Grávida de 18 semanas, a técnica de enfermagem Fernanda Lopes de Almeida, de 41 anos, é acompanhada na Maternidade-Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)  devido a um quadro de hipertensão e histórico de diabetes gestacional.  Ela conta como a orientação individualizada transformou sua jornada.

Sou muito bem atendida, me sinto segura. Foi difícil essa adaptação [da alimentação] e até a conscientização. Agora, acho que estou curtindo bem melhor a gestação, uma fase mais tranquila”, relata Fernanda, evidenciando como o cuidado humanizado devolve o protagonismo e o bem-estar à mulher.

O caso de Fernanda é um bom exemplo de como o Brasil pode enfrentar um grave e doloroso desafio de saúde pública: a perda anual de centenas de mulheres durante a gestação ou no período de até 42 dias após o parto.

A razão de mortalidade materna no país é de 56,4 a cada 100 mil nascidos vivos, segundo os dados de 2024 do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM-Datasus), disponibilizados pelo Observatório da Saúde Pública da Umane — associação que fomenta iniciativas no âmbito da saúde pública no país.

Brasil longe da meta de redução da mortalidade maternoinfantil

Embora o número represente uma retomada aos níveis observados antes da pandemia de Covid-19, o total de 1.347 óbitos em um ano ainda está longe da meta de 30 mortes estabelecida pelo Brasil. Além disso, o índice nacional mascara realidades regionais profundas: enquanto o país estabiliza, estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste registram taxas alarmantes, comparáveis ao auge da crise sanitária mundial.

O cenário se torna ainda mais doloroso diante do diagnóstico da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas): 90% dessas mortes poderiam ser evitadas. Neste 28 de maio — data que une o Dia Internacional de Ação pela Saúde da Mulher e o Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna —, a discussão ganha urgência para resgatar os direitos das gestantes e puérperas e estruturar uma assistência que acolha a saúde da mulher em sua integralidade, priorizando a dignidade humana acima das barreiras burocráticas.

Pré-natal de qualidade e o acolhimento na ponta

Chefe da Unidade da Saúde da Mulher da Maternidade-Escola UFRJ, Maria Isabel Peixoto (Foto Tomaz Silva/Agência Brasil)

A garantia de um desfecho favorável para a mãe e o bebê começa pela captação precoce da gestante na rede de saúde. Quando o acompanhamento é iniciado logo nas primeiras semanas de gravidez, a identificação de fatores de risco permite intervenções em tempo hábil.

A médica Maria Isabel Peixoto, chefe da Unidade da Saúde da Mulher da Maternidade-Escola da UFRJ — instituição que é referência no atendimento de alta complexidade —, reforça que a qualidade assistencial é o principal escudo contra as complicações.

A gente sabe que com um pré-natal bem feito, de qualidade, de preferência o mais precoce possível para pegar todas as variáveis, conseguimos, na grande maioria das vezes, entregar uma paciente pronta para um parto monitorizado num local com boa assistência e com um desfecho favorável”, explica a especialista.

As estatísticas apontam que as chamadas causas obstétricas diretas — aquelas ligadas a complicações decorrentes do estado gravídico — respondem por 66% dos óbitos no país. No topo da lista estão as síndromes hipertensivas, hemorragias graves, infecções puerperais e complicações decorrentes do aborto.

A geografia da desigualdade e os reflexos da pandemia

Na contramão da média nacional, quatro estados brasileiros permanecem em níveis críticos de mortalidade materna, superando inclusive o limite de até 70 mortes por 100 mil nascidos vivos estabelecido pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) para 2030.

O caso mais grave é o de Roraima, que apresentou a maior Razão de Mortalidade Materna (RMM) do país em 2024: 132,4 mortes por 100 mil nascidos vivos. O índice é superior à pior média nacional registrada no pico da pandemia (114,2 em 2021). Logo em seguida aparecem o Piauí, com uma taxa de 88,2; Goiás, com 76,5; e o Rio Grande do Norte, também com 76,5.

Evelyn Santos, gerente de investimento e impacto social da Umane, pondera que, em estados com menor população, o indicador flutua mais rápido, mas ressalta que o foco deve ser a prevenção.

Os números evidenciam que a redução da mortalidade materna ainda ocorre de forma desigual no Brasil. Em locais como Roraima, que registra cerca de 12 mil nascidos vivos por ano, cada óbito materno acrescenta 8 pontos no indicador. Independentemente disso, sabemos que grande parte da mortalidade é evitável e que suas causas podem ser resolvidas na interação da gestante com os serviços de saúde e proteção social antes, durante e logo após o parto”, analisa Evelyn.

O poder da multidisciplinaridade no SUS

Para Renné Costa, formação de enfermeiros contribui para redução da mortandade materna (Foto Renné Costa/Arquivo Pessoal)

Para reverter os indicadores de mortalidade, a articulação entre diferentes saberes profissionais se mostra indispensável. A atuação conjunta de médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais cria uma rede de proteção mais robusta e sensível às demandas de cada paciente.

O enfermeiro obstétrico Renné Costa, membro do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), defende ferrenhamente a união das categorias profissionais em torno do binômio mãe-filho.

A gente precisa acreditar muito na multidisciplinaridade das profissões. Cada uma no seu quadrado, cada uma fazendo o seu papel, mas todo mundo centrado nos objetivos que, nesse caso, são a mãe e o bebê”, pontua.

Com uma bagagem de mais de 5 mil partos realizados desde 2009 — em sua grande maioria no Hospital Municipal de Viçosa, em Alagoas —, Costa traz um exemplo prático de como a valorização da enfermagem obstétrica transforma realidades locais.

Sob sua atuação e amparado pela Lei do Exercício Profissional da Enfermagem (Lei nº 7.498/1986), o hospital de Viçosa saltou de uma média de 90 partos anuais para 600. O dado mais importante: nenhuma mulher ou criança foi perdida ao longo dessa trajetória.

Uma em cada cinco grávidas não atinge o pré-natal mínimo

As disparidades regionais de mortalidade não acontecem por acaso; elas se sobrepõem aos gargalos de acesso à assistência básica. Um estudo realizado pelo Centro Internacional de Equidade em Saúde (CIES) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em parceria com a Umane, revelou que 20% das gestantes brasileiras não conseguiram realizar o mínimo de sete consultas de pré-natal recomendadas pelo Ministério da Saúde.

O levantamento aponta que, à medida que a gestação avança e o número de consultas exigidas aumenta, cai progressivamente a proporção de mulheres que conseguem concluir o acompanhamento. A barreira é geográfica, racial e educacional: enquanto a região Sul registra cerca de 86% de cobertura assistencial completa, a região Norte despenca para 64%.

A exclusão é ainda mais severa quando o recorte alcança as populações originárias, conforme alerta o epidemiologista Aluísio Barros, diretor do CIES/UFPel e coautor do estudo.

Números globais escondem desigualdades importantes. Na região Norte, 4 em cada 10 mulheres não têm sete ou mais consultas. Entre as mulheres indígenas, o número sobe para 5 em cada 10. E se olharmos para as gestantes indígenas com menos de quatro anos de escolaridade, mais de 6 em cada 10 não conseguem o acompanhamento mínimo. Essa informação é essencial para o planejamento dos serviços se queremos equidade na atenção ao parto, sem deixar ninguém para trás”, adverte Barros.

Puerpério: o período em que a mãe fica invisível

Se o acompanhamento durante a gestação exige atenção, o pós-parto — o chamado puerpério — é historicamente um momento de vulnerabilidade silenciosa. Após o nascimento do bebê, as atenções familiares e sociais costumam se voltar integralmente ao recém-nascido, deixando a puérpera em segundo plano.

A ginecologista e obstetra Inessa Beraldo de Andrade Bonomi, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Gestação de Alto Risco da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), alerta que o distanciamento dos serviços de saúde faz com que os primeiros sinais de gravidade sejam ignorados ou naturalizados.

“A mulher vai para casa e, muitas vezes, ela acaba sendo menos olhada pelos serviços da rede de saúde e também pela família”, adverte a médica.

A recomendação da Febrasgo é que o retorno para a consulta puerperal ocorra de forma precoce, entre o 7º e o 10º dia após o parto, para avaliar as condições clínicas preexistentes e monitorar a evolução física da mulher.

Sinais de alerta no pós-parto que exigem socorro imediato:

  • Sangramento vaginal muito acima do habitual

  • Febre ou calafrios

  • Falta de ar e dor no peito

  • Dor de cabeça intensa que não cede com analgésicos comuns

  • Alterações visuais (como a visão de pontinhos de luz ou escotomas)

  • Picos hipertensivos persistentes

Preservar a saúde mental é salvar vidas

O olhar integral sobre a mãe também passa, obrigatoriamente, pelo bem-estar psíquico. O sofrimento emocional no pós-parto pode se manifestar por meio de exaustão extrema, ansiedade, tristeza profunda, medo desproporcional de cuidar do bebê e dificuldade de estabelecer o vínculo materno.

Nos quadros mais severos, o surgimento de psicoses puerperais ou ideações de autoagressão impõe um atendimento de urgência. De acordo com Inessa Bonomi, a abordagem sensível e imediata da saúde mental é um pilar indispensável para prevenir desfechos trágicos no ambiente familiar.

Redes de proteção e o resgate da dignidade

Para tentar corrigir as profundas assimetrias regionais e raciais que marcam a saúde reprodutiva no país, o governo federal estruturou a Rede Alyne, um programa focado na redução de 25% na mortalidade materna geral e de 50% entre mulheres pretas e pardas. A iniciativa substitui e reformula as diretrizes da antiga Rede Cegonha.

O nome do programa carrega uma carga simbólica profunda e serve como um lembrete histórico da negligência que se busca erradicar. Trata-se de uma homenagem a Alyne Pimentel, jovem negra que, em 2002, aos 28 anos e grávida de seis meses, faleceu por falta de atendimento médico adequado na rede pública do município de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. O caso gerou repercussão internacional e levou à condenação do Estado brasileiro pela Organização das Nações Unidas (ONU) por violação dos direitos humanos.

Garantir que histórias como a de Alyne e de tantas outras centenas de mulheres não se repitam exige mais do que protocolos frios: demanda o fortalecimento do SUS, o investimento na formação de equipes multidisciplinares e, sobretudo, um compromisso social com a dignidade, o respeito e a sensibilidade no momento mais marcante da vida de uma mulher.

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Preservar a saúde mental é salvar vidas

O olhar integral sobre a mãe também passa, obrigatoriamente, pelo bem-estar psíquico. O sofrimento emocional no pós-parto pode se manifestar por meio de exaustão extrema, ansiedade, tristeza profunda, medo desproporcional de cuidar do bebê e dificuldade de estabelecer o vínculo materno.

Nos quadros mais severos, o surgimento de psicoses puerperais ou ideações de autoagressão impõe um atendimento de urgência. De acordo com Inessa Bonomi, a abordagem sensível e imediata da saúde mental é um pilar indispensável para prevenir desfechos trágicos no ambiente familiar.

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Para tentar corrigir as profundas assimetrias regionais e raciais que marcam a saúde reprodutiva no país, o governo federal estruturou a Rede Alyne, um programa focado na redução de 25% na mortalidade materna geral e de 50% entre mulheres pretas e pardas. A iniciativa substitui e reformula as diretrizes da antiga Rede Cegonha.

O nome do programa carrega uma carga simbólica profunda e serve como um lembrete histórico da negligência que se busca erradicar. Trata-se de uma homenagem a Alyne Pimentel, jovem negra que, em 2002, aos 28 anos e grávida de seis meses, faleceu por falta de atendimento médico adequado na rede pública do município de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. O caso gerou repercussão internacional e levou à condenação do Estado brasileiro pela Organização das Nações Unidas (ONU) por violação dos direitos humanos.

Garantir que histórias como a de Alyne e de tantas outras centenas de mulheres não se repitam exige mais do que protocolos frios: demanda o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), o investimento na formação de equipes multidisciplinares e, sobretudo, um compromisso social com a dignidade, o respeito e a sensibilidade no momento mais marcante da vida de uma mulher.

Agenda Positiva

Ciência e capacitação na vanguarda da saúde feminina

Em meio aos desafios urgentes expostos neste 28 de maio — data que une o Dia Internacional de Ação pela Saúde da Mulher, o Dia Nacional de Combate à Mortalidade Materna e o Dia da Dignidade Menstrual —, o cenário médico se mobiliza em busca de soluções práticas, tecnológicas e assistenciais para transformar essa realidade.

Entre os dias 27 e 30 de maio, a Febrasgo reúne a comunidade científica nacional e internacional no Minascentro, em Belo Horizonte (MG), para a realização do 63º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia (CBGO 2026). O maior evento da especialidade no país debaterá diretamente os pilares necessários para a redução dos índices de mortalidade e a ampliação dos direitos das pacientes.

Com mais de 230 atividades científicas e a participação de mais de 300 palestrantes, o congresso prioriza a medicina baseada em evidências para o aprimoramento da prática clínico-cirúrgica e obstétrica. Na pauta de debates, ganham destaque temas cruciais para a segurança das gestantes e puérperas, tais como:

  • Manejo da Gestação de Alto Risco: debates focados no que o obstetra precisa saber para antecipar diagnósticos e salvar vidas.

  • Treinamentos práticos (Hands-on): capacitação imediata de médicos residentes em Urgências Obstétricas, uma das principais ferramentas para conter mortes evitáveis na hora do parto.

  • Planejamento familiar e métodos contraceptivos: painéis sobre a escolha de contraceptivos hormonais e o uso de dispositivos intrauterinos (DIU), essenciais para a autonomia reprodutiva.

  • Rastreamento e prevenção de cânceres: debates sobre a nova era de prevenção do câncer do colo do útero (via autocoleta e testes de DNA-HPV), além do diagnóstico precoce de cânceres de mama e de ovário.

Formação de futuros especialistas e inovação global

O CBGO 2026 também marca a estreia do GO Experience, o primeiro congresso voltado exclusivamente para acadêmicos de Medicina integrantes de ligas de ginecologia e obstetrícia, garantindo que a próxima geração de médicos já ingresse no mercado com uma visão voltada ao atendimento humanizado e às técnicas cirúrgicas modernas. Na ala tecnológica, o evento traz parcerias com a Sociedade de Cirurgia Robótica (SRS) para discutir inovações em telecirurgia.

A troca de experiências para o fortalecimento das redes públicas de saúde — como o Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil — ganha contornos globais com a presença de lideranças internacionais, incluindo Frank Louwen, presidente da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (Figo), além de especialistas vindos dos Estados Unidos, Portugal, Itália e de nações de língua oficial portuguesa, como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.

Iniciativas científicas e educacionais deste porte alimentam a esperança e traçam caminhos reais para que as metas de redução da mortalidade materna deixem de ser apenas números no papel e passem a salvar vidas de mulheres em todo o território nacional.

Com informações da Agência Brasil e Assessorias

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