Eu sou da época em que as escolas de ensino médio aplicavam testes vocacionais para ajudar os estudantes a escolher uma carreira. As opções pareciam mais previsíveis. O vestibular era encarado como uma decisão baseada nas disciplinas de maior afinidade e desempenho. Não que a escolha fosse simples, mas o horizonte profissional parecia menos instável do que hoje.
Essa percepção ficou ainda mais evidente para mim quando li sobre uma iniciativa na Austrália. Professores e orientadores reagiram à chegada de um coach de carreira baseado em Inteligência Artificial, previsto para atender estudantes em até mil escolas. A proposta é auxiliar jovens a refletirem sobre seu futuro profissional. A ideia desperta questionamentos importantes a meu ver.
Orientação vocacional não se resume a cruzar dados ou sugerir profissões com base em padrões estatísticos. Ela envolve escuta, diálogo, conhecimento da trajetória do estudante e compreensão de seu contexto social, familiar e emocional.
Há ainda preocupações relacionadas ao uso de dados dos alunos, à influência de interesses corporativos e à crescente comercialização do ambiente escolar. No caso australiano, o projeto conta com patrocínio da Coca-Cola. Fico me perguntando qual o verdadeiro interesse da empresa pelos dados dos jovens.
É fácil imaginar no Brasil redes de ensino interessadas em soluções semelhantes. Afinal, virou moda seguir o hype. Sabemos que a tecnologia promete escala, rapidez e redução de custos. O problema surge quando a orientação humana passa a ser substituída por recomendações automatizadas.
A IA pode ser uma ferramenta útil para ampliar repertórios, apresentar possibilidades e apoiar pesquisas sobre profissões. Outra coisa é transformá-la na principal conselheira de decisões que podem influenciar toda uma trajetória de vida.
No meu caso, queria ver se teria IA para acertar os rumos da minha carreira à época: hoje sou jornalista de formação, mas tenho Letras e Biblioteconomia como cursos incompletos e, em breve, serei pedagogo diplomado.
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Mais de 12 mil cursos obsoletos ou saturados já extintos
A discussão se torna ainda mais complexa quando observamos o que acontece na China. Enquanto escolas experimentam o uso da IA para orientar escolhas profissionais na Oceania, universidades, no Oriente, reformulam sua oferta de cursos em resposta às transformações provocadas pela própria tecnologia.
Entre 2021 e 2025, o Ministério da Educação chinês suspendeu ou extinguiu cerca de 12.200 cursos de graduação considerados obsoletos ou saturados e criou aproximadamente 10.200 novos programas voltados para Inteligência Artificial, tecnologia avançada e setores estratégicos da economia.
Os cortes atingiram principalmente áreas com alta taxa de desemprego ou nas quais sistemas de IA já executam parte das atividades operacionais. Entre os cursos mais afetados estão fotografia, design de moda, design de comunicação visual, tradução, idiomas estrangeiros, gestão urbana, administração pública e algumas formações tradicionais ligadas à gestão e aos negócios.
Mas a presença da IA não termina na orientação vocacional nem na reorganização dos cursos universitários. Ela já participa da seleção de candidatos para estágios e vagas de emprego faz tempo. Sistemas automatizados analisam currículos, identificam palavras-chave, classificam perfis e ajudam recrutadores a lidar com milhares de inscrições.
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Etarismo e fit cultural influenciam nos processos seletivos
Sob a perspectiva das empresas, há ganhos evidentes de eficiência, rapidez e redução de custos. No meu caso, muitas empresas sequer me selecionaram porque eu não passo na triagem por conta da idade. Etarismo e falta de “fit cultural” são presentes nos meus processos seletivos.
Ao mesmo tempo, surgem novas preocupações. Algoritmos podem reproduzir vieses presentes nos dados utilizados para treinamento, privilegiar determinados perfis e dificultar a compreensão dos critérios que levaram uma candidatura a avançar ou ser descartada. Em muitas situações, o candidato sequer sabe que foi avaliado por um sistema automatizado.
No Brasil, muitos estudantes do ensino médio precisam decidir o que fazer após a escola em um cenário marcado por rápidas transformações tecnológicas, novas exigências do mercado e incertezas sobre quais profissões existirão daqui a alguns anos.
É justamente nesse ponto que entram experiências que dificilmente serão substituídas por algoritmos: a conversa em família, a presença da escola no processo de orientação e o contato direto com profissionais que vivem a realidade das diferentes carreiras.
Sempre que eu recebo convite para conversar com estudantes sobre jornalismo, procuro aceitar. Vejo que é parte da minha função como professor da área. Nenhum sistema consegue reproduzir integralmente o valor de um relato construído a partir da experiência, dos erros, das escolhas, das dúvidas e dos caminhos percorridos ao longo da vida profissional.
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