A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR1) pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que exige das empresas a identificação e gestão de perigos como assédio e sobrecarga, é visto por especialistas como um divisor de águas para a dignidade no ambiente de trabalho.

Os números não mentem e revelam um cenário dramático: em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior índice da série histórica segundo dados do Ministério da Previdência Social. A escalada de casos de depressão, ansiedade e síndrome de burnout expõe uma crise que vai muito além das planilhas de Recursos Humanos das empresas.

A NR-1 determina que empresas passem a identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais, como assédio moral, pressão excessiva por metas, jornadas exaustivas, conflitos interpessoais, falta de autonomia e outros fatores que possam comprometer a saúde mental dos trabalhadores, incorporando essas análises ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).

Embora a atualização da NR–1 que passou a valer no final de maio de 2026, após um ano de prorrogação do prazo —  tenha sido celebrada por especialistas, ela enfrenta uma resistência silenciosa — e lucrativa — de setores que temem o peso das sanções administrativas.  Empresas, sobretudo as de maior porte, temem multas salgadas, podendo chegar a quase R$ 1 milhão.

Mas, para quem defende a vida, a pergunta permanece: quanto vale a saúde de um trabalhador?

Novo prazo não é carta branca para empresas desrespeitarem a lei

A recente decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de suspender por 90 dias a aplicação de multas relacionadas às novas exigências sobre riscos psicossociais no ambiente de trabalho reacendeu o debate sobre saúde mental nas empresas.

Embora a medida suspenda temporariamente as sanções administrativas enquanto governo, empregadores e trabalhadores buscam construir parâmetros técnicos mais claros para a fiscalização, especialistas afirmam que ela não elimina a responsabilidade das organizações de prevenir fatores que contribuem para o adoecimento psicológico de seus colaboradores.

Especialistas ouvidos pelo VIDA E AÇÃO são unânimes: o período de suspensão não deve ser interpretado pelas empresas como uma ‘carta branca’ para a negligência. Pelo contrário, este tempo deve servir para que as organizações substituam a cultura da pressão desenfreada por políticas de segurança psicológica real.

Na avaliação de especialistas em saúde mental corporativa, o período de suspensão pode ser decisivo para que as empresas fortaleçam programas de prevenção, capacitem lideranças e desenvolvam metodologias consistentes de identificação e gerenciamento dos riscos psicossociais.

‘A multa pode ter sido suspensa. O adoecimento, não’

Para psiquiatra, empresas que priorizam o lucro sobre a saúde mental estão construindo ambientes de autodestruição

A decisão não altera a realidade do chão de fábrica e dos escritórios. Para o psiquiatra corporativo Daniel Sócrates, a discussão sobre a NR1 a partir do novo adiamento determinado pelo STF pode representar uma oportunidade para aperfeiçoar os mecanismos de avaliação dos riscos psicossociais, sem perder de vista a urgência do problema.

A multa pode ter sido suspensa. O adoecimento, não. Todos os dias milhares de profissionais continuam enfrentando ansiedade, exaustão e sofrimento emocional dentro das organizações. Essa é uma realidade que nenhuma decisão judicial consegue interromper”, conclui.

Para a psicóloga organizacional Soraia Pena, especialista em saúde mental no trabalho, a decisão do STF representa uma oportunidade para amadurecer tecnicamente a norma, mas não deve ser interpretada como um adiamento da agenda de saúde mental nas organizações.

A suspensão das multas traz um ambiente mais favorável para discutir critérios técnicos e segurança jurídica, o que é importante. Mas ela não suspende a realidade do sofrimento existente em muitos ambientes de trabalho. Sobrecarga, assédio, insegurança psicológica, metas incompatíveis e culturas organizacionais adoecedoras continuam existindo, independentemente do calendário das fiscalizações”, afirma.

Saúde mental não é pauta de RH, é questão de dignidade

Muitas empresas ainda tratam o bem-estar como um custo. No entanto, o adoecimento emocional gera um prejuízo social incalculável e, inclusive, financeiro para a própria organização, através de rotatividade (turnover), queda de produtividade e passivos trabalhistas.

O principal risco agora é o “presenteísmo” — quando o trabalhador está fisicamente presente, mas mentalmente exausto ou doente devido ao ambiente hostil. Para os especialistas, ignorar os riscos psicossociais por medo de uma multa é um erro estratégico.

Segundo o psiquiatra corporativo Daniel Sócrates, é importante que as empresas não interpretem a decisão como uma autorização para reduzir ou abandonar iniciativas voltadas ao bem-estar psicológico dos colaboradores. Segundo ele, a discussão jurídica sobre a NR1 não deve desviar a atenção de um problema que já afeta produtividade, retenção de talentos e sustentabilidade dos negócios.

Independentemente da existência de multas, as empresas continuam expostas aos custos do adoecimento emocional. Funcionários afastados, aumento do presenteísmo, queda de produtividade, rotatividade elevada e passivos trabalhistas relacionados à saúde mental permanecem sendo riscos concretos para qualquer organização”, explica.

Para o especialista em saúde mental no trabalho, o principal risco neste momento é que algumas empresas interpretem a suspensão das multas como um sinal de que a pauta pode ser colocada em segundo plano.

A saúde mental já ultrapassou os limites do departamento de Recursos Humanos. Hoje ela impacta diretamente indicadores de desempenho, inovação, clima organizacional e competitividade. Empresas que ignoram esse cenário podem enfrentar consequências muito maiores do que uma eventual penalidade administrativa”, alerta.

Medo da exposição pode mascarar riscos reais

Psicóloga alerta para o perigo da “maquiagem” corporativa

A psicóloga Soraia Pena alerta para um fenômeno perigoso: o uso de pesquisas internas de clima como ferramenta de controle, em vez de escuta. A consultora em segurança psicológica corporativa mental no trabalho alerta que o principal risco para as organizações é acreditar que indicadores aparentemente positivos refletem, de fato, um ambiente saudável.

A NR-1 exige que a empresa identifique riscos reais. Muitas empresas apresentam índices positivos porque os funcionários têm medo de denunciar o assédio ou a sobrecarga. Se a cultura é baseada no medo, a empresa está cega e o trabalhador está desprotegido

Uma pesquisa interna com baixo índice de relatos de estresse, assédio ou sobrecarga não necessariamente indica ausência de risco psicossocial. Em muitos casos, pode indicar ausência de segurança para relatar o problema. Esse é um ponto crítico para a NR-01, porque a norma exige que a empresa identifique riscos reais do ambiente de trabalho, e não apenas percepções filtradas pelo medo de exposição”, afirma.

A atualização da NR–1 traz luz a um ponto fundamental: o adoecimento no trabalho não é um “problema individual” do funcionário, mas o resultado de um ambiente que adoece quem nele trabalha. Enfrentar esse desafio não deveria depender de medo de multa, mas de uma ética inegociável de respeito ao ser humano.

Durante muito tempo, riscos psicossociais foram tratados como questões individuais. Hoje sabemos que fatores organizacionais também influenciam diretamente o adoecimento. Ambientes marcados por excesso de pressão, baixa previsibilidade, comunicação inadequada e ausência de segurança psicológica impactam não apenas as pessoas, mas os resultados das empresas.”

Ela também chama a atenção para o risco de que algumas empresas concentrem sua atenção apenas na possibilidade de punição. Quando reduzimos essa discussão ao medo da multa, perdemos a oportunidade de enfrentar o verdadeiro problema.

A questão central não é quanto custa uma autuação, mas quanto custa manter ambientes que geram afastamentos, alta rotatividade, conflitos, presenteísmo, perda de produtividade e desgaste humano.”

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Debate vai além da fiscalização: critérios técnicos mais claros

Especialistas afirmam que período deve ser usado para diagnóstico e preparação, e não para adiar adequações

A decisão judicial trouxe à tona uma discussão legítima sobre a necessidade de critérios mais transparentes para a avaliação dos riscos psicossociais. O psiquiatra corporativo Daniel Sócrates pondera que este é um passo importante para a maturidade do setor.

A saúde mental precisa ser tratada com seriedade e com parâmetros objetivos. É fundamental que existam metodologias bem definidas para que as empresas saibam exatamente como identificar, monitorar e reduzir esses riscos”, afirma.

Nesse contexto, o médico cita referências internacionais, como a norma ISO 45003, que orienta a gestão de fatores psicossociais e já é adotada com sucesso por organizações em diversos países.

Por outro lado, a psicóloga Soraia Pena lembra que a proteção ao trabalhador não depende exclusivamente da nova regulamentação e que a própria Constituição Federal já assegura aos trabalhadores o direito à redução dos riscos inerentes ao trabalho. Segundo ela, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) impõe aos empregadores o dever de cumprir normas de saúde e segurança.

A NR1 amplia esse olhar para os riscos psicossociais, mas a responsabilidade de proteger a saúde dos trabalhadores não surgiu agora. Ela já fazia parte das obrigações das organizações.”

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Cuidar da saúde mental não deve ser só uma obrigação

O psiquiatra corporativo Daniel Sócrates destaca que o cuidado com a saúde emocional dos trabalhadores deve ser encarado como estratégia de gestão e não apenas como obrigação regulatória.

Organizações saudáveis tendem a ter equipes mais engajadas, menor absenteísmo, maior capacidade de inovação e melhores resultados. O desafio não é apenas cumprir uma norma, mas construir ambientes de trabalho sustentáveis para as pessoas e para o negócio.”

Para a psicóloga Soraia Pena, a atualização da NR1 representa uma mudança importante na forma como o mundo corporativo enxerga saúde mental. Segundo ela, o futuro do trabalho será cada vez mais medido pela capacidade das organizações de conciliar desempenho e cuidado com as pessoas.

Empresas maduras não investem em saúde mental apenas para cumprir uma norma, mas porque compreenderam que ambientes psicologicamente seguros geram inovação, engajamento e resultados sustentáveis“, conclui Soraia.

Com Assessorias

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