No Brasil, onde mais de 30% da população adulta vive com obesidade, segundo dados do Ministério da Saúde, a cirurgia bariátrica e metabólica é um procedimento é utilizada como ferramenta terapêutica para o controle de doenças crônicas associadas ao excesso de gordura corporal.
Nos últimos tempos, entretanto, especialistas têm observado uma redução na procura por cirurgias bariátricas, fenômeno que está diretamente relacionado à popularização e eficácia de medicamentos injetáveis avançados para tratamento da diabetes tipo 2 e da obesidade, como a semaglutida (Ozempic, Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro).
As chamadas “canetas emagrecedoras” também vêm ganhando espaço no tratamento da obesidade, inclusive entre pacientes que apresentam ganho de peso recorrente mesmo após a cirurgia bariátrica. Afinal, quem já passou pelo procedimento pode fazer uso de ‘canetas emagrecedoras’? A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM–SP). emitiu um comunicado em relação aos riscos.
Pacientes podem, sim, ter indicação de tratamento com agonistas de GLP-1 e outras medicações antiobesidade. A avaliação, no entanto, deve ser individualizada e inserida em uma abordagem ampla da obesidade, doença crônica, complexa e multifatorial”, alerta o endocrinologista Marcio Mancini, da Sbem-SP.
Segundo o especialista, a resposta à cirurgia bariátrica varia bastante entre os pacientes e depende, entre outros fatores, da gravidade da obesidade antes do procedimento e da carga genética individual. Pessoas com índice de massa corporal muito elevado costumam ter maior dificuldade para alcançar perda de peso satisfatória e maior chance de apresentar ganho de peso recorrente depois de atingir o nadir, ou seja, o menor peso do pós-operatório.
No Hospital das Clínicas, por exemplo, consideramos ganho de peso recorrente quando o paciente recupera cerca de 20% do peso em relação ao nadir”, conta.
Segundo ele, a recorrência do peso após a cirurgia pode ser um sinal de falha do procedimento, mas, na maioria das vezes, faz parte da evolução clínica da doença crônica que é a obesidade. De acordo com Dr. Mancini, embora em alguns casos seja necessário investigar possíveis alterações anatômicas da cirurgia com exames como endoscopia ou radiografia contrastada, na maior parte das vezes o problema não está na anatomia.
Medicações podem ser usadas no póa-operatório
Nesses pacientes, o uso de medicações pode ter papel importante, inclusive já no pós-operatório precoce, especialmente quando o IMC pré-operatório era muito alto.
Cada vez mais os dados apontam para um papel importante das medicações antiobesidade, particularmente dessas medicações mais modernas à base de GLP-1, ou à base de GLP-1 e GIP, como a tirzepatida”, diz.
O endocrinologista ressalta, porém, que os agonistas de GLP-1 não devem ser vistos como solução isolada nem indicados de forma indiscriminada. Além disso, a decisão terapêutica precisa levar em conta o contexto clínico, nutricional e comportamental. “Não é em qualquer recorrência do peso que o paciente vai utilizar medicamento”, observa.
Dr. Mancini lembra ainda que pacientes bariátricos têm maior risco de desnutrição e, por isso, precisam de seguimento com equipe multidisciplinar, incluindo nutricionista e, muitas vezes, psicólogo, além de atenção à ingestão de alimentos ricos em proteínas, ferro, cálcio, vitaminas e minerais.
Cirurgias revisionais são cada vez menos recomendadas
Outro ponto destacado é a mudança no manejo desses casos. Durante anos, o ganho de peso recorrente após a bariátrica era tratado principalmente com cirurgias revisionais. Hoje, a farmacoterapia moderna vem ganhando espaço por representar uma alternativa promissora, sobretudo para pacientes com maior risco cirúrgico.
Essas cirurgias revisionais carregam um risco maior de complicações em comparação às cirurgias primárias. Então, a farmacoterapia moderna é uma opção promissora”, afirma.
Por fim, ele chama atenção para o desafio do acesso, especialmente no SUS. “Se a gente não tem agonista de GLP-1 nem mesmo para pacientes com obesidade, que não fizeram cirurgia, o que dirá para os pacientes operados. A questão do acesso é muito importante e precisa ser cada vez mais discutida”, conclui.
Por que as canetas estão reduzindo a busca pela bariátrica?
⁃Alternativa menos invasiva.
⁃Resultados clínicos relevantes
⁃Ajuste do tratamento
⁃Menor tempo de recuperação
⁃Maior aceitação entre os pacientes
Bariátrica vai além do emagrecimento e atua no controle de doenças ligadas à obesidade
Apesar de ser indicada para o tratamento da obesidade, a cirurgia bariátrica e metabólica não deve ser associada apenas à perda de peso. Especialistas destacam que a perda de peso é uma consequência do procedimento, entretanto seu grande objetivo é controlar as doenças que estão associadas à obesidade, garantir melhor qualidade de vida ao paciente e aumentar sua expectativa de vida.
O médico Thiago Becker, cirurgião do aparelho digestivo do Hospital Mater Dei Goiânia, destaca explica que os números do peso continuam sendo monitorados, mas não representam, sozinhos, o sucesso do procedimento. “Os números na balança são importantes, mas o maior objetivo é o controle da obesidade e dos problemas de saúde associados”, afirma.
Entre as condições que podem apresentar melhora ou remissão após a cirurgia estão diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, apneia do sono, esteatose hepática, síndrome dos ovários policísticos, doença do refluxo gastroesofágico e artroses. “Na prática, o paciente reduz o risco de doenças cardiovasculares, ganha qualidade e expectativa de vida”, afirma Becker.
A obesidade está diretamente relacionada a uma série de comorbidades que afetam a vida de milhares de pessoas, comprometendo a qualidade de vida. No Brasil, ela é considerada um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares, que seguem entre as principais causas de morte no país, representando aproximadamente 30% de todas as mortes, o que soma cerca de 400 mil óbitos anuais.
Neste cenário, a cirurgia bariátrica aparece como alternativa para pacientes que não respondem de forma eficaz a tratamentos clínicos convencionais, especialmente quando realizada em centros hospitalares com estrutura multidisciplinar.
Quem passa pela bariátrica nunca mais volta a engordar?
Apesar do avanço das técnicas e do aumento do número de procedimentos no país, a cirurgia ainda é cercada por desinformação. Um dos mitos mais frequentes é o de que quem passa pela bariátrica nunca mais volta a engordar. No entanto, especialista é categórico: Não existe nenhum tratamento milagroso para a obesidade. “Se não houver mudança de hábitos de vida, o reganho de peso pode acontecer sim”, explica Becker.
Segundo ele, o reganho pode ocorrer com qualquer abordagem terapêutica. “Isso pode acontecer com cirurgia, com balão e com canetas. A diferença é que a chance de reganho é menor na cirurgia quando comparada a outros tratamentos.” Outro equívoco recorrente é tratar a bariátrica como última alternativa.
Pacientes que não têm resposta eficaz aos tratamentos convencionais, que apresentam muita flutuação de peso e múltiplas comorbidades podem ter benefícios com a cirurgia mais precocemente”, afirma. Para ele, adiar a indicação pode trazer prejuízos clínicos. “Postergar a cirurgia quando já há indicação é dar brecha para o surgimento de novas comorbidades e para o agravamento da obesidade.”
Os resultados do procedimento também variam de acordo com o perfil do paciente. Idade, sexo, grau de obesidade, técnica cirúrgica e condições hormonais influenciam diretamente o desfecho. “Há um grande erro quando se comparam resultados entre pessoas que têm características totalmente diferentes entre si. Cada organismo é único”, diz Becker.
Fertilidade, hormônios e cuidados no pós-operatório
Além das doenças metabólicas, a cirurgia bariátrica pode impactar a saúde reprodutiva. A obesidade está associada a alterações hormonais que afetam a fertilidade de mulheres e homens. Com a perda de peso, esse cenário tende a se modificar, tema acompanhado de perto por equipes médicas em hospitais que também atuam na área materno-infantil.
A cirurgia aumenta a fertilidade, e muito. Com a perda de peso, há um reajuste hormonal importante na saúde sexual da mulher e também do homem”, afirma Becker.
Ele destaca que condições como a síndrome dos ovários policísticos costumam apresentar melhora após o procedimento. “Os ciclos menstruais tendem a se regularizar, melhorando a qualidade dos óvulos e o equilíbrio hormonal.”
Para mulheres que desejam engravidar, existe um intervalo recomendado após a cirurgia. “A orientação é que a gestação ocorra entre um ano e meio e dois anos após a cirurgia, período necessário para estabilização do peso e controle das comorbidades”, explica.
No pós-operatório, o acompanhamento nutricional é contínuo. “A suplementação é obrigatória. É preciso priorizar alimentos ricos em proteínas, utilizar suplementos proteicos e multivitamínicos e manter acompanhamento médico com exames laboratoriais”, afirma. Em casos de gestação, esse cuidado precisa ser ainda mais rigoroso.
Mesmo com os avanços técnicos e a ampliação do acesso a métodos de tratamento, Becker destaca que os resultados da cirurgia dependem do acompanhamento médico contínuo e da adesão às orientações de saúde ao longo do tempo.
Com Assessorias




