A proximidade de uma Copa do Mundo mexe com as emoções de milhões de brasileiros. No entanto, para os torcedores, o famoso jargão “haja coração” deve ser levado muito a sério. O estresse, a ansiedade e a euforia vivenciados durante as partidas da seleção brasileira provocam uma intensa descarga de hormônios no organismo, o que pode sobrecarregar o sistema cardiovascular e funcionar como um gatilho para eventos graves, como infartos, arritmias e acidentes vasculares cerebrais (AVCs).

A percepção de que os jogos mexem com a saúde não é apenas uma impressão popular, mas um fato comprovado cientificamente. Um levantamento da Universidade de São Paulo (USP), baseado nos últimos quatro mundiais, apontou um aumento de até 16% nas internações por problemas cardíacos durante as partidas do Brasil.

Além disso, uma pesquisa publicada na revista Scientific Reports, da Nature, identificou um maior número de internações por infarto na Alemanha durante a Copa do Mundo de 2014 (18.479 casos) em comparação com períodos equivalentes de anos anteriores e posteriores.

Outro estudo clássico, publicado no New England Journal of Medicine durante a Copa de 2006, revelou que o número de emergências cardiovasculares chegou a ser até três vezes maior nos dias de jogos da seleção alemã.

O impacto da emoção no organismo

De acordo com o Dr. Ricardo Alonso, cardiologista do laboratório Labs a+ e da Clínica Felippe Mattoso — marcas que integram o Grupo Fleury —, a forte carga emocional altera diretamente o funcionamento do corpo. “Quando a pessoa está assistindo a um jogo, ocorre uma descarga de adrenalina e cortisol, que é o hormônio do estresse. A frequência cardíaca e o número de batimentos aumentam, e a pressão arterial sobe. Esse quadro faz com que ocorra uma sobrecarga do sistema cardiovascular. Nas pessoas que têm risco maior de complicações cardíacas, pode causar infarto do miocárdio, arritmias e morte súbita”, alerta o médico.

Para indivíduos saudáveis, esse estresse pontual costuma ser bem tolerado. O grande perigo reside naqueles que já possuem fatores de risco ou doenças preexistentes. Álvaro Avezum, head do Centro Especializado em Cardiologia e diretor de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz (HAOC), ressalta que o alerta deve ser interpretado com sensatez, servindo como um chamado à prevenção, e não ao pânico.

A emoção de um jogo importante ativa respostas do organismo relacionadas ao estresse. Em quem já tem doença coronariana, hipertensão arterial sistêmica (HAS) mal controlada ou predisposição a arritmias, esse esforço adicional pode contribuir para uma intercorrência cardiovascular”, explica o Prof. Dr.  Avezum.

Ele aponta que a elevação da pressão e dos batimentos aumenta a demanda de oxigênio pelo coração. Se o torcedor possuir obstruções nas artérias coronárias, esse desequilíbrio pode favorecer sintomas como dor no peito e falta de ar. Em casos extremos, a forte carga emocional pode desencadear até mesmo a cardiomiopatia de Takotsubo, popularmente conhecida como síndrome do coração partido, que reduz temporariamente a função cardíaca.

Fatores agravantes e a “Síndrome do Coração de Feriado”

O risco cardiovascular durante o Mundial se torna ainda maior quando a tensão dos noventa minutos se soma à desorganização da rotina. Fatores como a privação de sono, estresse crônico (familiar ou financeiro), alimentação excessivamente pesada e o consumo exagerado de bebidas alcoólicas atuam como combustíveis para o mau funcionamento do organismo.

Os médicos alertam que o álcool merece atenção redobrada. Além de elevar a pressão arterial e favorecer a desidratação, ele pode mascarar sintomas importantes, retardando a busca por socorro médico. Existe também o risco da Holiday Heart Syndrome (Síndrome do Coração de Feriado), que se caracteriza pelo desenvolvimento de alterações no ritmo do coração (arritmias) após episódios de consumo excessivo de álcool, mesmo em pessoas que nunca tiveram nenhuma doença cardíaca prévia.

Quem deve redobrar a atenção?

O cuidado deve ser máximo para os torcedores que se enquadram nos seguintes grupos de risco:

  • Diagnóstico de hipertensão arterial, diabetes mellitus, colesterol alterado (dislipidemia) ou obesidade abdominal;

  • Histórico pessoal ou familiar de infarto do miocárdio ou Acidente Vascular Cerebral (AVC);

  • Fumantes (tabagismo) e pessoas sedentárias;

  • Indivíduos que convivem com altos níveis de estresse e depressão;

  • Torcedores que, mesmo sem diagnóstico de cardiopatia, apresentam níveis elevados de ansiedade ou vivenciam o futebol de forma excessivamente intensa.

Guia para torcer com segurança e proteger o coração

Para que o período da Copa do Mundo seja sinônimo de celebração e lazer, os especialistas listam recomendações fundamentais para proteger a saúde:

  1. Não interrompa o tratamento: Medicamentos de uso contínuo para pressão, diabetes ou outras condições devem ser tomados rigorosamente nos horários habituais, sem pausas nos dias de jogos.

  2. Modere nos abusos: Evite o excesso de sal nos petiscos, reduza o consumo de alimentos gordurosos e modere significativamente a ingestão de bebidas alcoólicas. Não fume.

  3. Mantenha-se hidratado e confortável: Beba bastante água ao longo do dia e assista às partidas em locais arejados, confortáveis e protegidos do calor excessivo.

  4. Movimente-se: Evite passar horas seguidas sentado diante da televisão. Aproveite o intervalo do jogo para levantar, caminhar por alguns minutos e esticar as pernas.

  5. Faça um check-up preventivo: Pacientes com fatores de risco ou torcedores muito ansiosos podem se beneficiar de uma consulta com um cardiologista ou clínico geral antes do início do torneio para avaliar as condições de saúde.

Sinais de alerta: não espere o jogo acabar

Muitas vezes, por conta do nervosismo da partida, o torcedor tende a negligenciar os primeiros sinais de que algo está errado. No entanto, os médicos são enfáticos: diante de sintomas suspeitos, a saúde deve vir sempre em primeiro lugar.

Fique atento a sinais como:

  • Dor, pressão ou aperto no peito (que pode irradiar para os braços, pescoço ou costas);

  • Falta de ar ou dificuldade para respirar;

  • Palpitações persistentes (sensação de batedeira no coração);

  • Suor frio, tontura intensa, mal-estar fora do comum ou desmaio.

Atendimento precoce salva vidas e reduz incapacitação”, enfatiza o Dr. Álvaro Avezum. O especialista lembra que procurar o Pronto Atendimento imediatamente é crucial para diferenciar uma resposta puramente emocional de uma real emergência cardiovascular. “Na dúvida, o mais seguro é não esperar o jogo acabar, pois o resultado melhor não é o do jogo e sim de sua saúde. Seja o maior torcedor de sua saúde, sempre”, finaliza.

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Com Assessorias

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