Após anos de queda intensificada pela pandemia de Covid-19, o Brasil vive um momento de retomada das coberturas vacinais infantis. Resultado da mobilização iniciada em 2023 pelo Movimento Nacional pela Vacinação, o país deixou de figurar, em 2024, entre os 20 com maior número de crianças sem nenhuma dose registrada (as chamadas “crianças zero dose”).

Segundo dados oficiais do Ministério da Saúde e do UNICEF, vacinas-chave do calendário infantil também tiveram recuperação significativa: a segunda dose da Tríplice Viral, por exemplo, passou de 58% para cerca de 80% de cobertura nos últimos anos.

Apesar da recuperação parcial registrada em 2024 e 2025, o Brasil ainda enfrenta um cenário desafiador na cobertura vacinal infantil. Segundo dados do Ministério da Saúde, apenas duas vacinas do calendário do PNI (a BCG e a hepatite B aplicada nas primeiras horas de vida) atingiram em 2025 a meta nacional.

A média de cobertura para o conjunto das vacinas permanece em torno de 85%, abaixo da faixa de 90% a 95% considerada segura para impedir a reintrodução de doenças já controladas, como o sarampo e a poliomielite. e para sustentar a imunidade coletiva.

Para a Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil (ACFB), esse quadro evidencia a urgência de qualificar o debate público sobre imunização e de fortalecer a articulação entre as áreas científica, regulatória e assistencial. A entidade realiza nesta terça-feira (2/6) no Instituto Butantan, em São Paulo, o II Simpósio Vacinas & Vacinação Pela Saúde Universal: Imunizações e Prevenção de Doenças”.

O encontro, gratuito e aberto ao público, com transmissão simultânea, reúne autoridades sanitárias, pesquisadores e lideranças do setor farmacêutico para debater os principais desafios da imunização no país e o papel das vacinas no enfrentamento de duas prioridades da Organização Mundial da Saúde (OMS) para 2026: as doenças não transmissíveis e a resistência aos antimicrobianos.

Hesitação vacinal e queda de cobertura entram no centro do debate

A conferência sobre o tema, intitulada “Hesitação vacinal e desafios para a vacinação no Brasil”, será conduzida por Eder Gatti Fernandes, diretor do Programa Nacional de Imunizações (DPNI) do Ministério da Saúde, e debate o impacto da desinformação, das desigualdades de acesso e da fragilização das campanhas de comunicação em saúde.

Estudos sobre o comportamento populacional indicam que a hesitação vacinal não se limita à rejeição ideológica e se organiza em três dimensões principais: barreiras estruturais e de rotina (horários restritos das Unidades Básicas de Saúde, falta de tempo dos pais e burocracia documental), desinformação e polarização nas redes sociais, e uma falsa sensação de segurança nas gerações mais novas, que não conviveram com os impactos diretos de doenças como a poliomielite e o sarampo.

A queda de coberturas vacinais não é um problema isolado nem repentino. Ela é resultado de uma combinação de fatores que precisam ser enfrentados de forma articulada: desinformação, perda de percepção de risco em relação a doenças que estavam controladas e desorganização do acesso ao longo da pandemia. O simpósio é uma oportunidade de discutir, com base em evidências, o que está dando certo e o que ainda precisa ser corrigido”, afirma Nelson Franco, coordenador da Comissão Organizadora do simpósio.

Para a ACFB, retomar coberturas elevadas e estáveis depende do fortalecimento da Atenção Primária à Saúde, da busca ativa por agentes comunitários, da vacinação em ambientes escolares, de campanhas de comunicação segmentadas por região e do enfrentamento ativo da desinformação digital. Iniciativas como o aplicativo “Meu SUS Digital”, que centraliza o calendário e o histórico de vacinação do cidadão, também colaboram para reduzir barreiras de acesso e qualificar a relação da população com a imunização.

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Avanços contra a dengue ganham destaque em simpósio

Em 2024, o Brasil registrou 6,5 milhões de casos prováveis de dengue, número quatro vezes maior do que o do ano anterior, segundo o Ministério da Saúde. Desde o início dos anos 2000, mais de 20 milhões de brasileiros já tiveram a doença, em ciclos sazonais que pressionam de forma severa o sistema de saúde.

Nesse contexto, a aprovação da Butantan-DV pela Anvisa, em novembro de 2025, marca uma virada estratégica: trata-se da primeira vacina contra a dengue do mundo em dose única, com produção 100% nacional, ofertada exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a partir de 2026, com foco inicial em crianças e adolescentes.

Os avanços científicos e tecnológicos no desenvolvimento da vacina são tema central do II Simpósio Vacinas & Vacinação Pela Saúde Universal. A conferência “Inovações científicas e tecnológicas no desenvolvimento da vacina antidengue” será conduzida por Esper Georges Kallás, diretor técnico do Instituto Butantan.

Nos resultados de fase 3, acompanhados ao longo de cinco anos e encaminhados à Anvisa, a Butantan-DV apresentou eficácia geral de 74,7%, eficácia de 91,6% contra dengue grave e com sinais de alarme, e 100% contra hospitalizações na faixa etária de 12 a 59 anos. A tecnologia utiliza vírus vivo atenuado e protege contra os quatro sorotipos do vírus (DENV-1 a DENV-4).

O contrato inicial do Ministério da Saúde com o Instituto Butantan prevê 3,9 milhões de doses, e uma parceria internacional do Butantan com a empresa chinesa WuXi deve ampliar a produção para cerca de 30 milhões de doses no segundo semestre de 2026.

A estratégia brasileira combina a nova vacina a outras frentes igualmente reconhecidas internacionalmente. O método Wolbachia, que consiste na liberação de mosquitos Aedes aegypti com uma bactéria que os impede de transmitir os vírus da dengue, zika e chikungunya, já é realidade em diversos municípios brasileiros, com reduções drásticas na incidência de casos nas áreas cobertas.

Em paralelo, ferramentas de vigilância epidemiológica baseadas em inteligência artificial e o monitoramento climático em tempo real têm permitido que governos estaduais e prefeituras se antecipem a surtos e aloquem recursos de saúde antes que a transmissão atinja níveis críticos.

O Brasil mostra, com a Butantan-DV, que é capaz de produzir ciência de fronteira e responder a problemas reais de saúde pública. Mas é importante reforçar que vacina é parte de uma estratégia mais ampla: o controle do Aedes aegypti continua sendo decisivo, e o manejo clínico ágil, com reconhecimento precoce de sinais de alarme como dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos, segue sendo a chave para reduzir a letalidade da doença. Imunização, controle vetorial e cuidado em rede são complementares, não substitutos”, afirma Lauro D. Moretto, coordenador da Comissão Organizadora do simpósio.

Vacinas em farmácias e o desafio da resistência antimicrobiana

Além do desafio da hesitação vacinal e da queda nas coberturas entre o público infantil e dos avanços brasileiros com a vacina 100%  nacional contra a dengue, o evento traz outros eixos temáticos que dialogam diretamente com a agenda internacional em saúde:Vacinas ao longo da história: transformações da saúde global e promoção da longevidade saudável’ e ‘Vacinas e vacinação no contexto do combate à resistência aos antimicrobianos (RAM), tema considerado pela OMS uma das maiores ameaças à saúde global;

O programa também contempla apresentações sobre inovações industriais e logísticas em vacinação, incluindo plataformas de envase, soluções de inspeção visual e o papel das farmácias na ampliação do acesso à imunização, eixo que ganhou força no Brasil após a Resolução RDC 197/2017 da Anvisa, que reconheceu farmácias e drogarias como pontos de vacinação, e da Resolução CFF nº 16/2024, que regulamenta a prescrição de vacinas por farmacêuticos.

Vacinação no Brasil: avanço recente, mas ainda abaixo da meta

O simpósio integra a iniciativa promovida pela Federação Internacional Farmacêutica (FIP) e pela OMS no âmbito da campanha global do Dia Mundial da Saúde de 2026, que tem como tema “Juntos pela saúde. Apoie a ciência.”.

A escolha do tema pela OMS reforça a importância da pesquisa, da inovação e de políticas públicas baseadas em evidências como pilares da saúde da população, e dialoga com o conceito de “Uma Só Saúde”, que reconhece a saúde humana, animal e ambiental como dimensões interdependentes.

As vacinas estão entre as intervenções mais eficazes já criadas pela humanidade e seguem sendo determinantes para a longevidade saudável, para o fortalecimento dos sistemas de saúde e, mais recentemente, para o enfrentamento de ameaças como a resistência antimicrobiana”, reforça Dante Alário Junior, presidente da ACFB.

Segundo ele, o II Simpósio Vacinas & Vacinação Pela Saúde Universal traduz o compromisso histórico da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil com a saúde pública e com a defesa da ciência.

Reunir, em um único espaço, autoridades sanitárias, pesquisadores e lideranças do setor é fundamental para que a sociedade brasileira retome a confiança nas vacinas e o país recupere os patamares de cobertura que sempre lhe deram protagonismo global em imunização”, afirma o  acadêmico.

Com informações da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil 

 

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