O tratamento do câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC) avançado ou metastático obteve o maior tempo de sobrevida livre de progressão já registrado na história da oncologia. Durante a reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO 2026), em Chicago, nos Estados Unidos, foram apresentados os dados inéditos de acompanhamento de sete anos do estudo clínico de fase 3 CROWN. A pesquisa avaliou o medicamento oral lorlatinibe, uma terapia-alvo de terceira geração desenvolvida pelo laboratório Pfizer, voltada para pacientes que apresentam uma alteração genética específica conhecida como mutação ALK-positivo.
Os resultados, publicados simultaneamente no periódico científico Annals of Oncology, apontam uma mudança fundamental no prognóstico da doença em estágio avançado. De acordo com o investigador principal do estudo, Tony Shu-Kam Mok, professor e chefe do Departamento de Oncologia Clínica da Universidade Chinesa de Hong Kong, atingir esse nível de controle de longo prazo com uma terapia oral de uso diário era algo difícil de imaginar há uma década, consolidando a medicação como o tratamento preferencial padrão na primeira linha.
Números históricos e proteção contra metástase cerebral
O câncer de pulmão é a principal causa de morte por tumores no mundo. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra cerca de 32 mil novos casos por ano da doença, figurando como um dos tipos mais incidentes no país. O CPNPC representa entre 75% e 80% desses diagnósticos, e a mutação ALK-positivo responde por cerca de 3% a 5% dos casos. Um dos maiores desafios nesses pacientes é o sistema nervoso central: cerca de 25% a 40% das pessoas desenvolvem metástases cerebrais em até dois anos após o diagnóstico inicial, quadro que reduz drasticamente a qualidade de vida.
Os achados de longo prazo do estudo CROWN, que dividiu de forma comparativa 296 pacientes sem tratamento prévio entre o lorlatinibe e a terapia de primeira geração (crizotinibe), revelaram dados sem precedentes:
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Controle da doença em sete anos: Após 84 meses de acompanhamento, 55% dos pacientes tratados com o lorlatinibe permanecem vivos e sem nenhum avanço da doença, contra apenas 3% no grupo controle.
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Redução do risco de progressão: A mediana de sobrevida livre de progressão global ainda não foi atingida no grupo do lorlatinibe, demonstrando uma razão de risco ($HR = 0,19$). Na prática, isso significa uma redução de 81% no risco de o câncer avançar ou levar o paciente a óbito.
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Blindagem cerebral prolongada: O medicamento foi desenhado para atravessar a barreira hematoencefálica e demonstrou uma redução de 94% no risco de progressão intracraniana ($HR = 0,06$). A medicação conseguiu prevenir e controlar as metástases no cérebro de forma duradoura, com ausência de novos eventos após os primeiros 30 meses de tratamento.
Em relação à segurança, o perfil se manteve consistente com análises anteriores. Os eventos adversos mais comuns incluíram edema (inchaço), ganho de peso, neuropatia periférica e alterações cognitivas ou de humor. Eventos graves de graus 3 e 4 ocorreram em 77% dos pacientes, contudo, a taxa de descontinuação definitiva por toxicidade foi de apenas 5%, e nenhum tratamento foi interrompido por efeitos colaterais após os primeiros 26 meses de uso. No marco de sete anos, 44% dos pacientes avaliados continuavam em tratamento ativo com a medicação.
Cenário regulatório no mercado brasileiro
No Brasil, o lorlatinibe possui uma trajetória regulatória consolidada na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O medicamento recebeu o primeiro registro em 2020 para casos que haviam falhado a terapias anteriores e, em 2021, obteve a aprovação para uso em primeira linha de tratamento — cenário avaliado pelo estudo apresentado em Chicago. Desde 2022, a molécula faz parte do rol de cobertura obrigatória dos planos de saúde privados no país.
A consolidação de tratamentos orais altamente eficazes de primeira linha reforça a importância da expansão do mapeamento genético e do diagnóstico molecular no ecossistema de saúde. Identificar precisamente a mutação de cada paciente no início da jornada permite que terapias de precisão como essa evitem a progressão da doença de forma prolongada, transformando o que antes era um prognóstico desfavorável em uma condição clínica controlada a longo prazo.
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