiências causam profundo desgaste emocional e mental. Muitas crianças sofrem em silêncio, sem saber ao certo onde procurar ajuda. Nós não podemos ignorar isso”, afirmou a diretora-executiva do Unicef Catherine Russell.

Coerção

O relatório foi produzido a partir das percepções de 21 mil crianças e adolescentes com idade entre 12 e 17 anos, provenientes de 21 países, entre 2020 e 2025. Nas entrevistas realizadas com os participantes, observou-se como agressores exercem poder sobre as vítimas não somente as convencendo a agir de determinadas maneiras mediante presentes, dinheiro e atenção, mas também por meio da coerção. 

Uma jovem brasileira relatou como seu agressor a chantageou, ameaçando encaminhar à mãe dela mensagens anteriores trocadas entre os dois, caso ela não mandasse a ele mais uma foto. Outra entrevistada comentou que, por anos, vasculhou a internet para garantir que nenhuma imagem sua, inclusive criada como montagem, estivesse circulando sem seu consentimento. O Brasil teve 19% dos entrevistados marcados por este tipo de violência, o equivalente a quase 3 milhões de crianças e adolescentes, e uma parcela de menos de 1% de ocorrências denunciadas. 

A internet respondeu por 55,5% dos casos brasileiros e a escola por 24,5%. Como os canais mais perigosos apareceram os aplicativos de mensagens e as redes sociais (66,5%), com destaque para Instagram (57,2%) e WhatsApp (52,1%). Os jogos online responderam por 12,3%.

Novas ferramentas para aumentar a proteção de crianças e adolescentes

O combate às violações de direitos contra a infância ganhou dois importantes reforços no Brasil. Com o aumento expressivo dos casos de abuso e exploração, novas ferramentas buscam simplificar o caminho das denúncias e preparar educadores, familiares e a comunidade para agir de forma correta ao receberem relatos de violência.

Mapa conecta mais de 3,5 mil Conselhos Tutelares

Para encurtar a distância entre a suspeita e a proteção efetiva, o Movimento Violência Sexual Zero — aliança composta por Childhood Brasil, Instituto Liberta, Grupo Mulheres do Brasil e Vibra Energia — disponibilizou o Mapa Nacional dos Conselhos Tutelares. A plataforma funciona como um canal de localização rápida para mais de 3,5 mil conselhos pelo país, oferecendo contatos atualizados e orientações passo a passo sobre como formalizar denúncias.

O portal orienta os fluxos adequados para cada contexto de violação:

  • Suspeitas gerais e anonimato: Uso do Disque 100, serviço gratuito do governo federal.

  • Situações flagrantes ou emergenciais: Telefones 190 da Polícia Militar (PM) e 191 da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

  • Crimes e abusos no ambiente online: Encaminhamento direto a entidades especializadas, como a SaferNet.

A atenção aos crimes cibernéticos reflete uma mudança alarmante no perfil dessas violações: segundo dados da rede internacional InHope, o Brasil saltou da 27ª posição em 2022 para a 5ª colocação em 2024 no ranking mundial de denúncias de páginas com conteúdos de exploração sexual infantil.

Capacitação para acolher a “revelação espontânea”

A forma como o primeiro relato de violência é recebido por um adulto pode determinar o sucesso ou o insucesso do processo de proteção. Em muitos casos, a vítima busca espontaneamente a ajuda de um professor, familiar ou figura de confiança durante uma conversa informal, brincadeira ou atividade rotineira.

Para capacitar a sociedade a conduzir esses momentos sem revitimizar a criança, o Centro Marista de Defesa da Infância (CMDI) e o Farol 1817 lançaram o curso online e gratuito Revelação Espontânea, realizado em parceria com o Centro Universitário Católica de Santa Catarina e a FTD Educação.

Com carga horária de 22 horas e 23 aulas gravadas, o curso prepara o público para:

  • Escuta qualificada: Evitar atitudes prejudiciais, como expressar choque, fazer perguntas invasivas ou prometer segredos que impeçam o encaminhamento do caso.

Fluxos de atendimento: Entender os caminhos corretos dentro do Sistema de Garantia de Direitos.

  • Papéis institucionais: Diferenciar a responsabilidade pessoal do profissional da conduta esperada pelas instituições de proteção.

  • Legislação vigente: Aplicar as diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e do ECA Digital.

A formação é direcionada a educadores, gestores escolares, conselheiros tutelares, líderes comunitários, agentes pastorais e qualquer adulto que conviva com crianças e adolescentes. As inscrições estão abertas na página do Farol 1817.

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Com Agência Brasil e assessorias

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