Após anos de queda intensificada pela crise sanitária da covid-19, o Brasil vive um momento de retomada gradual das coberturas vacinais infantis. Fruto da mobilização iniciada pelo Movimento Nacional pela Vacinação, o país deixou de figurar na incômoda lista das 20 nações com maior número de crianças sem nenhuma dose registrada — as chamadas “crianças zero dose”.

De acordo com dados oficiais do Ministério da Saúde e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), imunizantes essenciais como a segunda dose da vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola) saltaram de 58% para cerca de 80% de cobertura nos últimos anos. No entanto, o cenário nacional da imunização no Brasil ainda demanda vigilância extrema.

A média geral de cobertura para o conjunto das vacinas do Programa Nacional de Imunizações (PNI) permanece em torno de 85%, abaixo da faixa de 90% a 95% estipulada pelas autoridades de saúde para garantir a imunidade coletiva sustentável e impedir que males eliminados voltem a circular.

Risco da volta do sarampo ao Brasil após a Copa do Mundo

A vacina tríplice viral, por exemplo, é extremamente importante para evitar uma volta do sarampo, após anos de erradicação da doença. A urgência de manter as cadernetas vacinais atualizadas ganha contornos de segurança nacional com a chegada da Copa do Mundo. Surtos da doença nos três países que sediam os jogos – Estados Unidos, México e Canadá – levaram o Ministério da Saúde a lançar uma campanha para evitar a ocorrência de casos após o campeonatomundial.

Lely Stella Guzman Barreira, representante da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), trouxe dados preocupantes recentemente ao participar do II Simpósio Vacinas & Vacinação Pela Saúde Universal, sediado na Escola Superior do Instituto Butantan, em São Paulo. Promovido pela Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil (ACFB), o encontro integrou as ações globais da Organização Mundial da Saúde (OMS) sob o lema “Juntos pela Ciência”.

Lely Stella Guzmán Barrera, representante da Opas, apresenta o panorama global de imunização e faz alerta sobre a reemergência do sarampo nas Américas (Foto: Divulgação)

Este é um chamado para que todas e todos olhemos nossa caderneta de vacinação, verifiquemos que estamos vacinados e, se já tivermos a vacina, passemos essa mensagem para toda a nossa sociedade, para que o sarampo não chegue novamente ao Brasil”, conclamou a representante da Opas/OMS, ao lembrar que em 2026, 16 países do continente americano registram circulação ativa do vírus do sarampo.

O gargalo não é apenas ideológico: o desafio real é o acesso

Para debater esse panorama e traçar caminhos baseados em evidências científicas, o evento reuniu especialistas e autoridades para debater os desafios e avanços da vacinação no Brasil, destacando a discussão em torno da onda antivacinista, amplificada durante a pandemia de Covid-19.

Carmino Antonio de Souza, presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, traçou uma linha histórica mostrando que os sentimentos de complacência e o negacionismo não são fenômenos modernos, lembrando os mortos da Revolta da Vacina de 1904. Ele reforçou o impacto real da imunização como ferramenta de sobrevivência da espécie humana.

O sarampo é uma ameaça real e ativa. O cenário pré-vacinal era de 2,6 milhões de mortes por ano; a vacina salvou, só contra o sarampo, 94 milhões de vidas no mundo. Nós temos que quebrar o ciclo da complacência. E esse é o trabalho de todos nós”, destacou o especialista.

Leia mais

Negacionismo custou 3,4 anos de vida aos brasileiros
Covid: 5 anos depois, acervo da pandemia expõe negacionismo
Vacinação: Novo ministro da Saúde faz ‘cruzada’ contra o negacionismo

Maior dificuldade é a falta de acesso às vacinas

No entanto, um dos dados mais impactantes apresentados no simpósio desconstrói o senso comum de que a baixa vacinação no Brasil decorre exclusivamente de correntes negacionistas ou recusas ideológicas.

Um estudo liderado pelo professor José Cássio de Moraes, da Santa Casa de São Paulo e financiado pelo PNI, apontou que o principal obstáculo enfrentado pela população é a dificuldade estrutural de acesso, citada por 22,9% dos entrevistados.

Barreiras de rotina cotidianas — como os horários restritos de funcionamento das Unidades Básicas de Saúde (UBS), a falta de tempo de pais trabalhadores e entraves burocráticos documentais — pesam mais no cotidiano das famílias do que a militância antivacina.

Ainda assim, a erosão recente na confiança da população acende um alerta: dados do Vaccine Confidence Project revelam que a percepção de que as vacinas são cruciais para a infância caiu de 99% em 2015 para 88% nos indicadores recentes.

Como o SUS pode virar esse ‘jogo’ para fazer mais gols na proteção vacinal?

O diretor do PNI, Eder Gatti, destacou que as velhas fórmulas de comunicação em massa precisam evoluir de forma drástica para atingir o coração das comunidades brasileiras.

As ações que fizemos no varejo, como campanha, vacinação em escola, dia D, já deram o que tinham que dar. Agora, precisamos tocar em feridas específicas dos territórios”, sentenciou Eder Gatti.

Para mitigar esses gargalos, o PNI vem apostando em estratégias descentralizadas como o microplanejamento municipal, a busca ativa escolar e o monitoramento direto de “municípios âncora” (grandes cidades que registram taxas críticas de vacinação).

Outro avanço estrutural é a distribuição de mais de 10 mil câmaras frias científicas via PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) para modernizar a rede de conservação de doses e substituir as geladeiras domésticas ainda muito comuns no interior do país.

Farmácias no circuito do acesso e o combate às supermédicas

Além de reestruturar a vacinação infantil tradicional e avançar em tecnologia tropical, o simpósio trouxe à tona novas fronteiras regulatórias para expandir os pontos de atendimento à população no país.

O fortalecimento das farmácias e drogarias privadas como polos credenciados de imunização, amparados pelas resoluções normativas da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e do Conselho Federal de Farmácia (CFF), tem sido fundamental para capilarizar o acesso à saúde e aproximar a proteção do cotidiano das pessoas.

A ampliação desse cinturão vacinal atua diretamente em outra meta de sobrevivência estipulada pela OMS: o combate à pandemia silenciosa da resistência antimicrobiana (RAM). O uso indiscriminado e errôneo de antibióticos tem gerado cepas de superbactérias letais no ambiente hospitalar e comunitário.

Ao vacinar preventivamente a população contra infecções bacterianas comuns (como pneumonias e meningites) e viroses que costumam gerar infecções secundárias, a medicina reduz de forma drástica a necessidade de uso de antibióticos de amplo espectro.

Cada vez que a cobertura cai, estamos devolvendo terreno a doenças que poderíamos já ter superado. A ACFB existe para que esse recado chegue com clareza à sociedade e aos tomadores de decisão”, concluiu o acadêmico Lauro D. Moretto, coordenador geral do comitê organizador.

Clima, zoonoses e a importância do conceito de ‘Uma Só Saúde’

Carmino Antonio de Souza, da Fundação Butantan, traça panorama histórico da vacinação (Foto: Divulgação)

O simpósio evidenciou de forma categórica que a saúde humana não pode mais ser debatida de forma isolada das transformações que ocorrem na fauna e no meio ambiente. Esse alinhamento é a base fundamental da estratégia Uma Só Saúde (One Health), pilar central defendido pela Opas/OMS para responder de forma eficaz às futuras crises epidemiológicas e pandemias de origem zoonótica.

O avanço vertiginoso das mudanças climáticas em escala global tem provocado uma expansão sem precedentes no território geográfico de vetores como o mosquito Aedes aegypti, levando patógenos de áreas tropicais para regiões que antes não registravam essas enfermidades.

O diretor técnico do Instituto Butantan, Esper Kallás, lembrou o ano devastador de 2024, quando o Brasil ultrapassou a marca de 6 milhões de casos de dengue, e apontou a urgência de encarar o problema de forma sistêmica.

O que aconteceu em 2024 pode ser um prenúncio do que veremos em outros anos, especialmente com o avanço das mudanças climáticas ampliando o território do Aedes aegypti“, alertou o médico.

Vacina do Butantan, agora suspensa, não é a única solução contra a dengue

Esper Georges Kallás, diretor do Instituto Butantan, apresenta os resultados definitivos do estudo de fase 3 da vacina Butantan-DV (Foto: Divulgação)

Nesse contexto desafiador, os holofotes científicos se voltaram para a Butantan-DV, a vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan. Trata-se do primeiro imunizante de dose única do mundo contra a dengue, fabricado com tecnologia 100% nacional e distribuído exclusivamente na rede do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Segundo Esper Kallás, após cinco anos de acompanhamento clínico rigoroso com mais de 16 mil voluntários, a vacina demonstrou eficácia geral de 65% contra casos sintomáticos, oferecendo ampla proteção em subgrupos.  revelou em sua conferência um dado clínico crucial: mesmo nas pessoas imunizadas que contraíram o vírus, a vacina agiu como um potente modulador imunológico.

Aparentemente, o que estamos vendo é que a vacina tem um efeito modulador na replicação do vírus, mesmo se ele escapa da proteção, e isso pode explicar por que as pessoas têm dengue menos grave”, explicou o Dr.Esper Kallás, indicando uma redução drástica na carga viral de pacientes vacinados.

Leia ainda

Vacina da dengue do Butantan é suspensa por precaução
Previna-se de fake news: saiba como fica a vacinação contra a dengue
Estudo clínico avalia eficácia e segurança da vacina contra a dengue

Como retomar a confiança nas vacinas após a suspensão da Butantan IV?

Para o farmacêutico Dante Alário Junior, presidente da ACFB, o simpósio traduz o compromisso histórico da instituição com a saúde pública e com a defesa da ciência. “Reunir, em um único espaço, autoridades sanitárias, pesquisadores e lideranças do setor é fundamental para que a sociedade brasileira retome a confiança nas vacinas e o país recupere os patamares de cobertura que sempre lhe deram protagonismo global em imunização”, declarou.

O evento ocorreu alguns dias antes de a nova vacina do Butantan ser suspensa pela Anvisa para investigação de eventos adversos que culminaram em dois óbitos. O episódio, infelizmente, tem servido de munição para a ala negacionista alinhada ao bolsonarismo,  ainda mais em tempos de radicalização da polarização, por conta da proximidade das eleições gerais de outubro,

Embora necessária e prudente diante da gravidade das ocorrências, a repercussão negativa da medida sanitária não deixa de representar um passo atrás na luta para recuperar a confiança da população. Entretanto, é importante destacar que embora a ciência brasileira demonstre capacidade competitiva de ponta na área biotecnológica, a vacina, isoladamente, não encerra a batalha.

A imunização contra a dengue deve somar forças a projetos de controle biológico consolidados — como o método Wolbachia —, ao uso de inteligência artificial na vigilância epidemiológica e, crucialmente, ao preparo da rede de atendimento primário para identificar rapidamente os sintomas graves de alarme clínicos.

📲 Quer receber nossas notícias direto no seu celular? Clique aqui para se inscrever no canal do Portal Vida e Ação no WhatsApp e não perca nenhuma atualização!

Com informações da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil (atualizada em 15/06/2026)

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *