“Eu pensei que a inteligência artificial lavaria a louça enquanto nós escreveríamos livros. Hoje, ela está escrevendo os livros enquanto nós lavamos a louça.”

Ouvi essa frase do meu amigo Doug Alvoroçado durante uma atividade da imersão Educamídia, realizada no 4º Encontro Internacional de Educação Midiática. Todos riram, claro. Eu também. Mas, como acontece com as melhores ironias, a frase continuou ecoando na minha cabeça nos dias seguintes.

Pensar assim expõe uma inversão curiosa das promessas tecnológicas que nos acompanham há décadas. Acreditávamos que as máquinas assumiriam as tarefas repetitivas para que os seres humanos pudessem dedicar mais tempo à criação, à reflexão, à arte e ao conhecimento. O cenário que se desenha hoje parece caminhar em outra direção.

Nem mesmo a chamada Internet das Coisas, que prometia conectar objetos cotidianos e automatizar parte da vida diária, nos libertou do excesso de tarefas. Continuamos administrando agendas, respondendo mensagens, resolvendo burocracias e tentando sobreviver ao fluxo incessante de informações que atravessa nossas telas.

Enquanto isso, a inteligência artificial segue automatizando diversos processos, escrevendo textos, produzindo imagens, resumindo livros, criando apresentações, editando vídeos, interpretando exames médicos, elaborando planos de aula e até gerando podcasts completos sob demanda.

Foi durante essa mesma imersão que encontrei outra provocação capaz de dialogar com a frase do Doug. Na newsletter A Promptificação da Humanidade, Leonardo José de Souza argumenta que a grande transformação provocada pela IA não é tecnológica, mas cognitiva. Segundo ele, estamos aprendendo a pensar em prompts. Nossa interação com o mundo digital passa a ocorrer, cada vez mais, por meio de comandos, solicitações e perguntas dirigidas a sistemas capazes de responder instantaneamente.

Durante muito tempo, o esforço cognitivo esteve concentrado na busca por respostas. Hoje, elas chegam em segundos. O desafio deslocou-se para outro lugar: formular boas perguntas. Essa mudança me fez lembrar de Byung-Chul Han. Em Sociedade do Cansaço, o filósofo argumenta que deixamos de ser sujeitos da obediência para nos tornarmos sujeitos do desempenho.

Não vivemos mais sob a lógica do “você não pode”. Vivemos sob a lógica do “você consegue”. E, mais recentemente, sob a lógica do “você deveria conseguir”.

A inteligência artificial (IA) encaixa-se perfeitamente nesse cenário. Ela acelera processos, reduz atritos e produz resultados em velocidade impressionante. Mas há uma inquietação que não consigo abandonar: o que acontece com a educação quando as respostas chegam antes mesmo de amadurecermos as perguntas?

Durante a imersão, Luiz Francisco Vargas Madriz, envolvido no desenvolvimento da Avaliação de Alfabetização Midiática e Inteligência Artificial do PISA 2029, e Yonty Friesem, do Media Education Lab e da UNESCO MIL Alliance, ajudaram a ampliar minhas reflexões. Falamos sobre alfabetização midiática, inteligência artificial, pensamento crítico, empatia digital e desenvolvimento humano. Saí do encontro com uma convicção reforçada: precisamos discutir menos o que a IA faz e mais o que ela está fazendo conosco.

Han alerta que o excesso de informação pode enfraquecer nossas capacidades analíticas. Em No Enxame, o mesmo afirma que “o excesso de informação faz com que o pensamento definhe”. Já Hannah Arendt, ao refletir sobre a atividade de pensar, inspira-nos a compreender o pensamento não como mera acumulação de informações, mas como um processo de reflexão e atribuição de sentido ao mundo.

Esse é um dos grandes desafios da educação contemporânea. Não basta ensinar estudantes a utilizar inteligência artificial. Será preciso ensiná-los a questionar respostas prontas, identificar vieses, avaliar fontes, reconhecer interesses econômicos, sustentar dúvidas e distinguir informação de conhecimento. Informação acumulada não produz necessariamente compreensão. Da mesma forma, respostas rápidas não produzem pensamento crítico.

A IA pode ampliar extraordinariamente as possibilidades de aprendizagem. Mas isso dependerá da forma como a incorporamos às nossas práticas sociais e educacionais. Há um caminho em que a IA expande capacidades humanas. Há outro em que ela as terceiriza.

Volto à frase do Doug Alvoroçado, então, pois a louça na pia não para de crescer. Não me preocupa que uma IA consiga escrever um artigo, um poema ou um livro. O que me preocupa é encontrar estudantes que recebem respostas sem fazer perguntas, profissionais que aceitam conclusões sem conferir fontes e leitores que deixam de desconfiar porque a explicação parece convincente.

Pensar dá trabalho, gente. Exige atenção. Quantas vezes nós já não tevivemos que voltar atrás e admitirmos que estávamos errados? Nenhuma ferramenta resolveu isso até hoje. Pelo contrário. Estamos acertando muito e mais rápido.

Quando a atividade da imersão terminou, seguimos para outras discussões. A frase do Doug, porém, continuou comigo. Dias depois, ela ainda está aqui. É porque essa reflexão fala menos sobre inteligência artificial e mais sobre nós mesmos.

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *