A crescente urbanização intensifica desafios relacionados à qualidade de vida nas cidades. Hoje, cerca de 60% da população mundial vive em áreas urbanas, podendo chegar a 68% até 2050, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Esse cenário amplia o potencial de problemas que impactam diretamente a saúde das pessoas, como a poluição sonora.

De acordo com a pesquisadora Rosa Mari Zenha, da unidade Habitação e Edificações do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), o ruído acompanha o processo de concentração populacional nos centros urbanos, mas a expectativa da população é viver em ambientes com níveis mínimos de incômodo sonoro.

É fundamental ampliar a atenção às implicações sociais e ambientais da poluição sonora e aos seus efeitos na saúde e no bem-estar. O tema já vem sendo tratado como um risco crescente, com potencial de se tornar um problema de escala global”, destaca.

A exposição contínua ao ruído está associada a diversos impactos negativos. De acordo com a pesquisadora, trata-se atualmente da terceira maior causa de reclamações em ambientes urbanos, afetando a dinâmica social e a qualidade de vida. “Há amplo conhecimento científico sobre os efeitos do ruído na saúde, tanto em nível individual quanto coletivo”, ressalta.

Política municipal de despoluição sonora na capital paulista

Já existe legislação para combater a emissão de sons muito altos e a poluição sonora nas metrópoles, mas na prática a fiscalização não é observada (Foto: Marcos Santos/USP Imagens)

O Brasil tem questões práticas muito sérias que envolvem a poluição sonora e outros temas importantes da acústica. A cidade de São Paulo é talvez um dos maiores exemplos desta importância, com destaque para a questão do ruído de obras.

Em 2024, um decreto da Prefeitura de São Paulo regulamentou o ruído de obras, trazendo níveis sonoros permitidos por período, com determinação das penalidades e instituindo o PSIU como responsável pela fiscalização.

O problema é que não temos profissionais suficientes neste órgão público para fazer a fiscalização. A regulamentação, se for seguida e fiscalizada, trará grandes benefícios”, diz Marcos Holtz, presidente executivo da Pró-Acústica.

Teddy Yanagiya – Foto: Linkedin

A poluição sonora é um assunto ainda pouco pesquisado no Brasil e há poucos dados sobre as cidades brasileiras. Contudo, estudos de outros países, principalmente os europeus, mostram que os ruídos excessivos causam grande impacto para a vida na metrópole, como revela Teddy Yanagiya, mestre em Acústica Urbana pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP)..

Um estudo publicado em 2020 mostrou que o número de pessoas impactadas por níveis de ruídos superiores a 55 decibéis é de aproximadamente 140 milhões na Europa e, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, qualquer som que ultrapasse 50 decibéis já pode ser considerado nocivo”, destaca o especialista.

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SP debate política municipal de despoluição sonora

Pesquisadora do IPT, Rosa Mari Zenha participa de debate sobre poluição sonora na Câmara Municipal de São Paulo (Foto: Divulgação)

Para discutir os impactos do ruído na saúde e no bem-estar da população e soluções de monitoramento e inovação, a Câmara Municipal de São Paulo sediou nesta segunda-feira (27/4) a 4ª Conferência Municipal sobre Ruído, Vibração e Perturbação Sonora.

Realizado na semana do Dia Internacional de Conscientização sobre o Ruído (INAD), o encontro reuniu especialistas, autoridades públicas, representantes da sociedade civil e convidados nacionais e internacionais.

O ponto central é o fortalecimento de políticas públicas voltadas ao controle do ruído urbano.Entre os temas discutidos, destacou-se o Projeto de Lei nº 123/2026, que propõe a instituição da política municipal de despoluição sonora na capital paulista.

O evento contou com a participação de pesquisadores de referência na área, como Gonzalo Vecina, ex-presidente da Anvisa, e Francesco Aletta, da University College London. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) esteve representado pelo pesquisador Marcelo Aquilino, da unidade Habitação e Edificações, que integrou a mesa de debates.

Desde a década de 1970, o IPT contribui para o enfrentamento da poluição sonora no Brasil. Por meio do Laboratório de Conforto Ambiental e Acústica, o Instituto desenvolve estudos, participa de fóruns técnicos e colabora com a sociedade e o poder público na formulação de políticas e instrumentos regulatórios. “Os conhecimentos gerados pelo IPT têm subsidiado a elaboração de políticas públicas e projetos de lei em diferentes esferas”, conclui Zenha.

Menos ruído e mais saúde por meio da comunicação nas cidades

A Pró-Acústica colabora no desenvolvimento de normas técnicas e produção de conteúdo voltado para a cadeia produtiva, como a revisão das Normas Brasileiras relativas à acústica no ABNT CB 196 Acústica Comitê Brasileiro de Acústica, além de ações que estimulem a criação de Mapas de Ruído em todo o país e de qualificação das empresas por meio do Selo QualiLab.

A entidade trabalha na criação de uma certificação indique a classificação do desempenho acústico de uma edificação, algo similar à Etiqueta Nacional de Conservação de Energia, do InMetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia).

A população em geral ainda não conhece como funciona o desempenho acústico das habitações. A ideia seria tornar o entendimento do desempenho acústico fácil e intuitivo, acessível a toda a população. É um trabalho bastante desafiador que tem que envolver todos os atores do mercado, mas será uma ferramenta importante para mostrar para o público a importância da acústica para a saúde”.

No INAD 2024, a ProAcústica lançou um guia para as prefeituras com um passo a passo para a elaboração de editais para o planejamento de mapas de ruído. A publicação traz aos gestores públicos, que tenham a política ambiental na agenda, orientações para a implementação de políticas públicas contra ruídos.

Campanha de combate à poluição sonora

A Pró-Acústica quer alcance do discurso do conforto acústico com a população por meio da criatividade e do uso das novas tecnologias das redes sociais e da Inteligência Artificial. A ideia é atingir como mais eficácia o maior público possível, com uma comunicação mais social e que ultrapasse o conhecimento de técnicos em acústica, arquitetos, engenheiros e profissionais da saúde.

Temos que ampliar o discurso para além dos profissionais/pesquisadores da área e levar uma mensagem que seja mais acessível para a população”, ressalta Holtz.

O intuito é buscar maneiras de comunicar de forma clara e interessante, durante o ano todo, trazer informações sobre as maneiras que os sons influenciam nosso conforto e saúde, com novas ações em diferentes esferas da sociedade.

Por isso, a ProAcústica quer ampliar o número de atividades de intervenção urbana, com iniciativas que mesclem o debate sobre as questões técnicas da acústica com movimentos político-sociais. O foco é alertar a população para que cobrem os governos e os poderes legislativos e judiciário sobre medidas que combatem os efeitos da poluição sonora.

Só vamos conseguir realmente melhorar as condições de quem sofre com a poluição sonora quando cobrarmos o poder público sobre o que já está definido em lei”.

Ele lembrou que a ProAcústica tem longa experiência com intervenções que têm esse caráter, como as ações realizadas durante o Inad Brasil em São Paulo (Avenida Paulista, Elevado João Goulart e Monumento às Bandeiras) e Porto Alegre (Monumento ao Laçador).

Em agosto de 2025. s  ProAcústica Inter-Noise São Paulo, um dos principais eventos mundiais de acústica, realizado na cidade de São Paulo, atraindo mais de mil especialistas de diversas áreas de acústica do mundo.

Com Assessorias e Jornal da USP

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