Com o avanço da proposta de fim da escala 6×1 no Congresso Nacional e a entrada em vigor, nesta mesma semana, da atualização da Norma Regulamentadora número 1 (NR–1), do Ministério do Trabalho e Emprego, que amplia a responsabilidade das empresas sobre riscos psicossociais no ambiente de trabalho, cresce entre especialistas e companhias a percepção de que saúde mental, bem-estar e produtividade estão se consolidando como temas centrais na agenda corporativa.
A comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (27), por 34 votos a 4, a PEC que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais em duas etapas. A proposta segue agora para o Plenário da Câmara e, em seguida, para o Senado. Na prática: 60 dias após a promulgação, a jornada passa para 42 horas com dois dias de folga semanais. Depois de 12 meses, o limite cai para 40 horas definitivamente.
A discussão sobre jornada de trabalho reacende um debate mais amplo sobre os impactos de modelos exaustivos de operação na performance das empresas. Isso porque, embora grande parte da discussão pública esteja concentrada no impacto financeiro de uma eventual redução de jornada, especialistas apontam que ainda existe uma conta pouco explorada nesse debate: o custo invisível da exaustão profissional sobre afastamentos, turnover, engajamento e produtividade.
O avanço do debate sobre o fim da escala 6×1 amplia a discussão sobre descanso e produtividade. O projeto traz à reflexão uma mudança concreta na forma como o trabalho impacta o cérebro humano. Para o psiquiatra Daniel Sócrates, o impacto é profundo: “O sofrimento mental no trabalho sempre existiu, mas era invisível. Agora, ele entra na lei. Isso muda tudo — da gestão à forma como o trabalhador entende o próprio limite.”
Nesse cenário, a nova NR–1 passa a exigir que riscos psicossociais — como sobrecarga, metas abusivas, assédio e jornadas excessivas — sejam oficialmente mapeados e gerenciados pelas organizações. A nova reforça um movimento já em curso ao pressionar empresas a tratarem fatores de saúde mental e ambiente psicossocial de forma mais estruturada, elevando o tema a uma agenda de compliance, gestão de risco e sustentabilidade operacional.
Para Rui Brandão, CFO da Conexa, o mercado passa a reconhecer que produtividade não está diretamente associada apenas ao volume de horas trabalhadas, mas também à capacidade das organizações de manter equipes saudáveis, engajadas e operando em condições sustentáveis de performance ao longo do tempo.
Segundo o psiquiatra Daniel Sócrates, o Brasil vive um ponto de inflexão: “Saúde mental deixou de ser discurso de bem-estar e virou questão legal e estratégica. Ainda há muito a avançar, mas o cenário já não é o mesmo. O país começou a fazer uma pergunta essencial: quanto descanso o cérebro precisa para funcionar bem? Essa é uma virada cultural importante”.




